Daniel Teixeira/Estadão
Gabriel Liguori, médico e criador da startup TissueLabs, incubada no Cietec.  Daniel Teixeira/Estadão

Incubadoras nas universidades amparam negócios com mentoria e networking

Startups como WeGott e TissueLabs, na Faap e na USP, contam com auxílio de professores e ponte com o mercado; para incubadoras, projetos devem ter aplicação prática imediata

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 05h00

Para amparar os alunos que avançaram do desejo de empreender e partiram para a prática, algumas universidades, como USP, FAAP e Belas Artes criaram incubadoras. Por definição, uma incubadora é um espaço em que é possível desenvolver e transformar uma ideia em um negócio, com auxílio prático e teórico de professores e, em alguns casos, players do mercado. No local, é possível ter uma estação de trabalho para se dedicar ao desenvolvimento da empresa, mentorias com professores, trocas de conhecimento com outros alunos empreendedores e ainda promover o networking.

Esse foi o caminho escolhido pela estudante de administração e engenharia de produção na FAAP Barbara Brilhante. Após criar um aplicativo de mobilidade urbana chamado WeGott para participar da Renault Experience, competição entre estudantes promovida pela multinacional, Barbara divide seu tempo entre a sala de aula e a estação de trabalho no B.Hub, incubadora da instituição, há mais de um ano.

Aos 27 anos, a jornada empreendedora da estudante é intensa. Barbara leva com afinco o desejo de colocar finalmente o WeGott no mercado. O aplicativo de transporte por agendamento (com hora marcada e sem taxa flutuante) já tem mais de 120 motoristas cadastrados. No fim do ano passado, a startup fechou um contrato de vesting (espécie de contrato societário) com uma empresa que iria desenvolver o aplicativo para o usuário e para os motoristas. 

A previsão era lançá-lo em abril deste ano. Mas veio a pandemia. O ambiente incerto fez com que, inicialmente, a estreia da empresa fosse adiada para agosto. Porém, a desenvolvedora parceira sofreu perdas significativas com a pandemia e não conseguiu prosseguir com o projeto. “Recebi essa notícia no meio de maio. Tive a sensação de ser demitida. Fiquei muito mal e abalada”, conta Barbara.

Mas, como todo empreendedor, entrou em jogo a resiliência. “Já estou conversando com três empresas de desenvolvimento para finalizar o aplicativo. Não sei se o lançamento ainda será este ano, o mundo está parado, não tem problema ir devagar agora. Mas, no máximo, no início do ano que vem a gente vai estar no mercado. Já estabelecemos parcerias com empresas que fazem limpeza e desinfecção de carros, por exemplo”, afirma. 

Com uma pandemia na bagagem, Barbara ainda precisa entregar o TCC para se formar neste ano em engenharia de produção. Em paralelo, ela também se tornou uma referência no cenário universitário empreendedor. Além de ajudar alunos que chegam ao B.Hub, Barbara se tornou embaixadora da Renault e já mentorou dois grupos que participaram da última edição da Renault Experience. A estudante também já fez parte do grupo de mentores de hackathons e competições promovidas por empresas como Banco Safra e IBM. 

E não para por aí. Em paralelo a WeGott, TCC e mentorias, Barbara pretende trabalhar em uma multinacional ainda no início de 2021. “Eu quero mais. Isso é uma coisa que já estava no meu road map pessoal. Quero executar esse plano e já estou começando essa busca. Se eu consigo fazer duas graduações, gerir uma empresa, dar mentorias e ser embaixadora, eu consigo mais isso também”, afirma, aos risos.

