Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

PIX deve ajudar pequenos também na gestão do negócio

Além de envolver menos burocracia, pagamento instantâneo deve ajudar empreendedor a gerir estoque com compensação mais rápida, mas tarifas devem ser levadas em conta; saiba como escolher

Anna Barbosa, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 05h00

Pelo menos 49% dos micro, médios e pequenos negócios do País precisam pagar algum tipo de taxa ou tarifa para viabilizar transferências bancárias e fazer pagamentos, é o que apontam os números do QB Insights, pesquisa encomendada pela Intuit QuickBooks, fintech desenvolvedora de software de gestão para pequenas empresas e escritórios contábeis. Com a implementação do PIX, novo sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, a expectativa para as PMEs é que ocorra uma redução de custos, menos burocracias nos pagamentos, auxílio no capital de giro e até mesmo uma melhor gestão do estoque. 

Para Nadja Heiderich, coordenadora do núcleo de estudos da conjuntura econômica da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), o impacto do PIX será grande, pois além de haver uma compensação mais rápida dos valores pagos pelos clientes, também haverá maior competição entre as instituições financeiras para captar os empreendedores, reduzindo ainda mais os custos.

“Eu acredito que haverá sim uma redução de custos e menos burocracia. Hoje, por exemplo, o boleto pode fazer até com que a pessoa desista do pagamento. Com a capitalização mais rápida, você pode ter até um volume maior de vendas e uma melhor gestão financeira dos negócios”, explica Nadja. 

A consultora do Sebrae-SP Cibele Pestillo também coloca o ponto da compensação como um empecilho que o PIX (que começa a valer em 16 de novembro) tende a resolver. “Se for via boleto ou transferência, é necessário que haja conciliação bancária. O boleto você recebe em cerca de 2 a 3 dias úteis. É necessário aguardar todo esse período para só depois enviar a matéria-prima ou a mercadoria.”

Além disso, Cibele aponta que o novo sistema pode ser um facilitador para MEIs que não possuem uma conta corrente jurídica ou que não possuem um computador. “O boleto é uma operação complexa, que para emitir precisa ter um internet banking, ou seja, precisa ter um computador ou notebook. Quando pago, precisa buscar todos os dados e fazer a conciliação com as vendas para ver quem pagou - não é imediata.”

A consultora explica que com o PIX o empreendedor precisa somente do QR Code ou da chave PIX, recebendo os dados e fazendo a conciliação no mesmo momento do pagamento. 

Com um recebimento mais rápido, Cibele explica que o capital de giro das empresas também é influenciado. “Como a transação do PIX é feita em segundos, o crédito entra em segundos. A entrada de capital mais rápida traz um auxílio muito grande no capital de giro.”

Foi pensando nesses e em outros pontos que Adriano Salvador, dono da Neo Soul e da Loja NS! Departamentos, já cadastrou sua empresa no PIX. Ele acredita que com o novo sistema possa ter até um aumento de vendas, visto que conseguirá ter uma melhor gestão do seu estoque - deixando de segurar produtos cujo boleto às vezes não é pago pelo consumidor.

“O PIX vai agilizar o trânsito para a satisfação do cliente e para a empresa, porque não perderemos mais tanto tempo esperando a confirmação de pagamento de boletos.”

Para ele, a diminuição no tempo de compensação ajudará na redução do prazo logístico. “Eu tenho um pico de vendas na terça, porque os boletos pagos no final de semana acabam caindo só neste dia”, explica. Adriano complementa falando sobre a experiência do cliente, que também será melhor, pois reduzirá o tempo de espera.

Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP, diz que é importante o empreendedor informar os consumidores que oferta este tipo de pagamento e criar estratégias para oferecer descontos nas compras com PIX.

