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Plataforma para refugiados empreendedores soma mais de 90 negócios no País

Desafio de ferramenta lançada neste ano pela Acnur é chegar a refugiados fora das capitais; programa de microcrédito distribui R$ 193 mil em empréstimos

Giordanna Neves, Especial para o Estadão

06 de dezembro de 2021 | 05h01

A venezuelana Nairóbi Mastrangelo, de 44 anos, nunca imaginou viver longe dos seus três filhos. Mas, após ser vítima de perseguição por parte do seu ex-marido, os planos mudaram. Em 2017, ela fugiu para a Argentina em busca de segurança. A dificuldade em se estabelecer legalmente no País a trouxe para o Brasil, e empreender no ramo culinário foi o primeiro passo para construir um novo futuro.

Nairóbi foi para Juiz de Fora (MG) apenas com a filha mais nova, Paula, de 9 anos, em março de 2020, dias antes do fechamento de fronteiras do Brasil com países vizinhos em decorrência da pandemia do coronavírus. Formada como chef especialista em arte culinária, hoje ela conta com o apoio da plataforma digital Refugiados Empreendedores, desenvolvida pela Agência da ONU para Refugiados (Acnur) em parceria com a Rede Brasil do Pacto Global, para iniciar seu próprio empreendimento.

Lançada há nove meses como ferramenta de suporte diante da atual crise sanitária e econômica, a plataforma digital propõe dar maior visibilidade aos negócios de refugiados, além de reunir informações sobre cursos, mentorias e fornecer oportunidades de acesso ao microcrédito. No site é possível conhecer a trajetória dos empreendedores e adquirir seus produtos e serviços.

De acordo com o oficial de meios de vida da Acnur Paulo Sérgio de Almeida, responsável pela plataforma, o site atrai mensalmente novos refugiados. “Ficou muito claro que a principal dificuldade para essas pessoas que chegam, que têm esse perfil empreendedor e querem começar um negócio é a falta de visibilidade, porque elas não têm conexões sociais”, explica.

Até agora, a plataforma, que surgiu com 30 negócios, já chega a 96, sendo mais de 60% liderados por venezuelanos e mais de 70% comandados por mulheres ou casais e grupos. O segmento predominante é a gastronomia, mas há moda, cosméticos e beleza, artesanato, estética, idiomas, marcenaria, paisagismo, comunicação e pets.

Para inscrever negócios, sejam formais ou informais, as pessoas devem estar em situação de refúgio, serem solicitantes de refúgio ou, no caso de venezuelanos, ter status de residente temporário. O refugiado precisa preencher um formulário no site (clique aqui) e a equipe responsável entra em contato para registrá-lo.

Os beneficiados pelo programa estão espalhados por diferentes regiões do País, especialmente nas capitais. O desafio da plataforma é, atualmente, captar os refugiados que vivem em cidades do interior. “É uma dificuldade conseguir disseminar a plataforma para que pessoas espalhadas possam se inscrever. É importante fazer uma comunicação mais intensa para que outras pessoas possam conhecê-la, e não só refugiados”, afirma Paulo Sérgio.

Nairóbi conheceu a iniciativa por indicações de amigos. Na época, ela trabalhava informalmente em um restaurante em Juiz de Fora, mas o salário era insuficiente diante do sonho de rever a família. Assim, na plataforma ela abriu o restaurante próprio, chamado Quitutes Latinos.

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A proposta do empreendimento é oferecer ao cliente um kit degustação com entrada, prato principal e sobremesa, em caixas personalizadas. Com toques latinos, ela sempre busca trazer pratos típicos e diversificar os sabores das refeições, que são elaboradas na cozinha de sua casa.

“Eu tive acesso a mentorias incríveis, estratégias de vendas e de modelos de negócio para conseguir alavancar o empreendimento. O caminho não é fácil, tem que ter vontade, disciplina e trabalhar duro, mas a minha motivação é trazer os meus filhos para cá e isso me dá um impulso”, conta Nairóbi, que não encontra o seu filho Marcos, de 21 anos, há quatro anos e sua filha Kenya, de 23 anos, há mais de um ano. Eles estão, respectivamente, na Venezuela e na Argentina. 

Acesso a crédito

Além da força de vontade e da coragem para empreender, o acesso a recursos financeiros é imprescindível para quem deseja abrir um negócio. Pensando nisso, a Acnur, ao lado do Crédito Pérola e o Grupo Iosan, criou o programa CrediTodos, uma linha de microcrédito para financiar negócios de empreendedores refugiadas e migrantes.

A iniciativa, lançada há 10 meses, já apoiou 78 negócios com mais de R$ 193 mil em empréstimos. Dentre as pessoas que já preencheram o formulário para obter o benefício, 98% nasceram na Venezuela e trabalham no Brasil com produção e comércio de alimentos.

De acordo com a supervisora do fundo patrimonial e responsável pela comunicação do Crédito Pérola, Andrea Federmann, o fato de os refugiados não terem histórico financeiro, movimentação de contas e garantias dificulta a solidificação dos negócios no País. “Isso sem falar na barreira linguística e cultural. Se o brasileiro já tem dificuldade, imagina quem chegou há pouco tempo”, complementa.

A venezuelana Maria Gabriela Blanco, de 28 anos, é uma das clientes: recebeu empréstimo de R$ 2 mil a ser pago em oito parcelas de R$ 312. Com isso, ela conseguiu comprar insumos e investir em equipamentos, além de formalizar a sua empresa de brownies. Depois de uma queda nas vendas na pandemia, o dinheiro foi importante para reestruturar o empreendimento. “A solicitação e o trâmite foram bem rápidos”, diz ela, que está no Brasil desde 2017.

Mas a realidade da Maria Gabriela não é unânime. As mulheres, apesar de serem maioria ao iniciarem o preenchimento do cadastro, são as que menos prosseguem com a tentativa de obtenção de crédito. Segundo Andrea, há a percepção de que esse grupo enfrenta uma falta de confiança para lidar com crédito, além da dificuldade para completar o formulário virtual, principalmente na hora de transferir os documentos. 

Para o futuro, a ideia é que o programa ganhe ainda mais força e amplie suas fronteiras. “Graças à capilarização proporcionada pela Acnur e à credibilidade deles, conseguimos alcançar centenas de pessoas e ainda temos espaço para muito mais. Mas, como utilizamos capital próprio, seria necessário ter parceiros financeiros com apetite para criarmos um colchão de segurança para empreendedores com esse nível de vulnerabilidade”, avalia.

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