“Quero me colocar no lugar de alguém subordinado. Uma empresa grande traz duas coisas: seu nome bem posicionado no mercado e aprendizado, porque empresas muito grandes lidam com problemas grandes e isso te dá um conhecimento muito maior para você trabalhar na sua empresa. É isso o que me motiva”, completa ela, sobre a própria carreira

Pesquisa acadêmica antes

Gabriel Liguori escolheu uma jornada empreendedora mais longa. Graduado em medicina pela USP, inicialmente sua ideia era ser pesquisador na área de medicina regenerativa e engenharia de tecidos, que permite fabricar tecidos e órgãos em laboratório. Assim, o passo seguinte à graduação foi seguir para o doutorado, que fez na Holanda. Ao retornar para o Brasil, em 2017, ajudou a criar o laboratório de pesquisas do Instituto do Coração (Incor), permanecendo com as pesquisas no local por mais dois anos. 

“Com o tempo percebi que as ambições que eu tinha eram muito grandes para caberem em um projeto acadêmico. É algo que exige injeção de capital e precisa de um desenvolvimento a longo prazo, com muita gente envolvida e que não seria possível fazer na academia sozinho. É um tipo de desenvolvimento que exige investimentos em escala bilionária e isso não é compatível com o tipo de investimento que a gente tem em pesquisa acadêmica”, diz.

Foi assim que ele criou a startup TissueLabs em 2019. “Nosso objetivo é fabricar e comercializar órgãos para transplante daqui a 10 anos ou 15 anos, com foco no coração”, completa Gabriel. 

A pesquisa intensa para fabricar órgãos artificiais deu origem a alguns produtos no meio do caminho, que ajudam a gerar receita para a startup. “Dos desenvolvimentos que a gente faz no sentido de chegar a um coração artificial daqui a 10 anos ou 15 anos surgem no caminho inovações que a gente transforma em produtos. Então a gente funciona patenteando e comercializando inovações tecnológicas que desenvolvemos no caminho”, explica. 

Um dos produtos é o MatriWell, plataforma para estudos de células do pulmão desenvolvido em cerca de dois meses e que foi distribuído pela empresa de forma gratuita para grupos de pesquisa que estudam os efeitos da covid-19 no pulmão. “A gente tem de 20 a 30 pesquisadores no Brasil e fora do País utilizando a plataforma”, diz. 

A TissueLabs está incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), entidade gestora da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica USP/IPEN. Atualmente, 50% das empresas incubadas no local têm como criadores ex-alunos da USP. 

O Cietec ampara e fomenta negócios muitas vezes originados de pesquisas acadêmicas, mestrado ou teses de doutorado. “Mas essa tese precisa ter uma aplicação prática imediata. Este é o equilíbrio que a gente procura aqui”, diz Sérgio Risola, diretor-executivo do Cietec. 

“Percebo que esse estudante formado recentemente, com uma pesquisa ou com sua tese, tem nos estudos o embasamento e a linha que ele quer adotar para desenvolver um negócio”, completa. “O Cietec acaba sendo um selo de confiabilidade, quando o mercado vê que você está lá dentro fica mais tranquilo em usar os produtos da sua empresa”, ressalta Gabriel. 

Outra instituição que apoia negócios baseados em pesquisa científica é a Fapesp, por meio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). “Eles ajudam a conseguir investimento inicial para algumas etapas essenciais. Então, você consegue andar com as suas pernas. Nós montamos nosso laboratório, por exemplo. A Fapesp tem um papel fundamental na área de biotech no Brasil”, afirma Gabriel. 

Para os alunos que pretendem empreender na área de biotecnologia, Gabriel tem um recado. “Você tem que ter muito conhecimento antes de começar a montar a empresa. Quando eu me formei em medicina, se eu tivesse resolvido fazer o que a gente está fazendo hoje na TissueLabs, seria impossível. Esses anos do doutorado e também montar o laboratório do Incor foram importantíssimos para a base científica do problema que a gente, como empresa, pretende resolver”, ressalta.

“Se prepare cientificamente para depois começar a investir em um negócio nessa área, senão você não se sustentará a longo prazo, não conseguirá provar que aquilo vai funcionar. Desde a graduação, já se prepare no sentido de fazer iniciação científica, vá para o laboratório, se junte a uma biotech para aprender como é o dia a dia de uma startup do tipo e se prepare cientificamente”. 

