Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Crise da embalagem faz negócios reverem seus pedidos com antecedência

Alta de e-commerce e delivery de comida demanda mais embalagens, que faltam no mercado; pequenos fornecedores sofrem, ainda, inadimplência de restaurantes fechados na quarentena

Igor Giannasi, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2020 | 17h15

Especial para o Estado

Se a escassez de insumos em vários segmentos nos últimos tempos já teve sérios reflexos na produção econômica do País, as pequenas e médias empresas não escaparam de ter seus negócios afetados durante esse período de pandemia do coronavírus. E a alta demanda por embalagens para atender especialmente ao comércio eletrônico e ao delivery de comida também teve seus efeitos entre esses pequenos empreendedores.

Alertado em setembro por seus fornecedores sobre uma possível falta de embalagens de papel no mercado, o sócio da hamburgueria Sliders, Bruno Jacob Perina, imediatamente providenciou um pedido do material que utiliza tanto no serviço de delivery quanto no restaurante.

O que em tempos normais levaria dez dias para ser reposto pelo fabricante, nesse período a espera chegou a dois meses. Foi esse planejamento com antecedência que garantiu que parte do pedido fosse entregue na semana passada, sem prejudicar o atendimento aos clientes. “Se eu não tivesse feito meu pedido dois meses atrás, quando eu ainda não precisava de embalagem, hoje eu estaria sem”, afirma Perina.

A loja virtual de produtos esotéricos Selenita Cristais funcionou a maior parte de seu quase um ano de existência – que se completa em dezembro – no meio de uma pandemia. “Por conta do isolamento social, as pessoas passaram a comprar mais no e-commerce. Então, eu tive uma boa demanda principalmente nos meses de agosto, setembro e outubro. Eu vendi uma quantidade grande para uma empresa que está iniciando”, diz a dona do empreendimento, Tamires Andrade Batista.

Entretanto, quando seu estoque de embalagens teve de ser renovado, Tamires encontrou dificuldades já que, pelo tamanho de seu negócio, não necessitava de muito material. “Alguns fornecedores estavam dando preferência para empresas que estavam comprando em alta quantidade e os menorzinhos ficavam meio de fora”, conta. A saída foi adquirir uma quantidade de caixas maior do que precisava, negociando o parcelamento da compra.

Essa negociação com fornecedores é uma opção para os pequenos e médios empreendedores enfrentarem esse momento, sugere o consultor e professor do Insper David Kallás. “No médio prazo, pelo menos até o meio do ano que vem, eu acho muito pouco provável que a situação esteja normalizada”, avalia.

Já a consultora do Sebrae-SP Leidiane Lima de Oliveira recomenda ainda a busca por outras opções no mercado, além de rever processos para reduzir custos com as embalagens. Para ela, a conversa sobre a nova situação deve ser feita também com os seus consumidores.

Foi o que fez o sócio da feira online Feiríssima Felipe Araki. Uma carta vai junto com o produto explicando a mudança da caixa de papelão por um modelo mais simples. A adaptação ocorreu já que, de um mês para cá, relata Araki, houve um aumento de cerca de 80% do valor que pagava aos fornecedores pelas embalagens. “É o tipo da coisa que a gente não consegue repassar para o cliente.”

A adaptação dos fornecedores

Do lado de lá da cadeia produtiva, os fabricantes de embalagens também apontam momentos difíceis para o setor durante os meses de quarentena. Segundo a Associação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO), no primeiro semestre de 2020, foram produzidas quase 1,8 tonelada de embalagens no País, o que corresponde a um crescimento de 2,1% em relação ao mesmo período do ano passado. Porém, após um crescimento de 7,5% no primeiro trimestre ante o mesmo período de 2019, o segundo trimestre teve um recuo, com acentuada queda de 12,5% em maio.

“A gente começou a viver um momento delicado, onde a princípio a questão era aumento de preço, reajustes e tudo, e que depois se transformou realmente numa falta de matéria-prima, onde os fabricantes acabaram impondo cotas a nós, transformadores”, comenta o diretor da indústria de embalagens Mazurky, Eduardo Mazurkyewistz.

Para o empresário Thiago Garrido, sócio da fabricante de embalagens FoodBox, que atende principalmente o mercado de entrega de comida, “os pequenos sofreram um pouco mais” nesse período. “Então, eles tiveram que buscar uma alternativa para o delivery mais rápido do que os grandes”, observa Garrido.

Com aproximadamente 90% de sua clientela no segmento de restaurantes de pequeno e médio portes, o CEO da Scuadra Embalagens, Luiz Silveira, diz que teve uma inadimplência “gigante” e registrou um prejuízo de R$ 200 mil devido às consequências da crise surgida na quarentena. De acordo com ele, 40% de seus clientes renegociaram suas dívidas. “Foi uma maneira que encontramos, dentro do possível, de também ajudá-los porque a gente depende deles.”

Os três fabricantes, entretanto, apontam que a situação já está melhorando e voltando à normalidade, análise que é corroborada pela ABPO. “Em setembro de 2020, a expedição de caixas, acessórios e chapas de papelão ondulado teve aumento de 15,4% em relação a 2019, com novo registro de recorde mensal. Em outubro, (houve) novo recorde de expedição de embalagens com 8% de crescimento, em relação ao ano anterior”, afirma a presidente da entidade, Gabriella Michelucci.  

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