Rafael Arbex/Estadão-14/12/2017
Rafael Arbex/Estadão-14/12/2017

Falta embalagem, só não falta cerveja: microcervejarias enfrentam lado crítico da crise

Marcas de cervejas sofrem com falta de garrafa, lata, tampa e até rótulo; pequenas fábricas, que não são prioridade para fornecedores, enfrentam pagamento antecipado e entrega atrasada

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2020 | 05h02

A crise das embalagens se torna a mais nova consequência da pandemia que atinge os empreendedores e contribui para tornar ainda mais desafiador o ano de 2020. No setor de bebidas, se para uma gigante como a Heineken faltam garrafas de vidro, imagine para as microcervejarias. Além de garrafa, faltam lata, growler de plástico, caixas de papelão e até malte, matéria-prima essencial para a fabricação de cerveja. Há também atrasos na entrega de rótulos, devido à escassez de PVC.

“Há algum tempo a gente tem sofrido com a falta das garrafas. Só que este ano foi agravado pela pandemia, porque as fábricas de garrafas normalmente começam a produzir no segundo trimestre para estocar para o segundo semestre. Porém, essas fábricas pararam e não constituíram estoque de segurança para o final do ano”, explica Marcelo Paixão, presidente do conselho da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) e fundador da cervejaria mineira Verace.

Segundo ele, os dois pontos principais dessa falta são: o aumento de demanda com as cervejarias querendo comprar latas e garrafas ao mesmo tempo, após um período paradas, e a falta de matéria-prima, que atinge vários setores do País de forma geral.

Gilberto Tarantino, fundador da cervejaria paulistana Tarantino, descreve o cenário como “um terror”. “A gente está sofrendo com esse problema faz tempo. Falta de lata, falta de papelão, atraso no fornecimento de rótulos e no de growler de plástico, porque a tampa é feita com um produto que está em falta”, diz.

Ele conta que foi informado por um fornecedor de lata que agora o pedido deve ser feito com 60 dias de antecedência, com pagamento de parte do valor adiantado. “Geralmente, a gente pedia lata e depois de uma semana chegava. Está um terror, uma bagunça.”

A StartUp Brewing, em Itupeva (SP), também sofre com a falta de latas. O sócio-fundador André Franken conta que eles investiram R$ 500 mil em uma grande compra do item para não paralisarem a fábrica, que é também responsável pela produção de microcervejarias ciganas (com terceirização de serviço).

“Com os fornecedores de lata não tem conversa. Como é commodity, é pagamento à vista e adiantado”, diz ele, segundo quem o mercado vive uma corrida contra o tempo. “Às vezes aparecem alguns pallets de lata, o fornecedor avisa e, se demorarmos mais de algumas horas para comprar, ficamos sem.”

O empreendedor ressalta que essa é mais uma consequência da pandemia que atrapalha a sobrevivência dos negócios do setor. “Nós saímos de um faturamento quase zero nos primeiros três meses da pandemia, para recordes de produção e faturamento a partir de julho. Porém, em outubro, começamos a ser freados pelos aumentos (de preço) e falta de matéria-prima.”

Um efeito cascata - é assim que a crise é definida por Luíza Tolosa, criadora da cervejaria Dádiva, de Várzea Paulista (SP). “Começou com garrafa lá por agosto. Depois veio a falta de lata, papelão, rótulo e, no meio disso tudo, alguns tipos de maltes também acabaram.” Luíza conta que seu principal fornecedor de latas chegou a parar as máquinas num período da pandemia e que, quando a produção voltou, não conseguiu atender toda a demanda.

Além de um problema com caixas de papelão, agora uma nova questão, diz ela: “Um fornecedor de latas descontinuou um modelo que usamos muito, a de 310 ml, o que dificultou bastante a nossa vida.”

Também com uma relação próxima com os fornecedores, Aloisio Xerfan, dono da Blondine, em Itupeva (SP), diz que conseguiu passar pela crise sem muitos contratempos. “A Blondine felizmente não está com esse problema em nenhum item (dos citados acima), apenas com as garrafas importadas da França para a linha Blondine Sparkling e Sparkling Rose. O fornecedor subiu muito o preço e decidimos tirar a cerveja do mercado.”

A linha Sparkling representa 5% do faturamento total da cervejaria. “O que fizemos foi suspender as vendas e desenvolver uma outra garrafa de fabricação nacional, com outro fornecedor, para relançarmos no ano que vem. Porém, perdemos a principal época de vendas dessa linha, que é o final do ano.”

Aumento dos preços para o cliente final

“Uma caixa de papelão que custava entre R$ 1,70 e R$ 1,80 passou a custar R$ 6,40. Esse é o nível de aumento que estamos tendo”, conta Marcelo Paixão, da Abracerva. “O valor do rótulo mais do que dobrou, o malte também subiu de 40% a 50%. Está realmente um desastre.”

Em um cenário em que há fábricas paradas, com bebida pronta, mas sem embalagens para envasá-las, segundo Marcelo, quem tem mais recursos sai na frente. “Tem cervejarias que estão encontrando (latas e garrafas) pagando mais caro ou achando outras soluções. Sei de cervejarias que trouxeram carregamentos de garrafas do Nordeste para Minas Gerais. É lógico que isso não custou barato”, conta.

Marcelo diz que a Abracerva está em contato com a Associação Brasileira de Produtores de Lata de Alumínio para Bebidas (Abralatas) e Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro) para tentar achar uma maneira de encaixar as microcervejarias na fila de espera pelas embalagens. Hoje no País há 1.209 microcervejarias, segundo o Anuário da Cerveja 2019 do Ministério da Agricultura (Mapa).

“A gente entende que a responsabilidade também não é deles, eles estão sofrendo o efeito de uma pandemia. Mas a gente está tentando negociar para ver se eles conseguem dar uma atenção especial para as microcervejarias. O dono de uma fábrica de latas quer vender obviamente para uma gigante, que compra muito mais volume”, diz.

Ele também entende que essa situação não se resolverá de forma rápida. “Talvez não se resolva nem no primeiro semestre de 2021”, finaliza Marcelo.

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