INCUBADORAS EM SÃO PAULO

E outros centros de empreendedorismo em universidades paulistas

  1. Belas Artes - Núcleo de Empreendedorismo e Inovação 
  2. FAAP - FAAP Business Hub
  3. FGV - Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios 
  4. Insper - Centro de Empreendedorismo 
  5. USP - Cietec
  6. USP - Habits
  7. USP - InovaHC

 

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Cultura de startups seduz e leva jovens universitários a empreender

Enquanto cresce desejo de aluno por criar empresa na faculdade, instituições estimulam com disciplinas, parcerias com empresas e até trocando TCC por criação de startup

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 05h00

“Levanta a mão quem aqui pensa em empreender”. A provocação dirigida a universitários é feita há anos por professores dos mais variados cursos de ensino superior do País. Se antes um ou outro aluno levantava a mão, professores, coordenadores de curso e gestores de incubadoras ouvidos pelo Estadão revelam que, atualmente, de 40% a 60% de seus alunos expressam o desejo de abrir o próprio negócio ainda nos bancos das universidades. 

Para ampará-los, as instituições oferecem de cursos de extensão a MBAs, de maratonas de tecnologia (os chamados hackathons) a estação de trabalho em uma incubadora da própria universidade, de disciplinas sobre o tema à substituição do TCC pela criação de uma startup como trabalho de conclusão de curso.

O fato é que a ascensão das startups seduz universitários desde o primeiro ano da graduação. Não apenas pelas cifras alcançadas (o volume de aportes em 2020 no País está em US$ 2,2 bilhões) mas pelas características do modelo de negócio. De acordo com os especialistas, o jovem universitário enxerga uma oportunidade para finalmente “trabalhar com o que gosta”, aliando propósito, agilidade na rotina de trabalho, inovação aplicada e liberdade de criação. 

Flexibilidade de horários e uma cultura organizacional feita à sua maneira também entram no pacote para aliar empreendedorismo à futura carreira. “O aluno entende que pode desenvolver uma empresa relacionando-a com a sua causa e seu estilo de vida. Isso o deixa encantado”, afirma Wagner Sanchez, diretor acadêmico da FIAP.

O professor de empreendedorismo e inovação do Insper Marcelo Nakagawa observa que muitos jovens buscam por instituições de ensino que oferecem conteúdos sobre empreendedorismo antes mesmo de iniciar os estudos. “O número de jovens interessados em empreender e que busca uma faculdade para tal cresce constantemente nos últimos anos. Em geral, o futuro aluno faz uma pesquisa prévia no site da instituição buscando matérias relacionadas e apoio oferecido por ela, como centros de empreendedorismo”, diz. 

“Alguns alunos são incentivados pelos próprios pais, que conhecem as condições atuais de emprego e têm noção do processo de precarização do trabalho em função da terceirização da atividade fim, trabalho intermitente, trabalho por projeto e ainda o avanço da automação e robotização de processos”, completa Nakagawa. 

Para entender o ecossistema nacional, o Brasil saltou de 4.151 startups em 2015 para 13.479 atualmente, de acordo com a Associação Brasileira de Startups (ABStartups). Sobre o desejo de empreender, segundo o relatório anual do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizado no Brasil pelo Sebrae e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), ele ocupa o quarto lugar na lista de desejos do brasileiro, atrás apenas de comprar um carro, viajar pelo Brasil e ter a casa própria.

Startup no lugar do TCC

Com a cultura das startups, os cursos de engenharia e tecnologia foram alçados ao topo da lista com maior potencial de alunos empreendedores. Competições patrocinadas por grandes empresas e até a substituição do TCC pela criação de uma startup já são uma realidade na FIAP, por exemplo. A instituição investe no contato com o ecossistema empreendedor desde o ingresso do aluno na universidade, fazendo parcerias com departamentos de inovação de grandes empresas.

