Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Educação continuada é o caminho para manter negócios criados na pandemia

Iniciados em meio a uma crise econômica, empreendedores podem ainda precisar de conhecimentos técnicos de gestão; veja opções de cursos para administrar um empreendimento e desenvolver habilidades pessoais

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 10h00

Antes de tirar do papel a ideia do empreendimento próprio, Waléria dos Santos Castro, de 40 anos, buscou saber como estruturá-lo da melhor forma possível e já se preparar para os desafios que poderia enfrentar. Ela e o filho, que é sócio, investiram em cursos para aprender sobre plano de negócio, criar planilhas para lidar com fluxo de caixa e usar estrategicamente as redes sociais na divulgação. "Se não tivesse feito os cursos, não teria tido tanto sucesso, acho que teria fechado ou nem tirado do papel", afirma a empresária de Vicente Pires, no Distrito Federal.

Era um sonho antigo de Lucas Vinicius Castro, de 21 anos, ter um negócio de hot dog gourmet, então mãe e filho uniram esforços e encontraram uma oportunidade em meio à adversidade. No final de 2019, a empresa para a qual ela trabalha reduziu a carga horária e o salário dos funcionários; depois, ele foi demitido da companhia de TI onde atuava. Com um pouco mais de tempo livre para ambos, eles apostaram no desejo, mas com os pés no chão.

"O primeiro passo foi procurar o Sebrae, que iluminou muito nossa vida. Fizemos várias oficinas. Estava finalizando um curso quando começou a pandemia e a gente ia abrir o negócio em março. Mudamos nossa estratégia para o delivery e inauguramos em maio", conta Waléria. O início foi com um carrinho na rua e vendas por aplicativo ou com retirada no local. Um dos diferenciais foi enviar, junto com o lanche, um bilhete de conforto aos clientes, uma bala ou um chocolate. Em outubro, ela abriu a loja física do Galega Hot Dog Gourmet e reforça: "está sendo um sucesso mesmo".

Waléria faz parte dos 2,6 milhões de microempreendedores individuais (MEIs) que entraram no mercado em 2020. A crise econômica alavancada pela pandemia, com o desemprego chegando a mais de 14 milhões de brasileiros, muitas pessoas viram no empreendedorismo um caminho para a estabilidade financeira. Mas junto com essa iniciativa tomada por necessidade - às vezes, impulso -, precisam estar os conhecimentos adequados para gerir e manter o negócio no longo prazo. Para isso, investir continuamente em educação é fundamental. Uma opção complementar é apostar nas consultorias empresariais.

De acordo com o Sebrae, a probabilidade de uma empresa não sobreviver é maior entre aqueles que estavam desempregados antes de abrir o negócio, que tinham pouca experiência no ramo ou abriram por necessidade. Além da situação prévia do empreendedor, outras causas estão ligadas a planejamento, capacitação em gestão empresarial e gestão do negócio em si. Enio Pinto, gerente da unidade de relacionamento com o cliente da instituição, fala em um tripé de conhecimentos para que um empreendedor tenha sucesso: operacional, técnicas de gestão e comportamento adequado.

"Muitas vezes, as pessoas pensam em abrir um negócio porque dominam determinada técnica. Vai bem no operacional, mas tem dificuldade na gestão, controle de estoque, formar preço de venda, fazer processo seletivo, negociar com bancos", diz. Já a atitude está voltada ao espírito empreendedor. "A pessoa tem de ter um conjunto de características humanas para ter sucesso à frente de um empreendimento: metas, comprometimento com o negócio e a qualidade, busca por informação - que é a matéria mais prima."

Dauana Gomes de Oliveira, de 28 anos, adquiriu a mente empreendedora após fazer cursos no Sebrae. Há três anos, ela vende bolos e salgados na região onde mora, no Campo Limpo, produzindo de casa, e há menos de um ano se formalizou como MEI. "Eu gostei de fazer os cursos, me ajudou a abrir a mente, a como expor meu serviço. Antes, tinha pensamentos de que não ia conseguir, não ia dar certo, mas aprendi técnicas e hoje vejo o tamanho da minha capacidade", afirma.

O que atrapalha, segundo ela, é a parte financeira e quer investir mais em capacitação para melhorar essa área do pequeno negócio. "Não tenho capital de giro, a gente não sabe investir bem, segurar o dinheiro. Pega e já vai gastando, junta com as contas de casa. Em vista do que era no começo, agora está bem melhor, mas preciso de muito mais." Com essa dificuldade, ela ainda não conseguiu captar mais clientes e alavancar o empreendimento. Por isso, recomenda que outras pessoas invistam o quanto antes no aprendizado financeiro.

Waléria, do hot dog gourmet, continua participando de oficinas e cursos online. "A gente, quando vai abrir um negócio, ou tem medo ou vai muito na empolgação. Eu precisei fazer curso para saber das possíveis complicações, me preparar, mas tem de acreditar, senão não consegue", diz.

