Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Epopeia de microempreendedor em busca de crédito revela face amarga da crise

Principal programa do governo, Pronampe já liberou R$ 28 billhões por meio de 19 instituições financeiras; segundo o Sebrae, 54% dos pequenos negócios do País buscaram crédito, mas só 21% conseguiram recursos 

Anna Barbosa, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 18h27

A luta pela sobrevivência de um pequeno empreendedor em tempos de crise do coronavírus pode não ser uma realidade para 100% das micro e pequenas empresas do País, mas ilustra uma parcela que ainda tem dificuldade para acessar programas de crédito a juro baixo, como o Pronampe. É o caso de Maurício Delfino, da marca DaMinhaCor, que buscou o financiamento do governo federal em três bancos e, mesmo com todos os documentos regularizados e sem dívidas, não conseguiu o crédito em nenhum deles até agora.

O Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) foi aprovado em maio com uma verba de R$ 15,9 bilhões. Depois disso, o programa recebeu novos aportes e até agora já foram concedidos R$ 28,2 bilhões para mais de 395 mil empresas. Somado a outros programas de crédito público, micro e pequenos empreendedores tiveram a chance de disputar R$ 35 bilhões no País durante a crise. 

No caso do Pronampe, 42% da verba ficaram com pequenas empresas e 41,1% com microempresas, segundo dados da plataforma Emprestômetro, desenvolvida pelo Ministério da Economia com o apoio do Sebrae. 

Segundo a última edição do Observatório MPE, feita pelo Sebrae, entre os meses de março e julho cerca de 54% dos pequenos negócios buscaram crédito, mas apenas 21% deles conseguiram obter recursos nesse período. A pesquisa, realizada entre 27 e 30 de julho, indica que o porcentual de quem consegue o crédito tem aumentado, mas em um ritmo mais lento do que a demanda. 

No meio do montante de quem ainda luta para manter o negócio de pé com ajuda do governo está Maurício Delfino. “Como nós importamos alguns produtos da China, em dezembro nós sabíamos do coronavírus, mas não tínhamos noção que isso chegaria no Brasil”, comenta Maurício, que faz toucas de natação para cabelos afro. Na época, optaram por abastecer o estoque para 6 meses imaginando que 2020 fosse ser um ano bom.

“Vendemos muito bem em janeiro e até a segunda quinzena de fevereiro. Em março, com o fechamento das academias, a venda das toucas caiu a zero.” O faturamento zero perdurou até meados de agosto, diz ele.

Ao saber da primeira fase do Pronampe, entre maio e junho, Maurício buscou o crédito, enquanto equilibrava os gastos fixos da empresa com as vendas das maquiagens para pele negra. Crédito negado. Na segunda fase do programa, foram até a gerente do banco, correram atrás da documentação e esperaram até o dia da liberação.

No dia em questão, às 10h, o sistema do programa dizia que ele não teria limite pré-aprovado e que dependia da gerente do banco. No banco, disseram que era o contrário. “Às 16 horas recebemos uma mensagem dizendo que a verba do programa estava esgotada.”

Para o empreendedor, fica a frustração. “É muito difícil ter acesso a esse dinheiro. Mesmo que eu contrate fábricas no Brasil, que eu gere empregos e que eu movimente a economia, eu não recebo suporte”, conta ele.

Maurício Delfino conta ter procurado crédito no Santander, no Bradesco e na Caixa. Procurado, o Santander informou que o Fundo Garantidor de Operações (FGO), administrador do Pronampe, disponibilizou ao banco R$ 1,3 bilhão na segunda fase do programa e que este volume foi integralmente liberado em pouco mais de um dia.

“A demanda atingiu mais de 4 vezes o volume disponível de recursos, fazendo com que muitos de nossos correntistas ficassem sem acesso à linha. Entretanto, o banco segue oferecendo outras linhas para esse público, como é o caso do crédito em folha de pagamento no âmbito do Programa Emergencial de Suporte a Empregos (Pese) e FGI.”

O Bradesco informou que a concessão de crédito é feita com base em critérios de avaliação de dados cadastrais de cada cliente e diz que atuou ativamente na concessão das linhas do Pronampe, operando todo o volume que foi disponibilizado ao banco. O banco afirma que entrará em contato com o cliente para esclarecer o assunto. A Caixa ainda não se posicionou sobre o ocorrido.

Segundo a pesquisa do Sebrae, dentre os bancos mais procurados para o crédito do Pronampe estão a Caixa Econômica (58%), o Banco do Brasil (25%) e o Itaú (21%).

Burocracia e falta de garantias

De acordo com Márcio Montella, gerente da unidade de gestão financeira do Sebrae, as pesquisas da entidade apontam que os maiores problemas para o crédito em geral chegar ao empreendedor são empresa negativada, burocracia dos bancos, taxas altas e falta de garantias.

“Desses quatro (motivos), o programa Pronampe resolve três: taxas competitivas, garantia do FGO (Fundo Garantidor de Operações) e tem liberações rápidas. Fora isso, há uma questão extremamente relevante, que são as carências de 8 meses para começar o pagamento.”

Depois de sua primeira fase, o Pronampe estendeu a possibilidade de tomada de crédito para profissionais liberais e ampliou a participação para 19 instituições financeiras, com a estreia de Bradesco e Santander. Veja abaixo quanto os principais bancos ligados ao Pronampe já liberaram:

Caixa Econômica

Responde por 36,4% dos valores do Pronampe

Já liberou um total de R$ 10,6 bilhões para mais de 111 mil empresas

Banco do Brasil

Responde por 22,1% dos valores

Já liberou um total de R$ 6,8 bilhões para mais de 109 mil empresas

Itaú

Responde por 12,5% das operações

Liberou na 1ª fase mais de R$ 3,6 bilhões para cerca de 36 mil empresas (não informou os valores totais, somando a 2ª fase)

Outros bancos privados como Bradesco e Santander tinham R$ 1,3 bilhão de recurso para o programa e também tiveram seus recursos esgotados. Além deles, a Sicredi ofereceu 88% do seu volume disponível até 22 de setembro, sendo R$ 278,1 milhões para microempresas e R$ 835,1 milhões para pequenas empresas.

O Banco do Nordeste recebeu orçamento de R$ 268 milhões e já liberou R$ 124 milhões. Enquanto isso, o Banco da Amazônia recebeu um total de R$ 539 milhões nas duas fases e já liberou cerca de 80% desse valor para pequenas empresas.

Márcio Montella, do Sebrae, explica que uma das formas de aumentar a capilaridade do programa poderia ser por meio de canais alternativos, como crédito por meio de SCD (sociedade de crédito direto) e por fintechs. “Estamos começando a pavimentar um caminho, mas o trabalho precisa ser continuado.”

* Estagiária sob a supervisão da editora do Estadão PME, Ana Paula Boni

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