Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Após voucher, salões apostam em delivery de produtos durante quarentena

Negócios de beleza entregam em domicílio tintura de cabelo e até xampu para manter fluxo de caixa; cabeleireiros ajudam clientes com vídeos tutoriais em redes sociais

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 06h03

O período de isolamento social tem feito com que os negócios da área da beleza precisem se reinventar. Nas primeiras semanas após o decreto de quarentena nos Estados do Brasil, um dos primeiros movimentos seguidos por salões foi a mesma linha adotada por restaurantes com os vouchers pré-pagos. Agora, após terem mais tempo para refletir sobre os negócios, muitos apostam no delivery de produtos e na assistência remota às clientes para manter o fluxo de caixa durante o tempo em que permanecem fechados na crise do novo coronavírus.

A unidade do salão Jacques Janine no Morumbi, em São Paulo, não adotou os vouchers e aderiu ao delivery de tintura para os cabelos. “Acho que (vender voucher) é empurrar o problema para frente. Se você ganha dinheiro agora, não ganha lá na frente. O que eu pensei foi que as clientes aguentam ficar sem escovar e hidratar, mas sem tingir o cabelo é mais difícil. Se os restaurantes podem atender em delivery, eu também posso fazer isso”, conta Roger Ajouri, cabeleireiro e dono da unidade. 

Desde que começou a oferecer o delivery, há 20 dias, Roger vai sozinho de três a quatro vezes na semana à unidade do salão, recolhe os pedidos, liga para os cabeleireiros para saber os tons de suas clientes e prepara a coloração. Na hora de buscar, o comprador pode optar por um motoboy, motorista ou ir até o local e receber o pedido dentro do carro. 

“Na primeira compra, eu mando um pote e um pincel e já aviso para trazê-los de novo futuramente. Se não tem luvas e capa de plástico, eu também ofereço essas opções”, conta. A explicação sobre como aplicar a tintura vai por WhatsApp

Como não tem a mão de obra da aplicação, os valores dos serviços são reduzidos. Uma coloração que custaria R$ 250 sai por cerca de R$ 150. Os cabeleireiros do salão recebem metade do valor pago por suas clientes. Até agora, já foram feitos 41 pedidos.

Com unidades em Porto Alegre e em São Paulo, o salão Cubo também aderiu ao delivery durante a quarentena. Além de oferecer a coloração, eles também entregam produtos de revenda, como xampu, condicionador e máscara capilar. Os pedidos são recolhidos por WhatsApp e entregues via motoboy ou bicicleta. 

“A gente fez vídeos no Instagram para ensinar a retocar a raiz, como cortar franja e aparar a barba. Tenho tido retorno positivo, recebo muitas vídeochamadas para ajudar nos processos. Está sendo uma ótima forma de nos manter presentes na vida dos clientes e, de uma forma orgânica, estamos atingindo vários outros não clientes”, explica Jonathas Diniz, um dos sócios da rede.

Vouchers pré-pagos

O salão Cubo, que fica na região central da capital paulista, também tem usado a venda de vouchers pré-pagos para ajudar a manter o fluxo de caixa. Elas são feitas pela plataforma #Todospresentes, criada pela startup Todo Cartões - que gerencia operações de cartões-presentes - para auxiliar empreendedores durante a pandemia da covid-19. O cadastro é gratuito para pequenos negócios.

No site, o cliente do Cubo pode escolher qual profissional quer beneficiar com o voucher, que vai de R$ 50 a R$ 200. Como bônus, o comprador ganha 20% de desconto para usar em outro serviço. 

“Para a gente foi a melhor alternativa pensando nos profissionais que não têm como receber. A empresa ainda tem algum caixa, mas os profissionais são autônomos, então recebem o variável por serviço”, conta. 

A L’Oréal Produtos Profissionais, em parceria com a Trinks (plataforma de gestão de salões de beleza) e a fintech Stone, criou a campanha Beleza Amiga. No site, os clientes podem procurar os seus salões favoritos e comprar vouchers no valor de R$ 50, que serão revertidos em serviços prestados após o fim da quarentena. Como recompensa, quem apoiar também ganha um cupom de desconto de R$ 50 para comprar produtos das marcas L’Oréal Professionnel, Kérastase e Redken.

Até o fechamento desta reportagem, eram 900 salões de beleza cadastrados na plataforma. A expectativa é que mais de 2.500 participem em todo o Brasil. As inscrições dos empreendimentos podem ser feitas pelo e-mail do projeto

A ideia dos vouchers também foi a solução encontrada pela Singu, plataforma que oferece serviços de estética em casa, como manicure, massagem e depilação e emprega cerca de 5 mil colaboradoras. 

Desde março, os clientes podem comprar pacotes de serviços, que variam entre R$ 40 e R$ 1.047, e desfrutar de descontos que vão de 5% a 20%. Com o dinheiro arrecadado, a Singu antecipa o pagamento das colaboradoras, que após o fim da quarentena prestarão os serviços comprados. 

No entanto, na última semana a empresa retomou o atendimento domiciliar feito pelas colaboradoras com menos de 40 anos de idade. Segundo a assessoria da Singu, a medida foi tomada após autorização do governo durante uma coletiva de imprensa no dia 31 de março.

Na coletiva, o governador João Doria declarou: “Não há limitação, proibição, para que um barbeiro, uma cabeleireira, uma manicure, possa ir na casa da sua cliente com a devida proteção, com máscaras e luvas, e tendo também a proteção feita no próprio ambiente onde ela estará atuando, para não comprometer a cliente nem a própria saúde. É uma alternativa circunstancial”.

De acordo com a Singu, a demanda pelos serviços diminuiu 50% durante a quarentena. A empresa também informou que o porcentual cobrado de cada profissional (35%) que está trabalhando ativamente será doado às colaboradoras que estão no grupo de risco e não podem trabalhar no período. Até o momento, foram repassados mais de R$ 40 mil às funcionárias, entre venda de vouchers e doações, diz a empresa.

Receba no seu email as principais notícias do dia sobre o coronavírus. Clique aqui.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.