Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Negócio de impacto em centro urbano tem 37 vezes o capital de quem está na periferia

Empreendedor social de bairro periférico começa com R$ 19 mil, enquanto seus pares de outras regiões da cidade têm R$ 712 mil, diz pesquisa da FGV com a Fundação Arymax

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2021 | 05h00

As desigualdades sociais vistas entre pessoas que moram dentro e fora das periferias do Brasil se refletem nos negócios de impacto social que nascem nessas regiões. Pesquisa inédita da Fundação Getúlio Vargas com o apoio da Fundação Arymax mostra que o capital inicial de empreendedores sociais que estão fora da periferia é 37 vezes o montante daqueles que iniciam o empreendimento às margens dos centros urbanos.

Essa diferença é mais marcante quando se observam os valores: em média, são R$ 19 mil para se começar um negócio de impacto social na periferia e R$ 712 mil para fazê-lo fora dela, somados os recursos em dinheiro e materiais, como computadores e maquinário. O baixo recurso inicial tem impacto no longo prazo e, ao afetar a empresa, tem repercussão nos resultados que ela busca alcançar. Outro dado financeiro relevante é que as receitas dos negócios de fora da periferia são, em média, 21 vezes maiores: R$ 3 milhões ante R$ 146,9 mil de quem está nas comunidades periféricas, considerando 2020 como ano-base.

“Quando o capital é muito menor, existe uma dificuldade maior de se investir em tecnologia e há uma maior aversão a risco. Isso faz com que essas empresas fiquem menores, não escalando tanto nem impactando tanto”, analisa Edgard Barki, coordenador da pesquisa e do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV (FGVCenn). Segundo ele, essas diferenças que têm como base o território continuam depois de cinco anos.

Isso se reflete na percepção dos empreendedores sobre o próprio negócio. Ao se eliminar as diferenças territoriais, 63% deles dizem estar satisfeitos com seu trabalho, principalmente os homens - entendimento que cai entre pessoas negras (48%) e da periferia (44%).

O estudo faz parte da rede internacional de pesquisa Seforïs, que reúne universidades de nove países para entender o perfil dos empreendedores sociais e os modelos de negócio. No Brasil, os pesquisadores acrescentaram a visão da diferença territorial e entrevistaram 101 empreendedores sociais, dentro e fora das periferias, que atuam há cerca de seis anos.

Alguns achados coincidem com pesquisas anteriores, como o fato de a maioria dos empreendedores sociais da periferia ser mulher (70%) e negra (87,5%). Fora desses espaços, há mais equilíbrio de gênero (52% são homens) e predominam pessoas brancas (91%), cuja remuneração líquida mensal fica acima de R$ 6.270 para 59% deles. Já para 60% dos negócios periféricos, a remuneração líquida mensal é de até R$ 2.090.

De acordo com a pesquisa, a maior parte dos empreendedores sociais acredita que o acesso ao capital é um desafio relevante para a organização, sendo mais forte na periferia. Numa escala de 1 a 7, em que 1 é totalmente insatisfatório, a pontuação entre os empreendedores da periferia quanto a obter recursos financeiros é de 2,59. Fora dali, a satisfação fica em 4,27.

Exemplo de apoio na comunidade

Muitas vezes, para manter a empresa funcionando, os empreendedores contam com serviços locais. Num caso que destoa da pesquisa, mas exemplifica um ciclo virtuoso de compartilhamento, a Emperifa, que dá ferramentas para a gestão de outros negócios periféricos, teve acesso a capital por meio da Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), criada por Marcelo Rocha, o DJ Bola, no extremo sul da capital paulista.

“A gente conseguiu entrar no Lab NIP e, ao entrar, a gente conseguiu acessar o financiamento do Banco Pérola, dinheiro que potencializou as ações da Emperifa. Ter esse acesso foi incrível, conseguimos fazer investimento, arcar com pagamento e os resultados foram legais”, diz João Guedes, sócio-fundador da Emperifa, originária da zona leste de São Paulo.

O empreendedor conta que a pandemia foi cheia de desafios, mas preferiu olhar para as oportunidades. Ele estreitou conversa com institutos e fundações que poderiam ser parceiras do negócio, digitalizou programas em parceria com a Prefeitura que antes eram presenciais e conseguiu avançar com o próprio empreendimento mesmo na crise.

Equilibrar impacto social e finanças é desafio

Aliar o impacto social com a sustentabilidade financeira é um dos principais desafios apontados na pesquisa para fazer o empreendimento crescer. Entre os entrevistados, 56% dizem ter dificuldades em gerir o crescimento interno, como adaptar as estruturas de gestão e encontrar novos colaboradores. Garantir crescimento de recursos financeiros é indicado por 42%, enquanto determinar o modelo mais eficaz para aumentar o impacto social é desafiador para 36%.

Vivianne Naigeborin, superintendente da Fundação Arymax e uma das pioneiras na construção de negócios de impacto no País, avalia que esse campo do empreendedorismo evoluiu muito nos últimos anos e celebra as conquistas da periferia. “O número de empreendimentos cresce, existe hoje a compreensão de que os negócios não têm de vir do centro para a periferia e que a periferia tem de ser protagonista da sua solução”, comenta. Porém, há gargalos. “O que se precisa resolver é a infraestrutura de apoio ao empreendedorismo da periferia, no acesso a crédito, na venda ao mercado e no reconhecimento da importância desses empreendimentos.”

Algumas soluções, diz ela, são oferecer meios para melhorar a gestão financeira do negócio, separando as contas de pessoa jurídica da pessoa física; permitir acesso a crédito que leve em consideração a realidade dos empreendedores, sugerindo crescimento sustentável; e construir acesso a novos mercados, para que os produtos ultrapassem as fronteiras regionais.

Para isso, diferentes formas de apoio são necessárias, além das já existentes, como as oferecidas por Arymax, Anip e Artemisia, por exemplo. A pesquisa mostra que há uma percepção geral de falta de apoio aos negócios de impacto, como de governos, autoridades locais, da comunidade empresarial ou dos bancos.

“Muitos negócios trabalham nas áreas de saúde, educação e habitação, e o governo pode comprar esses serviços. Quando fala-se de apoio, há várias formas que são relevantes para os negócios, ainda mais os que tentam resolver problemas sociais que governos ainda não conseguem”, pontua Edgard Barki.

João Guedes conta que, no início, o contato com A Banca foi o que permitiu encarar a Emperifa como empresa. Após definir o modelo de negócio, ele entendeu que poderia oferecer serviços tanto para pessoas físicas (B2C) quanto jurídicas (B2B) e passou a estudar as necessidades do mercado para entender quais soluções oferecer em forma de parceria.

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O empreendedor faz parte daqueles que, segundo a pesquisa da FGV e Arymax, consideram que o principal motivo para a realização de parcerias é possibilitar o acesso a recursos, seja financeiro, humano, de contatos ou informação. Essas conexões, ele diz, mais do que estratégicas, são humanas e fazem a roda girar.

“As empresas sabem que, para as pessoas continuarem consumindo seus produtos e serviços, têm de se conectar com elas. É aí que entra nosso trabalho, contribuir para que empresas estejam mais próximas da causa e do propósito. Se elas querem e precisam, por que não criar soluções juntos a partir desses olhares que se complementam?”, provoca Guedes.

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