Rafael Arbex/Estadão-26/10/2017
Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemisia, que fomenta negócios de impacto social.  Rafael Arbex/Estadão-26/10/2017

Perspectivas para o empreendedorismo em 2021 reforçam inclusão digital

Comércio eletrônico, marketing digital e meios de pagamento online seguem em alta; crise econômica também aponta rumos para empreendedorismo social e nas periferias

Anna Barbosa, Letícia Ginak e Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2020 | 14h00

Comércio eletrônico, delivery por aplicativos, PIX, meios de pagamento online, crédito em fintechs. Se 2020 foi um ano marcado pela tecnologia, o empreendedorismo que soube se adaptar e se digitalizar minimizou os estragos econômicos trazidos pela pandemia do coronavírus.

Para 2021, o caminho não tem volta, com ou sem pandemia. A oportunidade é a de aprender a empreender de um novo jeito, no caso de negócios mais tradicionais, e de seguir apostando alto no comércio eletrônico e no marketing digital no caso de quem já iniciou essa trilha.

Confira abaixo o que mais estará em alta no próximo ano, segundo especialistas entrevistados pelo Estadão PME.

O próximo passo da digitalização 

O professor de empreendedorismo e inovação do Insper Marcelo Nakagawa acredita que a digitalização continua sendo a palavra de ordem para os empreendedores. “Assim como agora, ganham mais as empresas digitalizadas que aprenderam a usar redes sociais e plataformas de acesso ao cliente, como Dolado (para pequenos lojistas) ou iFood.”

Para fugir das comissões cobradas pelos aplicativos, o especialista ressalta que será importante criar uma estratégia digital de relacionamento direto com os clientes. “Isso vai demandar a criação de bases de informações do cliente e sites transacionais (com pedidos e pagamentos direto no site). Na parte de conquista de novos clientes, empreendedores precisarão aprender mais sobre estratégias de marketing digital, especialmente inbound marketing, em que o cliente é atraído não por uma propaganda, mas por um conteúdo útil.” 

O especialista ainda diz que é obrigatório ter presença no Google, especialmente no Google Maps, com informações sobre a empresa: formas de contatos, fotos e interação com os clientes que postam comentários. Além disso, ele destaca a tendência dos meios de pagamento digital, impulsionados agora pelo PIX.

Apoio aos tradicionais

“Não só de empreendedores por oportunidade e startups nós vamos viver nos próximos anos. A pandemia causou um grande desacerto na nossa economia e muitas pessoas perderam os empregos”, diz Alessandra Andrade, coordenadora do hub de inovação da Faap, o B.Hub.

De acordo com ela, “ensinar a empreender” será um dos principais pontos de 2021, com um apelo maior para o empreendedor tradicional, que cada vez mais “vai precisar de apoio”.

A professora também ressalta a importância de associações, entidades e organizações de classe para o ecossistema. “Quando somos retirados da situação normal, buscamos representantes. É importante ter acesso e participar das decisões governamentais. Ter proximidade com entidades de classe é importante para desenvolver o empreendedorismo em qualquer lugar.” 

E as startups?

Professor da FGV EAESP, Gilberto Sarfati acredita que o ambiente de digitalização generalizada deve contribuir para o investimento em startups. “Terminamos o ano com os IPOs da Méliuz e do Enjoei, sintoma de que o ano de 2021 deve trazer muitas outras empresas de tecnologia para a B3 (Bolsa de Valores)”, diz.

Marcelo Nakagawa aposta que a novidade em 2021 será a esperada aprovação do Marco Legal das Startups. “Ele vai ajudar uma parcela pequena, mas significativa, de negócios inovadores. Esses negócios terão mais acesso a investidores-anjo em troca de futura participação societária no negócio.”

O Marco Legal das Startups, diz, também deverá facilitar a relação entre startups e entidades governamentais. “Irá criar condições para que as startups fechem mais contratos com governos, algo praticamente impossível até agora.” 

Outro ponto de destaque para 2021 é o sistema Inova Simples. Por meio da Portaria INPI/PR nº 365, de 13 de novembro de 2020, o INPI regulamentou o procedimento de comunicação de Empresas Simples de Inovação (startups) ao INPI, para registro de marcas e patentes. “O Inova Simples promete facilitar a abertura, a alteração e o fechamento de negócios”, acredita Nakagawa. 

