Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Como o MEI pode aumentar as chances de acesso ao crédito

Gestão das finanças, separação entre pessoas física e jurídica, além de conhecimentos sobre modalidades de crédito, estão entre recomendações para microempreendedores

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2021 | 15h23

Ter acesso ao crédito pode ajudar a iniciar uma empresa, fazê-la crescer ou tirá-la do sufoco em tempos de crise. Porém, na busca por um empréstimo, o microempreendedor individual (MEI) pode enfrentar uma corrida mais árdua. Entre os motivos estão a falta de conhecimento sobre opções adequadas, organização deficitária e relacionamento ainda fraco com as instituições financeiras. O cenário é antigo, mas algumas dicas podem aumentar as chances de obter o recurso.

No ano passado, dos R$ 87 bilhões concedidos a pequenos negócios no segundo trimestre, apenas 5% foram destinados a MEIs. Embora o volume de crédito tenha registrado alta de 35% no período, o número de empresas que tiveram acesso a algum valor cresceu somente 1%. Isso indica que só tem êxito quem já possui um relacionamento bancário sólido e uma boa organização financeira.

"A gente costuma analisar o MEI, a baixa renda, com viés de alta renda. E esse julgamento vem junto com o preconceito de que a vida financeira da baixa renda é simples, mas é mais complexa. Pelo fato de não ter acesso ou de ter acesso limitado, ele acaba tendo de se virar nos 30. O número de instrumentos financeiros que a pessoa usa ao mesmo tempo é alto, uns dez, mas a maior parte são informais, como vindo de família ou permuta", analisa Marcelo Moraes, fundador da MEI Fácil e diretor da área de pessoa jurídica da fintech Neon.

Segundo ele, essa forma como as instituições financeiras encaram o perfil do microempreendedor individual já é uma barreira para conceder crédito. Somam-se a isso a "assimetria de informação" com esse público, que não conhece as opções de crédito, e o modelo tradicional que não atende às necessidades do pequeno, com preços muito altos.

Para o professor de finanças Ricardo Rocha, do Insper, não saber se organizar é mais um dos impeditivos para ter acesso a crédito. "Ainda está muito distante do MEI essa habilidade gerencial da força de trabalho, porque ele não foi educado para ser empreendedor. É válido que o crédito seja buscado no momento do aperto, mas o certo seria controlar as finanças." O especialista indica que é comum o microempreendedor misturar as contas da pessoa física com a da pessoa jurídica, o que torna o controle financeiro mais difícil.

Para aprender a organizar as finanças, a educação continuada (em que o aprendizado é mantido em constante atualização, de acordo com as mudanças do mercado) é um dos caminhos para manter o empreendimento de pé. Veja aqui opções de cursos online gratuitos.

Uma opção é o curso Desvendando o Crédito, voltado a microempreendedores que desejam entender as possibilidades de investimento e crédito. A programação online é oferecida por meio de uma parceria entre a Aliança Empreendedora e o Center for Inclusive Growth, e está com inscrições abertas por esse link até 4 de abril. Essa também é a data limite para realizar o curso.

Quem garante o crédito

O professor Ricardo Rocha aponta também que oferecer algo como garantia para receber o empréstimo gera preocupação e resistência, principalmente se for um bem familiar. "A pessoa pode se afundar em dívidas e perder o patrimônio."

Os cooperados atendidos pelo Sicoob, instituição financeira cooperativa, igualmente relatam que, antes de ingressar na cooperativa, enfrentavam dificuldades com a garantia a ser oferecida na operação de crédito. É o que conta Francisco Reposse Junior, diretor comercial e de canais da instituição.

Para superar essa barreira, o Sicoob oferece sociedades garantidoras de crédito, em que o MEI pode se valer dela para ofertar aos bancos. "A gente faz um trabalho de orientação e é muito positivo quando o empreendedor tem sociedade garantidora que avaliza para ele e dá garantia", afirma o porta-voz. Ele diz que isso é importante porque a política geral baseada no perfil de risco do empreendedor leva em consideração aspectos que podem não fazer parte da realidade do MEI.

