Autorretrato
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Escolas de inglês evidenciam lado social ao mirar comunidades periféricas

Negócios de idiomas atendem classes mais baixas e regiões distantes de centros urbanos; projeto de brasileiros nos EUA contrata senhoras desempregadas para dar aula

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

01 de maio de 2022 | 05h00

O Brasil apareceu em 60° lugar no ranking de proficiência em inglês de 2021, realizado pela EF Education First, que contemplou 122 países. Recuou sete posições em relação a 2020, ficando atrás de nações como Argentina (30°) e Chile (47°). Apesar de um levantamento do British Council ter apontado em 2019 que apenas 5% dos brasileiros sabem se comunicar em inglês, 40,2% querem aprender a língua, de acordo com pesquisa feita no ano passado pela 7Waves.

Cientes desse enorme déficit e da vontade de aprendizado, negócios de educação de impacto social têm feito um trabalho de ponta a ponta para democratizar o ensino do inglês, principalmente entre as classes C, D e E. Têm feito isso com um diferencial importante - contratando professores nativos, entre imigrantes e refugiados residentes no Brasil.

É o caso da startup 4YOU2, fundada pelo economista Gustavo Fuga em seu primeiro ano de faculdade. Ele conta que havia se mudado para São Paulo aos 18 anos, após ingressar no curso de economia da USP, e percebeu que era um dos poucos alunos de origem mais humilde e que não falavam inglês. Após se envolver com uma ONG em que havia muitos estrangeiros, passou a dividir a casa com alguns deles e acabou aprendendo o idioma na base da conversação.

Foi então que o jovem empreendedor teve a ideia de criar a escola, cuja primeira unidade nasceu no Capão Redondo, bairro periférico da zona sul paulistana. Com o projeto, Fuga tinha o propósito de democratizar o inglês seguindo uma receita de três ingredientes: preço acessível (no máximo 10% de um salário mínimo, ou 30% abaixo da média do mercado); localização (hoje, as 10 unidades próprias da 4YOU2 ficam em bairros periféricos de São Paulo, como Campo Limpo e Jardim Ângela, ou de fácil acesso, como Ipiranga e Tatuapé); e metodologia.

“Não existia uma metodologia para o nosso público, que tem déficits educacionais grandes e não gosta de escola porque teve uma péssima experiência com educação”, ele afirma. A solução foi desenvolver um modelo próprio, que se baseia na conversação presencial, enquanto os exercícios são feitos no aplicativo 4YOU2 Study, tornando o processo mais dinâmico.

Simulação de intercâmbio

O segundo passo foi criar um corpo de professores estrangeiros para que a experiência dos alunos na escola fosse uma espécie de simulação de intercâmbio. “Como é caro levar a molecada da periferia para fora, resolvemos trazer os gringos para cá”, conta. “Assim como eu, tem várias pessoas que preferem buscar propósito em vez de só dinheiro. Então, a gente criou uma proposta de valor e um programa que agrega remuneração para subsistência, mas o mais importante é a experiência. A gente busca no aeroporto, oferece hospedagem, treina e ajuda o professor a criar contato com a sociedade.”

Formados em diversas áreas, são pessoas que têm em torno dos 30 anos, em sua maioria, e vêm de diferentes cantos do mundo. “Diversidade é nosso core. É um caldeirão étnico”, diz o empreendedor, que vê nisso uma questão fundamental para o aprendizado. “Para ser cidadão global precisa ter contato com sotaques variados, não pode só entender o inglês britânico ou americano. Tem que entender o inglês indiano, africano, australiano”, explica.

O modelo de franquia da rede, atualmente com unidades espalhadas em cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraíba, Maranhão e Rio Grande do Sul, também foi pensado de forma inclusiva. “Criamos uma franquia de impacto para que o próprio morador do bairro possa ser esse empreendedor”, afirma Fuga, revelando que o investimento total gira em torno de R$ 130 a R$ 150 mil e a unidade opera após 60 dias.

Para escolher os novos franqueados, a 4YOU2 abre um processo seletivo que costuma ter lista de espera. “A ideia é pensar no que mais a gente pode fazer pela sociedade usando o privilégio que a gente teve. A ambição tem que ser coletiva, todo mundo tem que crescer junto.” E o crescimento, de fato, tem se concretizado. A rede aumentou 40% entre 2020 e 2021 e a projeção para 2022 é de crescer mais 109%.

