Gustavo Batistel
Gustavo Batistel

Mercado de refeições congeladas é aquecido com pandemia

Com home office e escolas fechadas, redes de franquias e marcas autorais expandem negócios e lançam novos produtos; opções vão do saudável ao churrasco

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2020 | 05h00

Especial para o Estado

Impulsionadas pelo alto índice de pessoas que permanecem em casa mesmo após 7 meses de pandemia (de acordo com o IBGE, são 8,3 milhões de brasileiros em home office), pequenas e médias empresas de comidas ultracongeladas abocanharam com gosto a oportunidade de crescimento. Exemplo disso são a foodtech Orgânico Gourmet e a empresa Keep Light, que anunciaram fusão em setembro. De um lado, a Orgânico Gourmet, que teve alta de 5% ao mês nas vendas e duplicou o time da cozinha durante a pandemia, entra com suas refeições orgânicas. Do outro, a Keep Light, que viveu um crescimento de 30% no mesmo período, traz sua estrutura industrial e a expertise nutricional que oferece alternativas para dietas com restrição calórica. 

Por enquanto, os dois e-commerces continuam a operar distintamente, mas a ideia é já fazer a integração das cozinhas, que passarão a funcionar na sede da Keep Light, na zona sul da capital paulista. Até o final do ano, haverá a integração total das operações e plataformas. 

Luciano Touguinha, cofundador da Orgânico Gourmet, conta que a empresa com DNA 100% digital precisava de uma base industrial forte para abarcar o crescimento veloz (atualmente, 30 mil pratos por mês). Já a Keep Light, com 20 anos de mercado, sempre teve boa base industrial, mas baixa aderência ao digital. “Agora vamos somar o negócio digital e a pegada de sabor e qualidade de uma à estrutura industrial e base fortemente nutricional da outra”, conta o empreendedor.

Além de atender ao mercado B2C, que se tornou o target da OG na pandemia, e retomar o fornecimento de freezers no modelo honest market para empresas parceiras, as empresas posicionaram seus produtos nos congeladores do Sam’s Club, em São Paulo. Agora, seguem em negociação com outras 10 redes de supermercados, começando a operar em quatro delas já em novembro.  

“Na verdade, nós é que fomos procurados pelo varejo”, ressalta Touguinha. “Do atacadão ao supermercado premium, o mix de ofertas de congelados está muito envelhecido e a demanda começou a aumentar na pandemia.” A ideia, porém, não é competir com a lasanha de R$ 10 cheia de conservantes. “A alimentação saudável e principalmente orgânica se distancia muito disso, então são categorias diferentes.”

Especializada em refeições coletivas, a L'energie entrou no ramo dos congelados há quatro anos, quando nasceu a filha da empresária Juliana Graf. Ela começou a fazer as papinhas utilizando produtos orgânicos 100% naturais e a estrutura e expertise da mão de obra da cozinha central de sua empresa. A partir daí, a L’energie Baby ficou em definitivo no portfólio.

Durante a pandemia, as vendas tiveram 45% de aumento. “Muito provavelmente pelo fato de as mães estarem com menos rede de apoio, uma vez que cada um está confinado na sua casa, tendo que se tornar multitask”, analisa a empresária.

Restaurantes diversificam negócios

Sócios do restaurante árabe Baruk, que tem duas unidades em São Paulo, os irmãos Denise e Gustavo Batistel criaram há cinco anos a marca de marmitas congeladas Takeat, com opções de massas, refeições fit e vegetarianas, entre outras. Originalmente independentes, os negócios se uniram com a chegada da pandemia. Ao observar o crescimento do delivery do Baruk, triplicado durante a quarentena (recorde de 150 pedidos em um dia), a dupla teve o insight de levar pratos árabes para o mercado de ultracongelados via Takeat. 

Recém-lançada, a linha já representa 8% do faturamento mensal do Baruk. Os pratos são produzidos na cozinha central da operação, que conta com equipamentos e processos para hipercongelamento, preservados a -45०C. As encomendas chegam pelo iFood ou delivery próprio, mas também estão disponíveis para retirada nos dois restaurantes.

O sucesso do selo Baruk também os inspirou a alçar novos voos. “Como temos uma cozinha bem preparada, pensamos em fazer a produção para marcas renomadas de outras especialidades que queiram ter seus pratos ultracongelados”, projeta o empresário.

Outra marca que mergulhou no mundo dos congelados é a franquia de alimentação saudável Boali, presente em oito Estados. A linha já estava nos planos da empresa, mas a ideia inicial era lançar só em agosto. “O que a gente fez foi antecipar para abril, justamente por conta da pandemia”, diz o CEO Rodrigo Barros. 

Com cinco pratos, o plano agora é aumentar o número de receitas. “A linha também vai fazer parte de um programa chamado ‘Boali com você’, plano de assinatura em que o cliente poderá se programar para receber as refeições”, conta o empreendedor.

A pandemia também foi o propulsor de lançamento dos congelados da rede Espetto Carioca, com mais de 30 unidades espalhadas pelos Estados de São Paulo, Bahia, Ceará, Rio Grande do Sul e, obviamente, Rio de Janeiro. “Já era nossa ideia há dois anos, mas não tínhamos ido para a prática por priorizar outras áreas do negócio”, afirma o diretor comercial Bruno Gorodicht. 

A marca inaugurou recentemente um frigorífico próprio e passou a produzir packs de espetos in natura para consumir em casa. Em cinco ou dez unidades e com o tempero da rede, os espetos vêm prontos para assar. As vendas começaram em 20 quilos mensais e agora já estão em 300 quilos.

esmo com a reabertura dos restaurantes e bares, a marca quer continuar a apostar no mercado de congelados e expandir o mix, incluindo a linha vegana que já faz parte das lojas. “Em janeiro lançaremos também nosso e-commerce com uma linha própria de produtos, justamente para gerar a conveniência para nosso cliente sem perder a experiência da marca”, revela o executivo.

Pandemia impulsiona franquia

Na rede de franquias Mr. Fit, o braço dos ultracongelados já vinha evoluindo há cinco anos, com o modelo Mr. Fit Home, que pode ser implantado em casa. Durante a pandemia, a empresa reduziu de R$ 17 mil para R$ 8 mil o valor de investimento inicial para atrair mais franqueados.

“Quando as pessoas passaram a procurar uma opção para investir esse ano, encontraram um modelo operando e já bem formatado”, afirma Camila Miglhorini, CEO e fundadora da rede.

A previsão de que os congelados ganhariam espaço não só se concretizou, mas superou as expectativas. “Eu imaginava ter uma venda de 30 mil pratos ao mês e hoje estamos com 300 mil”, comemora a empresária, que investiu em uma fábrica com capacidade de produzir mais de 10 mil unidades por dia e despachar para os franqueados, que saltaram de 40 para 220. 

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