Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Questão ambiental faz canudo crescer como negócio

Projetos de lei pelo País que proíbem o uso do item descartável abrem mercado para a criação de novas soluções

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 06h04

A cidade de São Paulo pode ser o próximo município a banir os canudos plásticos descartáveis ainda neste ano. Um projeto de lei que proíbe o fornecimento do item em hotéis, bares, padarias e também em eventos tramita na Câmara Municipal e espera a primeira votação. Se aprovado, caberá ao prefeito Bruno Covas sancionar a lei.

O Rio de Janeiro foi a primeira capital a aprovar uma lei do tipo, em julho de 2018. Esse movimento não apenas abriu caminho para outras cidades surfarem na mesma onda, mas também gerou nova demanda de mercado e, com isso, oportunidade de negócio. De vidro, aço inox, silicone, papel, alumínio, palha, macarrão, bambu e até comestíveis, canudos reutilizáveis e sustentáveis fizeram a cabeça de empreendedores.

Uma das pioneiras é a carioca Mentah!, que lançou seus canudos de vidro com produção 100% nacional antes de a lei no Rio ser aprovada. “Após produzir um lote pequeno para teste e venda aos amigos, coloquei o produto no mercado em junho de 2017. Ainda não tinha nenhum produto do tipo no Brasil”, diz a criadora, Helen Rodrigues. Com a lei, a empresa se firmou no mercado.

Sem capital inicial substancioso, Helen conta que tudo o que entrava na empresa era reinvestido. Da produção inicial de 100 canudos, hoje a empresa faz 5 mil unidades por mês, com faturamento de R$ 1 milhão em 2018. São 150 revendedores em todo o Brasil e mais de 20 restaurantes clientes. “Sou farmacêutica e por um tempo levei a Mentah! como um segundo projeto. Mas há um ano me dedico apenas à empresa, com escritório próprio e funcionários.”

No segundo semestre de 2018, quando o setor decolou com as leis e os projetos em andamento, Thiago Pissaia criou a marca Econudinho, em Curitiba. A empresa trabalha com quatro tipos de canudos: aço inox, silicone, vidro e silicone com aço inox. Apenas o de vidro é produzido no Brasil, os outros modelos são importados da China.

“Trabalhamos com três frentes de vendas: consumidor final, atacado e eventos”, diz Pissaia. Devido à abertura recente da empresa, ainda não há uma média real de faturamento, mas o empreendedor trabalha com estoque mensal de 30 mil canudos, seu objetivo de venda.

Já no fim do ano passado, o casal Aline Farias e Daniel Motta lançou a marca Coisas de Bambu, no Rio, para vender os canudos de bambu produzidos de forma artesanal por eles. “Fizemos os canudos de bambu para uso próprio e percebemos que a durabilidade é grande. Decidimos então vender o produto. Fazemos o canudo com bambu orgânico”, explica Aline. 

A Coisas de Bambu é uma submarca do e-commerce É Coisa Bio, que Aline possui desde 2015 e que trabalha com itens naturais e sustentáveis. Até o momento, já foram vendidos 1.500 canudos – o kit com dois canudos e uma escovinha para limpeza custa R$ 27,90. 

Foi também a partir de um objeto para uso próprio que nasceu a CB Canudos, em Jundiaí (SP), quando a estudante Caroline Cavalli Bighetto pediu aos pais para desenvolverem um canudo de alumínio na pequena empresa de usinagem da família.

Os canudos já estão à venda em uma rede de franquias de produtos naturais em Jundiaí e em duas cidades no Rio Grande do Sul. “Produzimos o canudo e temos fornecedores, também pequenos, para realizar a pintura, a gravação e o estojo em que ele é vendido. Vamos lançar o e-commerce em março”, conta Rosa Cavalli, mãe de Caroline e administradora da empresa ao lado do marido, Vitor Bighetto. O kit com canudo, limpador e estojo sai por R$ 15. 

Sustentabilidade. Os canudos têm vida útil longa, o ambiente agradece. Mas e a sustentabilidade financeira da empresa? Para ser viável a longo prazo, o plano de negócios de muitas delas inclui a venda de outros itens.

“O canudo reutilizável é a porta de entrada para uma mudança de estilo de vida dos clientes. A busca por itens mais sustentáveis vai aumentar”, diz Pissaia, da Econudinho, que também trabalha com ecobags, lixos para carros e copos reutilizáveis. 

A Mentah! apostou no carnaval com a criação de glitter biodegradável e já produziu joias sustentáveis em parceria com uma ONG do Rio de Janeiro. 

Já a Coisas de Bambu tem em vista a produção de talheres feitos de bambu e outros itens. “O bambu é o material do futuro. É possível fazer até fraldas e roupas com a sua fibra”, diz Aline. 

Pelo País 

Depois de viralizar, em 2015, um vídeo em que é retirado um canudo da narina de uma tartaruga-marinha, o assunto plástico ganhou as mesas de bares e restaurantes pelo País.

Cotia, em São Paulo, foi a primeira cidade a aprovar lei que proíbe o uso de canudos descartáveis no comércio, em junho de 2018, em seguida veio o Rio, em julho, como a primeira capital. E o Rio Grande do Norte, em outubro, foi o primeiro a proibir no Estado inteiro. Hoje, mais de 60 cidades e quatro Estados têm projetos de lei em tramitação ou já aprovados.

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