Felipe Rau/Estadão
Bruno Fonseca na nova fábrica da New Butchers, na zona oeste de São Paulo; local passa a operar em junho e deve aumentar capacidade de produção de 7 para 80 toneladas/mês.  Felipe Rau/Estadão

Carne vegetal: cliente ‘sustentável’ puxa mercado de proteína de planta

Negócios de carne plant based crescem com alta de consumidor ‘flexitariano’, engajado, que reduz proteína animal preocupado com ambiente e saúde; marcas decolam na pandemia

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2021 | 14h01

Quando se fala em almoço de Páscoa logo vem à mente os tradicionais pratos com bacalhau. Mas neste ano, na casa da empresária Fernanda Favale, a iguaria perdeu o protagonismo para dividir espaço à mesa com os peixes vegetais - feitos à base de plantas, sem qualquer vestígio de peixe. A novidade veio para agradar a filha, Isabella, de 16 anos, que se tornou a única vegetariana da família.

“Foi uma surpresa quando ela comunicou a decisão. Ocorreu logo depois do câncer da minha sogra, há dois anos. Por questão de praticidade, durante a pandemia comecei a comprar opções congeladas de carne vegetal e minha filha gostou. Hoje, consome de duas a três vezes por semana”, conta Fernanda.

Muitos brasileiros como Isabella interromperam ou reduziram o consumo de carnes de origem animal nos últimos anos - e as mulheres e os mais jovens encabeçam esse movimento. Pesquisa realizada em 2020 pelo Ibope e coordenada pelo The Good Food Institute (GFI) aponta que 50% dos entrevistados afirmaram ter reduzido o consumo de carne de origem animal em 12 meses - em 2018, eram 29%. Entre as mulheres, o índice vai a 54%; os mais jovens são 52% do total.

Preocupados com a saúde e o ambiente, esses consumidores têm ganhado força no mercado além dos já conhecidos vegetarianos e veganos. São os flexitarianos, pessoas que escolhem reduzir o consumo de produtos de origem animal sem parar completamente.

Os flexitarianos são o principal público-alvo das foodtechs (startups de alimentação) focadas em soluções alimentares plant-based (produtos à base de plantas) e que vêm aproveitando as oportunidades de negócios com a mudança de comportamento do público. O movimento é novo e crescente. Começou por volta de 2019, com o lançamento do hambúrguer da Fazenda Futuro, e foi seguido por marcas como NotCo, Impossible Foods e Veggies, além de gigantes, como Seara.

No caso da The New Butchers, fundada há pouco mais de um ano em São Paulo, o faturamento cresceu 300% no primeiro trimestre de 2021, em comparação com 2020. A startup, que tem como diferencial a proteína de ervilha, está finalizando as obras de uma nova fábrica na Lapa, na Zona Oeste de São Paulo. 

O espaço, que é seis vezes maior que a primeira unidade (de 300 metros quadrados passou para 2.000 metros quadrados), deve começar a operar em junho, a princípio com 29 funcionários e prevê um aumento da capacidade de produção de 7 para 80 toneladas de carne vegetal por mês.

“A nova fábrica abre uma grande possibilidade de inovar com mais velocidade. Nossa missão principal é replicar carnes”, avalia Bruno Fonseca, CEO e fundador da The New Butchers, que promete lançamentos no próximo semestre.

Pioneira no Brasil a experimentar uma imitação de frango, a empresa divulgou dois novos produtos no último mês: a bacalhoada e o bolinho de bacalhau, feitos com carne de jaca que recria a textura das fibras do peixe. O portfólio também conta com carnes vegetais nos sabores bovino e peixe análogo ao salmão. 

Além do aumento das vendas durante a pandemia, a The New Butchers recebeu novo aporte em 2021, de valor não revelado, da Lever VC, mesmos investidores que apostaram nas colegas vegetais Beyond Meat e Impossible Foods. Outros investidores também estão de olho no setor.

O fundo americano vai acelerar a internacionalização da marca, que já está presente em grandes varejos, principalmente, das regiões Sul e Sudeste. As negociações no exterior estão mais avançadas na América Latina, Europa e Ásia.

“Tivemos um lançamento acelerado em 2019 e continuamos com uma curva de crescimento intenso alinhada ao consumidor, que aumentou a procura por esse tipo de alimento, tem mais acesso à informação e está aberto a experimentar novos produtos. Com a pandemia, a população ficou muito mais consciente de como o nosso consumo afeta o planeta.”