Comércio eletrônico 

De acordo com o Ebit Nielsen, as vendas do e-commerce no próximo ano devem crescer 26%, atingindo um faturamento de R$ 110 bilhões. A entidade acredita que o desempenho será impulsionado pelo crescimento do número de consumidores, pela consolidação de e-commerces locais, pelo fortalecimento dos marketplaces e pela maturidade logística do setor. 

Ainda haverá um aumento de 16% no número de pedidos (passando para 225 milhões) e expansão de 9% no valor médio de vendas (R$ 490). Destaque para as categorias: alimentos e bebidas, arte e antiguidade, bebês e cia, casa e decoração e construção. Os segmentos já apresentaram aumento em 2020.

O suporte do franchising 

Segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), o mercado de franquias trilha um caminho de recuperação gradual, puxado pelos segmentos de casa e construção. 

“Esperamos também que alimentação, moda e serviços educacionais voltem a operar no azul, alavancando todo o setor. De forma semelhante, esperamos uma recuperação mais robusta de hotelaria e turismo e entretenimento e lazer, os segmentos mais atingidos até aqui, mas que têm grande demanda reprimida”, diz André Friedheim, presidente da ABF.

Segundo ele, devem prevalecer no franchising a omnicanalidade (com múltiplos canais de atendimento ao cliente, do delivery à retirada nas lojas) e a flexibilidade (para mudanças rápidas, como foi durante 2020).

Já as microfranquias se consolidarão, acredita a ABF, como uma alternativa de ocupação e geração de renda. “Esperamos receber novos empreendedores, especialmente em serviços digitais e modelos home office”, conta Friedheim.

Hubs de inovação e coworkings 

Para Alessandra Andrade, da Faap, como muitos empreendedores descontinuaram pequenos escritórios para reduzir gastos na pandemia, os espaços de coworking devem ganhar relevância para abrigar esses donos de negócios.

Ela ressalta que o ambiente colaborativo dos espaços também fortalece a jornada dos negócios que o habitam. “Se por um lado o empreendedorismo e a busca por capital são muito competitivos, esse ecossistema é muito colaborativo”, diz ela, para quem os ambientes de coworking devem ser um facilitador.

Impacto social 

“O tema dos negócios de impacto ganhou uma lente de aumento em 2020, à medida que as desigualdades sociais foram ainda mais escancaradas e agravadas”, analisa Maure Pessanha, cofundadora da Artemisia.

Um dos pontos de destaque, segundo ela, são as soluções financeiras para a população em situação de vulnerabilidade social e econômica. “Quando pensamos nos desafios delas para acessar o auxílio emergencial do governo, enxergamos a importância do desenvolvimento de soluções financeiras que pensem nas pessoas de maneira digna, ética e inclusiva.”

De forma pragmática, Maure entende que é importante fortalecer o empreendedorismo de impacto social. “É crucial criar mecanismos de apoio para empreendedores que decidiram agir, mesmo quando todas as probabilidades se mostram contrárias.”

Crédito e microcrédito

Nesta semana, a Câmara aprovou o projeto que prevê a liberação de uma terceira rodada de recursos - mais R$ 10 bilhões - para o Pronampe no próximo ano. A proposta agora vai para sanção presidencial.

Para o professor de Finanças do Insper Ricardo Rocha, é importante o empreendedor entender para que precisa do crédito: se é para capital de giro ou para trocar equipamento, por exemplo.

O presidente nacional do Sebrae, Carlos Melles, acredita que os bancos geralmente fazem muita propaganda, mas emprestam pouco. “Temos as maquininhas, formalizamos o MEI, criamos o PIX, mas não formalizamos o acesso ao crédito. A retomada passa pela micro e pequena empresa, e a retomada delas passa pelo crédito.”

MEI 

Se 2020 foi considerado o ano dos MEIs, com o Brasil alcançando a marca de 10 milhões de microempreendedores individuais em abril, a expectativa para o próximo ano é de que o número siga crescendo. 

“A necessidade tem feito e continuará fazendo esse número crescer, muito mais do que vocação ou vontade. A pessoa não tem muita alternativa e, legalizando-se, ela passa a ter acesso à Previdência, pode tirar uma nota fiscal. Ela se garante dentro da formalidade”, conta o presidente do Sebrae.

Empreendedorismo na periferia

O efeito da pandemia teve características diferentes para os negócios das periferias. A falta de formalização, as dificuldades com o meio digital e de logística e a informalidade jurídica dificultaram ainda mais a vida dos empreendedores.