"A maioria das instituições avaliam se tem experiências em outros lugares com crédito e, à medida que vai trabalhando com a instituição, o ranking vai melhorando. Isso faz com que o risco melhore e as condições de crédito também. O próprio Serasa tem um score, e as instituições também pesam isso", diz Reposse Junior.

O que motiva o MEI a buscar crédito?

Com 11,3 milhões de microempreendedores formalizados no Brasil, a demanda por crédito pode ser dividida em quatro categorias, segundo Marcelo Moraes, da Neon:

  • investir no negócio e crescer;
  • capital de giro;
  • pagamento de pequenas contas; 
  • oportunidade.

Neste último caso, ele explica: "Quando aparece uma oportunidade de negócio, ele vai atrás, vê a necessidade de atacá-la muito rápido". Dependendo do caso, porém, o empreendedor pode nem precisar de um empréstimo.

É importante que ele entenda o momento do seu negócio, quais são seus recursos e as opções. Às vezes, organizar melhor o fluxo financeiro pode ajudar a fechar a conta. Em caso de dúvidas, vale a pena investir em consultorias para MEI (há serviços gratuitos), em que um profissional especializado vai analisar e orientar o dono do negócio.

Então, como aumentar as chances de obter crédito?

É unânime entre os especialistas ouvidos pelo Estadão PME que ter um negócio bem organizado, fazer a devida divisão de contas da pessoa jurídica para a física e um conhecimento aprofundado do seu empreendimento é o pontapé na busca por crédito financeiro. Confira as dicas de Ricardo Rocha, Marcelo Moraes e Francisco Reposse Junior:

  • Organize-se

Separe o dinheiro que é da empresa daquele que é seu, pessoa física. Evite atrasar o pagamento de contas e ficar negativado, pois quanto menos pendências e nome limpo melhor. Se precisar, busque orientação empresarial com consultores especializados.

  • Tenha relacionamento bancário

Ter conta em algum banco é o que ainda permite a instituição avaliar melhor o perfil do cliente, de acordo com as movimentações. Quanto mais você concentrá-las em uma ou poucas instituições, maior a chance de ser conhecido. Geralmente, é indicado que o crédito seja pedido no mesmo banco em que se tem a conta, mas algumas fintechs deixam o cliente escolher onde quer colocar o dinheiro.

Caso o empreendedor não tenha relação com a instituição na qual vai pedir o empréstimo, a iniciativa open banking, lançada pelo Banco Central, pode facilitar o processo. O serviço permite o compartilhamento de dados dos clientes entre os bancos com o objetivo de oferecer produtos e serviços sob medida e com custos mais baixos.

  • Diga a verdade

Francisco Reposse Junior orienta fornecer as informações reais sobre seu negócio. "Mesmo que não tenha balanço, é importante ser muito transparente na relação com qualquer instituição", diz.

  • Conheça as modalidades de crédito

O professor Ricardo Rocha destaca que algumas instituições oferecem linhas de crédito específicas para a compra de computadores e impressoras, por exemplo. É importante pesquisar e ver qual opção se encaixa no seu momento. Outra dica é que bancos públicos têm um direcionamento melhor para empresas menores, além das fintechs, que possibilitam acesso mais fácil ao recurso.

Uma pesquisa do Sebrae mostrou que 91% dos donos de pequenos negócios não sabem sobre o Empresa Simples de Crédito (ESC), uma modalidade que realiza operações de empréstimos e financiamento exclusivamente para MEI, microempresas e empresas de pequeno porte. Existe, ainda, a possibilidade de empréstimos em instituições financeiras por meio de canais digitais e maquininhas de cartão.

  • Atenção para buscar empréstimo

O diretor comercial do Sicoob orienta que o MEI fique atento às condições do crédito oferecido, principalmente ao prazo e às taxas de juros. Ele comenta que os valores das cooperativas são mais baixos do que dos bancos tradicionais e, segundo dados da instituição, a taxa para capital de giro, por exemplo, é de 11,30% ao ano, enquanto no Sistema Financeiro Nacional é de 11,50%.

Por fim, se o microempreendedor não precisa de empréstimo, mas está em busca de financiamento, de olho em crescer como empresa, existem tipos diferentes de investimento, entre reembolsáveis e não reembolsáveis. Confira aqui.

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