“Para alunos de todos os cursos em todos os anos a gente tem um desafio proposto por uma grande empresa, no qual eles precisam trazer soluções para um problema. Já trabalhamos com Ford, Embraer, Basf, IBM, Bayer entre outras. Durante o ano, os executivos dessas empresas dão mentorias para esses alunos, validando as ideias. Ao término do ano letivo, as empresas incubam algumas delas ou mesmo contratam os alunos que a desenvolveram”, explica Sanchez. Acontecem de 30 a 40 desafios por ano na FIAP. 

Há seis anos, a instituição substituiu o TCC pela criação de uma startup para fortalecer ainda mais a educação empreendedora. “O aluno recebe em sala de aula conceitos importantes para o empreendedorismo, como pitch, canvas, plano de negócios, entre outros. Nas bancas, trazemos pessoas do ecossistema empreendedor e muitas vezes sai dali algum tipo de investimento ou até o primeiro aporte dessa startup”, afirma o diretor. 

Sanchez ainda ressalta que os alunos dos cursos de tecnologia enxergaram a importância de ser mais do que desenvolvedores, mas sim os donos do negócio. “Ter um profissional de tecnologia como o dono da empresa é o que ajuda a startup a decolar, porque o tempo do desenvolvimento de um aplicativo, inteligência artificial ou o que for, é o tempo do profissional de TI”

Outra iniciativa de destaque no País é a Projetão, uma metodologia criada por professores da Universidade Federal de Pernambuco para dar suporte a alunos que desejam criar uma startup. A Projetão conta com o apoio do ecossistema empreendedor local, como o hub de inovação e economia criativa Porto Digital. Uma das startups de mais destaque em segurança e performance de aplicativos no Brasil, a InLoco, surgiu por meio da Projetão (a startup recebeu aporte de US$ 20 milhões em 2019).

A aquisição de startups por grandes players do mercado também impulsiona o desejo de empreender em jovens universitários. A digitalização de serviços e produtos promoveu uma corrida pelo desenvolvimento ágil de inovação nas companhias, principalmente neste cenário de pandemia.

“O momento é marcado pelo interesse de grandes corporações em trabalhar, investir ou mesmo comprar startups. Diversos empreendedores aprenderam a ler as ondas do mercado para pegar as melhores oportunidades para empreender. Em casos assim, são empreendedores que identificam um problema do mercado, criam soluções inovadoras, conseguem fazer o negócio decolar e depois o vendem para investidores ou para corporações maiores”, explica Nakagawa. 

Mas é importante ressaltar que o caminho do empreendedorismo não é tão simples assim, alertam os especialistas. Para Pierre Lucena, presidente do Porto Digital, o maior problema é a falta de investimento justamente na fase da ideação, em que a empresa está sendo criada. 

“Basicamente a gente não fomenta o empreendedorismo na base e isso leva a um problema sério que é: empreender passou a ser um programa de classe média. Quem é que vai amparar financeiramente um jovem por alguns anos depois que ele se formou enquanto a empresa ainda está se desenvolvendo? Hoje não falta mais dinheiro para a empresa com modelo de negócio formado. Mas para empresas no começo não tem uma linha de fomento, absolutamente nada”, diz. 

FASES DE UMA STARTUP

  1. Ideação. Fase em que é preciso colocar a ideia em prática e responder a questões importantes, como qual é o público consumidor da sua solução e como testar esse produto
  2. Operação. Partir para o trabalho de campo e colocar a solução no mercado. Além disso, muitos criadores de startups buscam programas de aceleração para impulsionar a empresa, assim como a apresentação para investidores
  3. Tração. Crescimento. Esta é a etapa em que a startup busca aumentar sua produtividade e alcançar o maior número de clientes. Nesta fase, as empresas também buscam rodadas de investimentos para alavancar o negócio
  4. Scale-up. Esta etapa tem uma fórmula exata. A startup precisa apresentar um crescimento de 20% em receita ou número de colaboradores por três anos consecutivos e estar com, no mínimo, 10 funcionários quando entrar neste período

 

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Matar startup não é sinal de fracasso, mostra empreendedor em série

Para Guilherme Freire, que coleciona nomes como Livo, Grin e Dolado, é importante ter empatia para entender a dor do cliente; cultura de unicórnio é superestimada, diz ele

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 05h00

A metodologia ágil das startups imprime um outro ritmo e mesmo uma nova lógica no empreendedorismo. É possível validar o produto de forma rápida, vender a solução para grandes empresas em busca de inovação e, talvez o principal, testar mercados. Não é porque você fundou uma startup no setor de alimentação que precisa permanecer à frente dela para o resto da vida. Ou que tenha que empreender apenas no setor de alimentação.