Mercado promissor de plant based

O comportamento dos flexitarianos já reflete diretamente no mercado. Estudo da Euromonitor International realizado no ano passado mostrou que o Brasil é o 16º maior mercado do mundo na categoria de substitutos de carne, movimentando US$ 82,8 milhões em 2020, um crescimento de 69,6% em relação a 2015.

Raquel Casselli, gerente de engajamento corporativo do GFI Brasil, explica que o País sempre teve um mercado de substitutos vegetais de carne. Mas os análogos, que buscam imitar o alimento animal, iniciaram as atividades há pouco tempo, em abril de 2019, a partir do lançamento do hambúrguer da Fazenda Futuro. “Nos últimos dois anos, observamos muitos players entrando no mercado brasileiro e produtos variados sendo lançados, como nuggets, pratos prontos, quibes, linguiças, frango desfiado, carne moída e almôndega. A aceitação do consumidor tem sido bastante interessante”.

Segundo ela, já existem mais de 30 marcas (entre análogas e vegetais) com distribuição regional, além de grandes frigoríficos, como a JBS. Mas ainda é difícil quantificar produtores de carne vegetal em nível estadual, podendo ser um número bem maior. 

“Temos visto pequenas e grandes empresas inovando, entendendo o potencial desse mercado e trabalhando fortemente para entregar cada vez mais o que as pessoas gostam.”

Esse é o caso da Venne Vegan, que mesmo com estrutura e capacidade menor se comparada à The New Butchers viu suas vendas, principalmente de carnes vegetais, aumentarem no último ano. Mais de 70% do público atendido é flexitariano. 

A empresa nasceu em 2016, a partir de uma mercearia familiar em Belo Horizonte e quatro meses depois se transformou no primeiro açougue vegano de Minas Gerais. As carnes vegetais produzidas no local pela paulista Laura Bonetti, na época com 23 anos, e sua mãe, Valéria Zamaro, chamaram a atenção de grandes de redes de varejo da capital mineira, como os supermercados Verdemar e Supernosso. Em questão de um ano, a cozinha industrial de 4 metros quadrados se transformou em uma fábrica com cerca de 400 metros quadrados.

“Estudava Direito na época. Minha mãe era professora aposentada e meu pai, engenheiro. Comecei a fazer as primeiras receitas de embutidos para o Natal da família sem carne animal. Fez tanto sucesso que passamos a vender na mercearia e iniciar um negócio focado em carnes vegetais. O empreendimento cresceu rapidamente e, para atender a demanda, meus pais largaram as profissões e investiram todas as economias, inclusive a casa que tinham em São Paulo no valor de R$ 500 mil, na construção da fábrica”, lembra Laura. 

Com produção atual de 1 tonelada por mês e faturamento em torno de R$ 900 mil por ano, a Venne Vegan conta com 14 funcionários e um extenso catálogo. Só de carnes vegetais, fabricam linguiças, salsichas, rosbifes, hambúrgueres, frango desfiado, bife, churrasco e carne moída. Para agradar diferentes paladares, há também uma diversidade de proteínas, como grão-de-bico, feijão, lentilha e soja.

A empresa recebeu em 2020 um aporte de cerca de R$ 350 mil de uma sócia-investidora. O recurso foi usado para a ampliar a fábrica. “Hoje, estamos presentes em muitos pequenos pontos comerciais em Belo Horizonte, no interior de Minas Gerais e na cidade de São Paulo, que nos garantem retorno superior às redes de supermercados”, revela Laura. A próxima meta é chegar às grandes redes da capital paulista.

Questionada se valeu a pena trocar a carreira de advogada por empreendedora, Laura é taxativa: “Demais! Não era só um sonho dos meus pais, era meu também. O veganismo é algo que vivo diariamente e estar num lugar em que os princípios estão alinhados aos meus, por mais obstáculos que existam, vale a pena estar lá todos os dias, trabalhando com amor e carinho no que a gente acredita.”

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'Flexitarianos' ditam tendências para negócios de carne vegetal

Mulheres e jovens são maioria em reduzir consumo de proteína animal; para especialista, aproveitar biodiversidade brasileira e incluir pequeno produtor rural são desafios

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2021 | 14h00

A jornalista e triatleta mineira Ludymilla Sá passou a consumir carnes vegetais de proteínas diversas em suas refeições há cerca de um ano. “Sou carnívora, tenho uma vida muito ativa e também pratico triathlon. A cada 15 dias, para desintoxicar, substituo as carnes de origem animal por proteínas vegetais, por orientação da nutricionista”, conta ela, que costuma comprar produtos da Fazenda Futuro no supermercado.