Professores em comunidades ribeirinhas

Outra empresa que aposta em metodologia imersiva com professores gringos para democratizar o acesso ao aprendizado é a Minds Idiomas, que possui 70 unidades em todo o Brasil. Com 15 anos de estrada, a rede carrega o marco de ter chegado não só a bairros periféricos, mas a comunidades ribeirinhas como Barcarena, que fica a 15 quilômetros da capital paraense, e Bacabal, a 240 quilômetros da capital do Maranhão.

“Ajudar o País a não deixar os mais necessitados e marginalizados para trás é também uma responsabilidade do setor privado”, defende Renato Garcia, diretor publicitário da rede. “A educação é uma base importantíssima para nossa sociedade e a ascensão dela. No caso do inglês, os salários são maiores para aqueles que dominam o idioma. Se quem domina o idioma é da classe mais alta e é branco, as pessoas em classes menos favorecidas continuarão com os salários mais baixos.”

Com três modelos de franquia, que custam entre R$ 139 mil e R$ 259 mil, a marca também ampliou a contratação de imigrantes em seu corpo docente para mais de 60%. Segundo o executivo, nas vagas divulgadas é pré-requisito que os professores sejam de outra nacionalidade ou brasileiros que possuem vivência no exterior. 

“Professores imigrantes conseguem, além do contexto pedagógico de dar o conteúdo da aula, compartilhar com os alunos suas experiências, culturas de outros países e outras curiosidades.”

De moradoras de rua a professoras de inglês

Quando se mudou para Nova York em 2016, o empresário Tiago Noel, fundador da plataforma de idiomas KeepUp, conta que se deparou com uma realidade inesperada - o grande número de pessoas em situação de rua em um país tão rico como os Estados Unidos. Com tempo livre e um colchão financeiro graças a um negócio que tinha montado por aqui, ele se inscreveu em um curso de inglês porque não falava bem a língua e decidiu se dedicar a projetos sociais, como já fazia no Brasil. 

Foi assim que, a convite de um amigo brasileiro, começou a cozinhar em um abrigo para sem-teto. “Passei a criar conexão com aquelas pessoas. Nesse processo de fazer amizade, comecei a falar inglês e percebi que o meu relacionamento com eles fazia com que eu evoluísse muito mais do que no meu relacionamento com o professor”, diz. Outra percepção do empreendedor foi de que as mulheres nesses abrigos estavam ali, em sua maioria, por culpa de homens abusivos que passaram na vida delas. “Com essas mulheres eu aprendi muito mais do que com qualquer professor americano.”

Foi nesse momento que veio o insight de montar uma empresa em que essas mulheres dariam aulas de inglês para brasileiros. Ao lado de dois amigos imigrantes que também participavam da ação nos abrigos, ele criou a Soulphia, com o conceito de “ensino de um novo idioma através da alma”. 

Sem saber muito como fazer negócios naquele país, eles foram atrás de consultoria. A Columbia University ajudou com as primeiras conexões e toda a estrutura lógica do projeto; a Educurious cedeu o time e materiais para treinar as mulheres com equipamentos técnicos que as tornariam professoras. E foi em uma pequena igreja do Bronx, que cedeu uma sala para o projeto, que as aulas começaram. 

O primeiro aluno foi um médico, diretor do hospital Beneficência Portuguesa. A professora, uma senhora chamada Irma de quase 80 anos que nunca tinha tido um trabalho formal na vida, ficou nervosa ao ver um médico importante em uma sala arrumadíssima pela câmera do computador. 

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“Mas aí ela fez uma pergunta super simples e ele não conseguiu entender. Então ela perguntou só qual era o nome dele e rodou-se uma aula de 45 minutos”, relata Noel. “No final, ela e as outras que estavam assistindo à estreia descobriram uma coisa que tem valor inestimável, que é falar inglês. Mesmo um executivo rico no Brasil está em busca do que elas têm. A sensação de falta de sentido na vida muda completamente.”

Ao longo dos últimos quatro anos, a Soulphia treinou 150 mulheres, das quais 60 já conseguiram inclusive comprar suas próprias casas, tendo as aulas como fonte de renda. Hoje o projeto se tornou o braço de conversação da plataforma KeepUp, uma espécie de holding de idiomas criada há seis meses pelo trio de sócios que cobra R$ 1 por dia dos alunos, em inscrições mensais ou anuais, dando acesso a mais de 15 mil conteúdos de inglês, francês, espanhol, chinês e alemão. 

A plataforma também oferece pacotes de conversação individuais ou em grupo com as professoras da Soulphia e pretende expandir o formato, começando pelo espanhol, que terá refugiados venezuelanos como professores. O empreendedor conta que hoje a KeepUp já soma mais de 6 mil alunos - e segue crescendo todos os meses.

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