“A própria definição de startup formulada pelo professor Steve Blank pressupõe a natureza transitória, experimental e falível da startup. Ou seja, a alta taxa de mortalidade de startups faz parte do método utilizado e não é algo especialmente negativo. Desde que se erre rápido, barato e aprenda muito com a experiência. Um dos aspectos inerentes à dinâmica das startups é que os métodos utilizados hoje privilegiam o aprender rápido e barato”, diz o professor de empreendedorismo do Insper Marcelo Nakagawa. 

Assim surgiu o que chamamos de empreendedor serial. Criar, abrir, vender ou fechar. Não importa. O que o motiva é detectar mercados e provocar soluções para o mesmo.  Guilherme Freire é um empreendedor serial. Criador da primeira marca de óculos nativa digital Livo Eyewear, ex-sócio da empresa de patinetes Grin, ex-presidente da Grow, e atualmente criador da Dolado, marketplace que fomenta o comércio de pequenos varejistas, o engenheiro de produção de formação conversou com o Estadão PME para explicar os altos e baixos de um empreendedor profissional. Alerta spoiler: é preciso estudar. Muito.

Como foi a sua trajetória na universidade? Já pensava em empreender? 

Fiz engenharia de produção na PUC-RJ e desde aquela época eu já sabia queria direcionar a minha carreira para o empreendedorismo. Por um tempo eu tentei seguir uma carreira no mercado corporativo, isso era em 2007 e não tinha startup, nada disso. Comecei de forma tradicional, mas não conseguia parar em lugar nenhum. 

Comecei no mercado financeiro. Odiei. Foi o pior ano da minha vida. Aí fui para consultoria, fiquei dois anos de saco cheio, só preparava slide, não conseguia ver nenhum sentido no que eu fazia e também não me encontrei. Aí fui tentar uma coisa totalmente diferente do convencional e virei headhunter. Achei até legal, mas também não era aquilo. 

Então, quando eu estava totalmente perdido, abri a minha primeira empresa, que foi no mercado tradicional, não no de tecnologia. Criei um bairro planejado e foi muito legal, me encontrei com esse formato de poder fazer as coisas do meu jeito. Cometi vários erros, mas pensei: é isso o que eu quero para o resto da minha vida. 

Eu vi que eu queria empreender, mas a economia tradicional não era tão interessante, as coisas acontecem mais devagar. E então surgiu uma oportunidade de eu entrar de sócio em um e-commerce. Ali foi quando eu pensei ‘agora eu achei’. Vi que a base de tecnologia é muito mais dinâmica, você busca referência em tudo quanto é lugar do mundo, vai atrás de investidor. Me seduziu demais. 

Na mesma época, em 2011, passei no meu MBA na Wharton Business School, nos Estados Unidos. Esse era o sonho da minha vida. Fui focado em aprender sobre empreendedorismo e pensei que tinha ido para lá para encontrar o meu próximo negócio. 

E encontrou? 

Sim, conheci um pessoal que tinha começado a vender óculos pela internet. Não tinha muito esse conceito de vender óculos pela internet, era meio loucura. A ideia surgiu dentro da universidade, conheci os fundadores e em pouco tempo o negócio dominou os EUA. E eu me encantei. Pensei: será que isso daria certo no Brasil? Então eu paguei para ver e criei a Livo Eyewear, que foi a primeira marca de produto físico que só vendia pela internet, em 2012. 