 

Busca por conhecimento para empreender

No cenário de uma pandemia que incentivou a abertura de novos negócios, alguns números são indícios de que as pessoas buscaram conhecimento. O curso superior de tecnologia em Gestão Empresarial à distância do Centro Paula Souza liderou a lista dos mais concorridos no vestibular das Faculdades de Tecnologia do Estado para o primeiro semestre deste ano. Foram 17.705 inscritos para 1.880 vagas, uma demanda de 9,4 candidatos por vaga. O índice foi semelhante ao do último semestre de 2017 (9,2), quando o curso deixou de abrir novas turmas para ser reformulado. Antes disso, o interesse ficava em torno de cinco candidatos por cadeira.

Cathia Lima Petroni, coordenadora do curso, avalia que a proposta de ensino e a crise sanitária contribuíram para o aumento do interesse. "O curso ajuda muito, não só a questão do profissional empreendedor, mas a colocar o pé no chão, entender qual o status do negócio, como manter. As pessoas correram para o curso porque perceberam que, nas adversidades, precisam ter conhecimento e mudar o panorama. Quando não conhece a microempresa de fato, você cria e ela morre", diz.

Já o Sebrae registrou 2,5 milhões de matrículas na plataforma de educação à distância no ano passado, mas uma pessoa pode fazer mais de um curso. Foi um crescimento de 200% em relação a 2019, segundo Enio Pinto. Os títulos mais buscados foram marketing digital, gestão financeira e aqueles voltados para o candidato à empresa, ou seja, pessoas que foram em busca de conhecimento antes de abrir o negócio.

 

Simplificando para crescer

Empreender na periferia tem suas peculiaridades, mas o manejo do negócio é muito parecido com qualquer outra pequena empresa, diz Luis Coelho, sócio-fundador da escola Empreende Aí. A diferença é a forma como a pessoa aprende. "Se chegar falando de break even, cashflow, ela não vai saber nada do que estamos falando e isso tira do empreendedor periférico esse conhecimento", afirma. Por isso, a instituição oferece programas de capacitação voltados para os negócios das comunidades de modo a traduzir esses termos.

Outro caminho que eles ajudam a trilhar é o do autoconhecimento, sem o qual não é possível se falar de empreendedorismo com esse público, segundo Coelho. "Falamos do que ele sabe, do que gosta de fazer. A gente tenta aflorar a análise crítica do mercado em que quer atuar, a mentalidade mais rápida, mais voltada para execução, errar ou acertar rápido e corrigir o caminho", detalha. O fluxo é do indivíduo para a parte técnica. "Quando os empreendedores começam a acessar o conhecimento que para a gente demora mais a chegar, conseguem fazer o negócio crescer bastante."

 

O que é essencial para empreender

A digitalização dos negócios forçada pela pandemia, com a necessidade de adaptá-los para delivery mais o advento do Pix, por exemplo, ditaram o que é essencial. Mas não se pode deixar de lado o básico do que um bom empreendimento precisa ter para crescer. "Não tem mais espaço para amadorismo. O cliente é sempre soberano e agora está empoderado por meio das redes sociais. Claro que você não começa bombando, mas precisa de formação continuada, buscar profissionalização da gestão", diz Enio Pinto, do Sebrae.

A coordenadora Cathia fala em outro tripé importante: colaboração, participação e inclusão. "Quando se pensa nisso, quando quero empreender e modificar minha realidade, preciso buscar conhecimento, conversar com outros profissionais, saber das dificuldades iniciais, o que fazer para melhorar", diz. Ela ainda recomenda desenvolver habilidades para criação e inovação, visão macro (não apenas da própria área), buscar parcerias e investir em capital humano - de si e de quem está junto no negócio.

A seguir, confira possibilidade de cursos para administrar um empreendimento e desenvolver habilidades pessoais:

Como elaborar um plano de negócio (Sebrae). Um passo a passo para montar o detalhamento do empreendimento, com foco em competitividade e inovação.

Marketing digital para o empreendedor (Sebrae). O objetivo é saber como construir e monitorar uma estratégia de marketing digital para alavancar o negócio.

Como reconhecer características empreendedoras (Sebrae). Além de aprender sobre empreendedorismo, há discussão a respeito das características que o empreendedor deve ter para a tomada de decisões.

Curso superior de Tecnologia em Gestão Empresarial (Fatec). Formação profissional de três anos voltada tanto para quem quer empreender quanto para aquele que deseja ter uma postura empreendedora dentro da companhia onde atua.

Digitalização rápida (Empreende Aí). Programa de capacitação para 15 pessoas com aulas rápidas, ao vivo e gravadas. Mostra como utilizar ferramentas de comunicação, plataformas de vendas online e outras estratégias. Abertura de novas turmas são divulgadas pelo perfil no Instagram @empreendeaioficial e Empreende Aí no Facebook.

Curso Periferia Empreendedora (Empreende Aí). Plataforma de cursos periferia empreendedora, que oferece formação em gestão financeira, marketing e vendas. Há possibilidade de participação em um fundo de microcrédito para alavancar negócios, com acesso a valores entre R$ 500 e R$ 3 mil. Inscrições neste link.

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