Pesquisa realizada em 2020 pelo Ibope e coordenada pelo The Good Food Institute (GFI) aponta que os brasileiros têm buscado incorporar opções mais saudáveis no dia a dia. 50% dos entrevistados afirmaram ter reduzido o consumo de carne de origem animal nos últimos 12 meses. Em levantamento semelhante realizado pelo GFI e a Snapcart em 2018 a porcentagem era de 29%.

Entre os brasileiros que reduziram o consumo de proteína animal, 37% já incluíram as carnes vegetais nas refeições em algum momento da dieta. A maioria é composta de mulheres: 54% frente a 44% dos homens. Jovens também estão consumindo menos produtos animais: 52% versus 43% de pessoas na faixa etária mais velha. A região que lidera o movimento é o Nordeste, com 53%.

Segundo Raquel Casselli, gerente de engajamento corporativo do GFI Brasil, a preocupação com a saúde é o que tem levado as pessoas a se tornarem flexitarianas, mais ainda do que vegetarianas e veganas. Dados da pesquisa mostram que apenas 1% parou totalmente de comer carne animal no último ano.

“De maneira geral a gente vê que o público jovem é menos apegado às tradições e bastante aberto a experimentar, repensar suas escolhas e influenciar a família”, ressalta Raquel. 

Especialista do mercado plant based e sócio da AGN Consultoria e Negócios, Alberto Gonçalves Neto destaca ainda que a geração de millennials tem contribuído para aumentar as estatísticas. “Eles também se preocupam com a origem do alimento e com o quanto ele está impactando o ambiente e o mundo.”

Entre os produtos, é mais comum encontrar proteína à base de soja e de ervilha, mas, como ressalta Raquel, há outras fontes vegetais disputando espaço no mercado. Além disso, diz, crescem opções além da “carne bovina”, como suínos e frutos do mar vegetais. Confira mais abaixo.

Três perguntas para Raquel Casselli

Quais são as tendências para o mercado de carnes vegetais?

Temos visto uma variedade de produtos, como hambúrgueres, salsichas, linguiças, nuggets, desfiados, que ficarão cada vez mais comuns. Embora a proteína de soja e de ervilha sejam as mais comuns, já se nota um interesse pela diversidade de fontes de proteína como feijão, grão-de-bico e fava. 

Uma das grandes apostas do mercado é conseguir fazer cortes de carnes, como bifes, para o dia-a-dia. Outra tendência é uma diversidade maior de produtos análogos a todos os tipos de origem animal, não só bovinos, como também aves, suínos, pescados e frutos do mar, para conseguir levar diversidade à mesa. 

Hoje, por exemplo, já se tem a bacalhoada vegetal para a Páscoa. A ideia é conseguir ter produtos para todos os momentos de consumo dos brasileiros.

E quais os maiores desafios do setor?

A indústria vem trabalhando de uma maneira bastante dedicada para alcançar preços cada vez mais acessíveis e tem feito avanços interessantes. O segundo fator é a maior utilização de ingredientes nacionais na confecção dos produtos. 

Hoje, boa parte é feita a partir da soja nacional, mas a proteína de ervilha, por exemplo, uma das mais utilizadas, ainda é importada, bem como alguns aditivos, como corantes e aromatizantes, o que encarece o custo. Vai iniciar um desenvolvimento forte de ingredientes nacionais, não só para aproveitar a biodiversidade brasileira, mas também como possibilidade de exportação.

A ideia é conseguir novos sabores e texturas e ter preços mais competitivos. Outro desafio é incluir o produtor rural, que é a força do agronegócio, nessa cadeia, incentivando-o a produzir os ingredientes nacionais em propriedades diversificadas, aumentando a sua fonte de renda. 

Nem todo produto de origem vegetal é necessariamente saudável. Como ter esse equilíbrio?

É como encontramos na categoria de origem animal. Há produtos mais saudáveis e outros mais indulgentes. Cabe ao consumidor entender o que é importante para ele no momento da compra e escolher. 

O mercado plant based tem uma diversidade interessante com opções para todos os gostos. Há produtos com menos gordura, por exemplo, e uma série de outros que são mais indulgentes, exatamente como no mercado de proteína animal. É a mesma lógica.

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