Foi a experiência mais incrível da minha vida. Só que quando deu cinco anos de empresa eu comecei a ficar de saco cheio. Queria fazer algo diferente. Então surgiu a oportunidade de eu vender a minha participação. Mas já fiquei naquela ‘vamos para o próximo’. Eu queria achar o próximo negócio. 

Você empreendeu logo em seguida?

Não. Eu fui fundar um grupo de investidores-anjo. Na verdade, trouxe o grupo de investidores-anjo da Wharton para a América Latina. E com isso eu comecei a interagir com vários tipos de negócios até que esbarrei em um negócio de mobilidade. Eu não conhecia muito o setor. Então conheci uma pessoa que estava com uma ideia maluca de trazer patinete elétrico para a América Latina. Para mim era uma loucura completa. 

Ele me pediu para ajudá-lo a desenvolver o plano de negócio e, nesse processo, eu achei o cara incrível, a história era muito legal, os números faziam muito sentido e falei: vamos fazer. Muito rápido a gente fez a fusão com uma outra empresa e nos tornamos Grin. Em seguida, fizemos a fusão com a Yellow, compramos outras empresas e viramos Grow. Me tornei o presidente da Grow. A empresa despontou muito no primeiro ano, cresceu rápido, mas começamos a ter muito atrito e vendi a empresa em janeiro 2020. 

Quando vendeu a Grow já tinha mais um mercado em vista?  

Pensei em tirar um ano sabático, só que eu não me aguentei. Meu atual sócio veio me contar de uma pessoa que ele conheceu e que queria ajudar os pequenos varejos de cidades do interior e periferias que estavam para fechar as portas por conta da pandemia. Então em abril criamos a Dolado, um projeto muito legal, porque você usa a tecnologia para resolver as dores desse público. Já estamos com mais de 40 funcionários e com quase 2 mil lojistas.

Empreendendo em tantos mercados diferentes, qual é a sua visão para o ecossistema de startups no Brasil? 

Eu odeio a cultura do unicórnio. Primeiro que ela parte de uma lógica que já começa errada. O unicórnio é a empresa que está sendo avaliada por investidores por mais de U$ 1 bilhão com base na última captação que ela fez. Qual é o problema disso: os investidores muitas vezes avaliam muito mal o valor das empresas. A Grow estava nesse jogo, nessa cultura. Não quero isso nunca mais. A coisa mais ridícula do mundo é quando o empreendedor comemora o valuation. Motivo para celebrar eu vou ter quando bater 100 mil clientes, gerar milhares de empregos, transformar vidas.  

Mas tem uma parte desse cenário que me deixa muito feliz.  Na minha época, o sonho de 9 em cada 10 era ou trabalhar no mercado financeiro ou trabalhar em uma multinacional. Hoje, o grande sonho é empreender, trabalhar em uma startup. Você vê ótimos negócios locais, rentáveis, que não são negócios de bilhões, mas que tem muito mais valor do que negócios de bilhões. 

O que você diria para um jovem universitário que tem o empreendedorismo como plano de carreira? 

O que eu faria se estivesse me formando hoje: não pensaria já em empreender de cara. Começaria em uma startup, veria como se faz em uma, depois vai para outra, depois outra… lá pela quarta, quando eu já tivesse diferentes visões, aí eu iria começar a pensar em fazer a minha. 

Muita gente quer fazer isso dentro da universidade e achar que já vai valer U$ 1 bilhão e aí acaba sendo muito frustrante. O que é para ser um processo gostoso, legal, uma descoberta, acaba sendo muito traumático. Bem ou mal é uma empresa, exige gestão. Tem que saber fazer um planejamento estratégico, tem que ter noções de gestão. Em negócios de tecnologia, a complexidade operacional é muito alta. 

Tenha profundidade no conhecimento sobre gestão, metodologias que as empresas usam, é uma busca infinita por conhecimento. E uma soft skill muito importante é empatia. É preciso ter empatia com o  usuário da sua solução. 

 

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