Gustavo Steffen
Gustavo Steffen

Voucher ajuda negócios a terem caixa para sobreviver ao coronavírus

Além de bilhetes pré-pagos, empreendedores de setores como alimentação e beleza, que dependem do fluxo de clientes, também apelam para vaquinha online

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 13h57
Atualizado 26 de março de 2020 | 14h41

Para além das preocupações de saúde com o novo coronavírus, os possíveis efeitos econômicos da pandemia têm preocupado os micro e pequenos negócios. Em um cenário no qual as pessoas precisam ficar em casa para evitar o contágio da doença e estabelecimentos considerados não essenciais devem ficar fechados, como fazer com que esses locais sobrevivam e, principalmente, seus profissionais continuem tendo renda?

A solução imediata encontrada por negócios na área de alimentação e de beleza tem sido incentivar clientes fiéis a continuar pagando por serviços que iriam habitualmente usufruir, deixando para desfrutar deles quando o período de confinamento acabar e os locais reabrirem. Para isso, estabelecimentos têm apostado em vouchers pré-pagos e contribuições com recompensas em sites de vaquinha online.  

A Foodpass, plataforma digital que oferece experiências na área da alimentação - criou nesta quarta-feira, 25, o projeto Quarentene-se. Por meio dele, as sócias Priscila Sabará e Joana Braga vendem vouchers e cartões-presente de inicialmente seis restaurantes. São eles: Mocotó, Frida e Mina, B.lem, Duas Teresas, Bia Hoi e Boto. Os primeiros cadastrados foram convidados pelas sócias, para dar o pontapé, mas a expectativa é que até o fim do mês outros 150 negócios se cadastrem, não sendo necessário já fazer parte da rede Foodpass. 

"Assim que entendemos a gravidade da covid-19 e o impacto em nosso setor, fomos aos parceiros para entender qual ação seria mais eficiente. Vimos que o voucher é a síntese do nosso propósito: engajar pessoas pela potência de conexão do alimento", explica Priscila. A projeção, segundo ela, é gerar fluxo de caixa de R$ 1,2 milhão nos próximos três meses. 

Os vouchers e cartões-presente custam a partir de R$ 12 e poderão ser utilizados nos estabelecimentos participantes durante todo o ano, após o fim da quarentena. Como forma de engajar o público, quem fizer a compra receberá um valor de crédito superior ao pago quando for usufruir da recompensa, que pode ir de 10% a 20%, a depender do voucher escolhido.

Outra iniciativa nos mesmos moldes é o Menu do Amanhã, idealizado por Gabriel Gasparini e João Mendes, ambos com experiência no mercado de gastronomia. O projeto, inaugurado na última quinta-feira, 26, vende vouchers de cerca de 100 estabelecimentos, com custo entre R$ 60 e R$ 200, para ajudá-los a balancear o fluxo de caixa. Segundo os idealizadores, não haverá cobrança de taxa nem para os clientes, nem para os estabelecimentos.

"Locais têm fechado, pessoas têm sido demitidas. A crise na área é grave,  provavelmente sem precedentes na proporção que está se desenhando", explica Gasparini.  "Muitos deles não fazem delivery e mesmo os que fazem ainda dependem do movimento do salão para fechar as contas. Se cada um ajudar da forma que der, conseguimos dar fôlego para esse setor da economia de que tanto gostamos e dependemos", completa Mendes. 

Há muitas opções na lista do projeto, que inclui restaurantes renomados como Ema, Evvai e Mensa. Um cupom do Ema, por exemplo, custa R$ 150 e dá direito a um menu degustação, que, geralmente, custa R$ 190. Os empreendedores do ramo da alimentação que estiverem interessados em participar do projeto, devem inscrever sua oferta em uma planilha disponibilizada por eles. 

Com o mesmo método, a Stella Artois, em parceria com a ChefsClub, criou o projeto Apoie um Restaurante. O diferencial da iniciativa é o desconto de 50%: o cliente compra um voucher no valor de R$100 e paga apenas R$50, o restante é custeado pelas idealizadoras e seus parceiros. 