Para ela, o sistema de pagamento instantâneo veio em um bom momento, já que os empresários precisam cada vez mais de um fluxo de caixa saudável. “Em datas como a Black Friday, às vezes o consumidor fecha a compra, segura a mercadoria e acaba desistindo. Com o PIX, você não corre esse risco, melhorando a dinâmica da gestão do fluxo de caixa do negócio.”

Como escolher a melhor opção

Muitos empreendedores ainda possuem contas em diferentes bancos para reduzir os custos por operação. Adriano, por exemplo, tem conta em quatro instituições financeiras. Com o PIX, ele pretende centralizar suas movimentações em apenas duas. “São quatro bancos para direcionar os pagamentos, que necessitam de um planejamento maior, logo, perco mais tempo para gerir.”

Cibele Pestillo, consultora do Sebrae-SP, explica que os empreendedores costumam abrir contas em vários bancos para não pagar por transferências. Mesmo com variadas contas, a pesquisa da Intuit QuickBooks mostra que 39% dos entrevistados gastam entre R$ 13 e R$ 50 com tarifas mensais, enquanto 19% tiram entre R$ 101 e R$ 200 mensais, e 17% pagam mais de R$ 200 por isso.

“Uma frase que eu sempre falo nas consultorias é que um pequeno vazamento pode afundar um navio. Ou seja, de valores pequenos em valores pequenos, você não percebe o quanto gasta, mas isso pode afetar o seu negócio”, ressalta Cibele.

Para ela, é importante o empreendedor entender quanto já gasta hoje com as tarifas mensais nas instituições financeiras em que tem conta. Depois, pesquisar as tarifas oferecidas para o PIX, não só em instituições financeiras, mas também em empresas de pagamento como PayPal e Mercado Pago.

As tarifas do PIX para pessoas jurídicas ainda não foram divulgadas pelo Banco Central, mas algumas instituições já afirmam que não cobrarão pelas transações.

O que escolher: PIX, boleto, transferência

A coordenadora do núcleo de estudos da conjuntura econômica da FECAP, Nadja Heiderich, explica como decidir pelas formas de pagamento:

PIX e maquininha de cartão: a maquininha continuará tendo o benefício do crédito (à vista ou parcelado), pois o PIX ainda funciona apenas a função de débito. Neste caso, para colocar na balança entre a maquininha para débito e o PIX, é preciso verificar qual é a taxa da antecipação de recebíveis, dado que o recebimento das maquininhas não é imediato. 

Normalmente, o prazo para recebimento dos valores pode chegar até 30 dias e, quanto maior a antecipação, maiores são as taxas cobradas. Com o PIX, o recebimento é previsto para que ocorra em segundos. A especialista diz que, além de verificar as taxas, pode ser interessante analisar o valor gasto para que possa ser convertido em uma vantagem para o consumidor final, como um desconto, por exemplo

TED e DOC: muitas vezes, o empreendedor opta por abrir contas em vários bancos para reduzir os valores gastos mensalmente com as transferências bancárias, que costumam entrar no pacote de taxas mensais quando feitas entre o mesmo banco (não sendo cobradas taxas extras). Com o PIX, é esperado que as tarifas cobradas sejam mais baixas ou até mesmo gratuitas. 

Pensando nisso, compare as taxas que o banco vai cobrar entre PIX e TED/DOC. Neste caso, também é importante verificar a necessidade de ter o dinheiro no ato ou esperar a compensação, que pode levar até 72 horas. Um ponto importante é que o DOC possui uma limitação de valor até R$ 4.999,99, enquanto o PIX ainda não possui limite

Boletos: as taxas de emissão de boleto bancário variam de banco para banco e podem ser cobradas por boleto emitido, por boleto recebido ou por quantidade de boletos gerados. Com o PIX, a cobrança será por transações. Aqui, é necessário comparar as tarifas do PIX com as tarifas de boleto cobradas pela instituição financeira.

* Estagiária sob a supervisão da editora do Estadão PME, Ana Paula Boni

Tudo o que sabemos sobre:
Pixmicroempresapagamento digital

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.