Para Luis Coelho, fundador da Empreende Aí, que capacita futuros empreendedores, o fim do auxílio emergencial evidenciará o rombo na economia. “Nas periferias, quando as pessoas ficam desempregadas, elas começam a empreender com coisas simples, fazendo bolos, serviços de cabeleireiro. Isso aumenta a concorrência e pressiona os preços para baixo. Vamos ter menos dinheiro circulando e mais concorrência”, explica.

A dica de Coelho é manter o controle financeiro com rigidez e continuar trabalhando nas fontes de receita criadas na pandemia. “Em 2020, muita gente criou máscaras e conseguiu vender em grande quantidade. É bom se perguntar qual vai ser a ‘máscara’ de 2021. Vão ser os encontros presenciais? Como o empreendedor vai poder juntar gente? As pessoas vão querer sair de casa quando puderem.”

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Delivery, crédito, redes sociais: o que movimentou pequenos negócios em 2020

Ano foi marcado por busca de empréstimo no Pronampe, alta do e-commerce e empreendedorismo focado em ‘compre local’; de DNA digital, startups estouram previsões de faturamento

Anna Barbosa, Letícia Ginak e Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2020 | 14h00

Para os donos de pequenos e médios negócios, 2020 foi um ano com dificuldades suficientes para uma década. O isolamento social e o medo do contágio pelo coronavírus modificaram as formas de consumo e de venda.

Estabelecimentos foram fechados, a receita caiu abruptamente e funcionários perderam seus empregos. Para tentar sobreviver à crise, os empreendedores foram atrás de microcrédito, principalmente do programa de financiamento do governo, o Pronampe, e enfrentaram muitas dificuldades.

Campanhas para o consumo local foram criadas para proteger os pequenos. A digitalização à força, com as vendas pelas redes sociais e nos e-commerces, pareceu ser a saída para muitos. Outros precisaram aprender também a como trabalhar com o delivery. E teve aqueles que, infelizmente, fecharam as portas de forma definitiva. 

Confira o que foi destaque no mundo do empreendedorismo em 2020, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão PME ao longo do ano.

O ano do empreendedorismo

O relatório anual Global Entrepreneurship Monitor 2020 (GEM), realizado no Brasil com o apoio do Sebrae e do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), projetou que 2020 seria o ano em que o Brasil atingiria a sua maior taxa de empreendedores iniciais ou de donos de negócios com até três anos e meio de atividade, com 25% da população adulta nacional empreendendo.

De acordo com o Sebrae, os dados referentes à projeção ainda não estão atualizados, mas as projeções estão se confirmando.

Também foi o ano dos microempreendedores individuais. Logo no início da pandemia, em abril, o número de MEIs no Brasil ultrapassou a marca dos 10 milhões. Hoje, eles são mais de 11,2 milhões, segundo a Receita Federal. No entanto, a pandemia do coronavírus impactou diretamente os negócios no mundo todo, principalmente os pequenos e médios.

“A massa das pequenas empresas sofreu muito com a pandemia. A restrição do movimento de pessoas afetou fortemente os negócios. A menor disponibilidade de renda do consumidor também afetou a propensão ao consumo. Portanto, para a maior parte das pequenas empresas o ano de 2020 foi muito ruim”, diz Gilberto Sarfati, professor da FGV EAESP. 

A vez das startups

Por outro lado, 2020 foi um ano excepcional para as startups, aponta Sarfati. “Esse tipo de negócio, seja voltado ao consumidor final ou a empresas, por natureza é digital. E o digital foi o grande ganhador do ano. A maior parte das startups não depende diretamente da circulação de pessoas e pode manter a eficiência com funcionários em home office. Ao mesmo tempo, com consumidores e empresas online, houve uma digitalização forçada do consumo que impulsionou esses negócios”, completa.

De acordo com dados da Distrito, empresa que mapeia o setor, entre janeiro e setembro houve 100 aquisições de startups no País, número que superou os anos de 2018 e 2019. Já o volume de aportes em startups até setembro foi de US$ 2,2 bilhões.

A digitalização dos negócios

Para manter o negócio ativo na pandemia, a palavra de ordem foi a da digitalização. Quem já vendia online saiu na frente, mas aqueles que ainda não estavam familiarizados com o e-commerce tiveram que aprender a abrir uma loja virtual, escolher métodos de pagamento online, fazer entregas e usar as redes sociais. 