Até o fechamento desta reportagem, 18 cidades espalhadas pelo Brasil já participavam do projeto. Em São Paulo, estabelecimentos como Bar Astor, Braz Elettrica e Dalva e Dito fazem parte da iniciativa. Os negócios interessados em oferecer vouchers pela plataforma podem se cadastrar no site. 

Outros restaurantes têm buscado a mesma alternativa, de forma individual, para sobreviverem. O Jesuíno Brilhante, que serve comida potiguar em São Paulo, passou a oferecer - além do delivery - vouchers de refeições, que vão de R$ 37 a R$ 350. 

Já o Oguru, de comida japonesa, vendeu mais de 5 mil vouchers de rodízio com preço promocional (dois rodízios por R$ 119) durante quatro dias. Segundo o estabelecimento, o valor será usado para, primeiramente, cobrir a renda dos colaboradores e, em seguida, os custos dos fornecedores e de ocupação. O valor é o suficiente para cobrir um mês de operação, diz a casa.

Financiamento coletivo

A saída encontrada por outros empreendedores foi buscar apoio em sites de financiamento coletivo. Como forma de incentivar clientes, eles não pedem doações, mas usam as plataformas em um modelo parecido com o dos vouchers: os interessados doam um valor e, futuramente, quando a quarentena acabar, poderão consumir a quantia doada no local. Outros brindes e até bônus de consumação são ofertados.

O bar Cama de Gato, no centro de São Paulo, foi um dos primeiros a lançar uma campanha na plataforma Abacashi. Pelo site, que funciona como uma vaquinha online, os clientes podem comprar pacotes. Entre as recompensas, além do valor pago revertido em consumação no local (com bônus), quem contribuir também ganha camisetas, discos, um drinque batizado com o seu nome e até uma festa open bar para 100 convidados - a depender do valor doado. Até o fechamento desta reportagem, já havia sido arrecadado mais de R$ 18 mil.

Segundo Nathália Cirne, diretora de operações da Abacashi, 250 novas vaquinhas motivadas pela quarentena surgiram no site na última semana. Embora não consiga precisar quantas delas são referentes a negócios gastronômicos, ela diz que o movimento mais forte na plataforma tem sido o de bares e restaurantes. "Tivemos 144% a mais de faturamento do mês anterior, que já havia sido grande", destaca. 

Voucher de beleza

Na área da beleza, a ideia dos vouchers também foi a solução encontrada pela Singu, plataforma que oferece serviços de estética em casa, como manicure, massagem e depilação e emprega cerca de 5 mil colaboradoras. 

Desde a última segunda-feira, 23, os clientes podem comprar pacotes de serviços, que variam entre R$ 40 e R$ 1.047, e desfrutar de descontos que vão de 5% a 20%. Com o dinheiro arrecadado, a Singu antecipa o pagamento das colaboradoras, que após o fim da quarentena prestarão os serviços comprados. 

"80% das nossas prestadoras de serviço dependem 100% da renda vinda da Singu. Quando anunciamos a pausa nas operações, recebemos mensagens que nos preocuparam, dizendo que sem o dinheiro não teriam o que comer e nem como pagar o aluguel", conta Tallis Gomes, CEO da Singu.  

As primeiras beneficiárias começaram a receber o adiantamento já na última terça-feira, 24, com preferência para aquelas consideradas mais vulneráveis ao novo coronavírus, que representam 11% do quadro de colaboradoras. No primeiro dia da campanha, foram vendidos 40 pacotes. A expectativa da empresa é vender entre 200 e 300 deles e arrecadar de R$ 20 mil a R$ 30 mil.  

"As pessoas fazem unha, depilação e massagem semanalmente. Por que não já comprar esse crédito - que não vence -, com desconto, e ajudar as meninas a passar por essa tormenta?", indaga Tallis. 

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