Diego Sanchez
Diego Sanchez

Lixo plástico vira questão no delivery de restaurantes na pandemia

Aplicativos como iFood e Uber Eats promovem iniciativas para reduzir envio de descartáveis com pedidos de comida; restaurantes abraçam alternativas biodegradáveis

Anna Barbosa, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2021 | 05h00

Uma das formas de sobrevivência dos pequenos restaurantes durante a pandemia foi o delivery. No ano passado, entre janeiro e dezembro de 2020, foi registrado um aumento de 149% dos gastos em aplicativos de entregas focados no delivery de comida (iFood, Rappi e Uber Eats), de acordo com pesquisa da Mobills, startup de gestão de finanças pessoais, com mais de 46 mil usuários de seu aplicativo. Ao mesmo tempo, um problema latente também ganha espaço: o aumento do lixo e do envio de plásticos descartáveis.

“A pandemia mudou os hábitos dos brasileiros, que precisaram adaptar sua rotina para o cenário desafiador de isolamento social e isso vale também para o comércio e os restaurantes. Entre as mudanças está o aumento de gasto com delivery. Como consequência, há um maior número de embalagens (incluindo as de plástico) sendo utilizadas e descartadas”, diz Marcos Matos, diretor de Marketing e Vendas da eureciclo, empresa de solução para logística reversa de embalagens.

Com o aumento do lixo, os consumidores também se posicionam. Segundo um levantamento feito pela IPEC Inteligência em Pesquisa e Consultoria, divulgado com exclusividade pelo Estadão, 72% dos consumidores responderam que gostariam de receber pedidos de delivery de comida sem plástico descartável, ou seja, com embalagem biodegradável que não agrida o ambiente.

Dois dos três principais aplicativos de delivery adotaram medidas para a redução do plástico. Em nota, o Uber Eats afirma que foi “o primeiro aplicativo no Brasil a se unir ao movimento de consumo sustentável”. O aplicativo lançou, em fevereiro de 2019, um recurso que permite aos usuários dispensarem o recebimento de talheres descartáveis, guardanapos e canudos

A iniciativa, que começou no Brasil e no Chile, foi estendida a outros países depois de ter 93,7% dos restaurantes participantes no País satisfeitos, diz a empresa.

Já o iFood anunciou, em março deste ano, o programa iFood Regenera, que busca acabar com a poluição plástica das suas operações de delivery e tornar-se neutro na emissão de carbono até 2025. Para isso, a foodtech vai investir em veículos elétricos, pesquisa e desenvolvimento de embalagens sustentáveis e em cooperativas de reciclagem.

O aplicativo já passou a oferecer a opção de o cliente não receber talheres plásticos e outros itens descartáveis com seu pedido, além de ter criado um selo para reconhecer as boas práticas ambientais dos restaurantes cadastrados.

Em nota, a startup afirma que, nos primeiros testes, “90% dos consumidores utilizaram o recurso, o que mostra o desejo do usuário em receber menos resíduos nas suas casas”. Com isso, diz o iFood, nos últimos dois meses foi reduzido o envio de itens plásticos de mais de 1,6 milhão de pedidos, de 18 mil restaurantes.

Um dos restaurantes com o novo selo do iFood é o Purana.Co, com menu 100% baseado em plantas. “Desde a criação da marca, nós já tínhamos traçado o propósito de ser o mais sustentável possível. Isso vai desde a escolha por uma alimentação à base de plantas e a escolha de fornecedores, pequenos produtores, a preferência por alimentos orgânicos. As embalagens não poderiam ser diferentes”, conta Thiago de Carvalho, um dos fundadores do Purana.

As embalagens, de um fornecedor nacional, são feitas à base de mandioca e compostáveis a partir de 90 dias. Além destas, o restaurante também optou por embalagens de vidro. “Grande parte dos produtos, como bebidas e doces, vão em potes de vidro, que também têm um destino para a reciclagem, onde nasceu um projeto de retornáveis”, diz Thiago, segundo quem a embalagem volta para o restaurante e o cliente ganha pontos.

Além das embalagens compostáveis e das retornáveis, ainda há a categoria de ressignificáveis, em que é incentivado o uso de potes como vasinho ou para guardar temperos.

Para o empreendedor, o principal desafio foi o econômico, já que as embalagens compostáveis e de vidro custam três vezes o valor das convencionais, de isopor, alumínio ou plástico. “O primeiro desafio foi assumir esse custo como um investimento da empresa e uma responsabilidade ambiental.”

Substituição gradual na pandemia

O grupo EME, da chef Renata Vanzetto, que conta com seis restaurantes (Ema, Muquifo, Pescadora - Cozinha do Mar, MeGusta Bar, Matilda Lanches e Buffet Vanzetto), passou pela substituição do plástico há cerca de seis meses.

“Foi uma coisa natural. Nós simplesmente trocamos tudo o que tínhamos de plástico por embalagens de papel e os talheres por biodegradáveis”, conta Renata. “Não tivemos dificuldade em achar coisas no mercado. Se houve um aumento de custos, foi muito baixo, porque não refletiu tanto aqui.” 

Contudo, a empreendedora pondera que sempre usou pouco plástico e que já trabalhava com sacolas e copos de papel biodegradável. “Eu acabei substituindo apenas os talheres e alguns potinhos. Não houve grandes mudanças. Nós já mexíamos com muito pouco (plástico). A única coisa que continuamos a usar são as tampinhas de algumas embalagens, que ainda não tem o que fazer.”

Marcos Matos, da eureciclo, pontua que é importante repensar o uso e a quantidade das embalagens, independentemente do material que elas tenham. “Sempre dizemos que antes de reciclar temos um longo caminho a percorrer na sustentabilidade: repensar, recusar, reduzir, reutilizar. Os Rs da sustentabilidade são um bom guia nesse sentido e ajudam as marcas e estabelecimentos a mudarem a forma como veem e lidam com seus resíduos.”

Esse é um dos principais pontos apresentados por Paulo Teixeira, diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast). “Toda discussão de sustentabilidade precisa ser sistêmica e o consumo consciente é uma  dessas vertentes. Quando eu peço alguma coisa no restaurante, faz sentido pedir a cada drinque um novo canudo? Em casa, você precisa de talher, canudo, copo descartável ou eu posso retirar esses envios?”, questiona.

Ele explica que, ao colocar como única ação a substituição do plástico, porém, não se trata o problema central, que é o descarte - e que é ele que precisa ser abordado. “Não damos circularidade para os materiais para que possamos reciclar. Existe uma lógica da economia circular, que tem a ver com o pensar sistêmico.”

De acordo com informações levantadas pela ONG WWF, no relatório “Solucionar a Poluição Plástica – Transparência e Responsabilização”, apresentado na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA-4), em março de 2019, Brasil é o 4º produtor de plásticos do mundo e só recicla 1,28% do total produzido (145 mil toneladas).

“A maior dificuldade de comércios e restaurantes é rastrear as embalagens descartadas após o uso do consumidor, para garantir sua destinação adequada, independentemente do seu material. É uma tarefa praticamente impossível”, pontua Marcos, da eureciclo. “É por isso que o modelo de compensação ambiental é a principal forma de girar a engrenagem, já que garante a reciclagem do mesmo tipo de material. Isso quer dizer que, se um restaurante usar 10 toneladas de plástico na região Y, mas não conseguir implementar a logística reversa, ele pode optar por compensar, reciclando uma massa equivalente no mesmo local.”

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