Segundo dados da AbComm, entre março e maio, o País abriu mais de uma loja virtual por minuto, ou seja, 107 mil novos estabelecimentos criados na internet para a venda. 

Outra estratégia adotada pelos empreendedores foi a presença nos marketplaces. O Magazine Luiza por exemplo criou, em parceria com o Sebrae, o Parceiro Magalu, para ajudar na digitalização de pequenos negócios. Até o fechamento desta retrospectiva, a plataforma já havia digitalizado mais de 85 mil negócios.

Pagamento digitais: o nascimento do PIX

Além dos meios de pagamento tradicionais, o ano de 2020 trouxe a criação do PIX, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central. Para as pequenas e médias empresas, a modalidade foi benéfica, com redução de custos, menos burocracias nos pagamentos, auxílio no capital de giro e melhoria na gestão de estoque

Para a assessora econômica da Fecomercio-SP Kelly Carvalho, o PIX melhora a gestão do fluxo de caixa das empresas, já que diminui o risco de o empresário ter que recorrer a uma linha de crédito com juros mais altos para pagar os seus compromissos.

“Ele também melhora a gestão de estoque do comércio eletrônico. Em uma venda realizada com boleto bancário, alguns consumidores podem desistir da compra, fazendo com que, em momentos de promoções ou datas comemorativas, a mercadoria fique parada em estoque, comprometendo o caixa. Com o PIX, as transações acontecem em tempo real, fazendo com que o e-commerce consiga se preparar melhor, inclusive para otimizar o tempo de entrega.”

O difícil acesso ao crédito e microcrédito 

Com os estabelecimentos fechados, buscar crédito para manter o negócio vivo foi uma das estratégias adotadas pelos empreendedores. Além dos bancos tradicionais, até as fintechs aumentaram o limite de crédito oferecido. 

No entanto, os relatos de dificuldades para acessar o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), formulado em maio para socorrer pequenos negócios durante a pandemia de covid-19, também marcaram o ano do empreendedor. 

Segundo os empreendedores e o Sebrae, problemas como a burocracia, a falta de garantias, a desorganização e a negativação das empresas foram grandes empecilhos na busca por crédito. Uma pesquisa feita pelo Sebrae apontou que entre março e julho cerca de 54% dos pequenos negócios buscaram crédito, mas apenas 21% conseguiram.

De acordo com o Ministério da Economia, foram liberados R$ 32,7 bilhões até dezembro, para 474 mil empreendedores.

“É preciso que, constantemente, mesmo que a pessoa não tome crédito emprestado toda hora, ela tenha a documentação em dia. Tem que ter o fluxo de caixa organizado, os documentos no prazo de validade certo. Muitos negócios não têm planilha com fluxo de caixa, previsão de inadimplência. Mesmo se a empresa for do SIMPLES, ela precisa de balanço anual”, explica o professor de Finanças do Insper Ricardo Rocha, um dos grandes problemas para o acesso ao crédito por micro e pequenos empreendedores foi a falta de organização dos negócios. 

“Conhecer as linhas de crédito que são direcionadas para o seu negócio também ajuda muito. Tem que ter o banco adequado de acordo com o tamanho do negócio. Não pode misturar o crédito da pessoa física com a jurídica, por exemplo”, aponta.

Compre local 

As campanhas que incentivam os consumidores a comprar de pequenos empreendedores de seus bairros e cidades surgiram aos montes nos primeiros meses de isolamento social para ajudar na sobrevivência dos negócios. Uma pesquisa produzida pelo Facebook, em parceria com a Deloitte, em setembro, mostrou que 73% dos consumidores brasileiros começaram a comprar de pequenos negócios (do seu ou de outros bairros) desde o início da pandemia.

“Olhando para o que está acontecendo no mundo, o nosso grande desafio é usarmos bem o exército de micro e pequenas empresas e de MEIs. Quando você olha para uma rua de comércio em um município de 20 mil habitantes, você soma os estabelecimentos daquela rua e isso se equivale a uma grande empresa, em números de funcionários e de pessoas que o varejo atinge”, explica o presidente do Sebrae, Carlos Melles.

“Estamos trabalhando muito com o consumo interno, fazer coisas dentro do município, do bairro, comprar do pequeno, isso funcionou de uma forma muito boa durante a pandemia”. 

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