Dida Sampaio/Estadão
As fronteiras agrícolas estão se esgotando, segundo Luismar Porto, engenheiro químico e professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Dida Sampaio/Estadão

Demanda por alimento e sustentabilidade puxam setor de carne cultivada

Tecnologia cara, mas disruptiva, deve alcançar preços competitivos com maior escala; carne de laboratório minimiza impactos de desmatamento e doenças infecciosas

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

A carne cultivada, também chamada de artificial, sintética ou ‘limpa’, surge no mercado como mais uma fonte de proteína para o consumidor, assim como as alternativas vegetais (plant based), frente a uma demanda por comida cada vez maior no mundo.

Até 2050, será necessário aumentar a produção de alimentos em 50%, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Isso porque, nos próximos anos, a população aumentará em cerca de 30%, para quase 10 bilhões de pessoas, sendo que a maior parte viverá em áreas urbanas com níveis de renda maiores do que os atuais. 

“Não há possibilidade de produzir proteína da forma convencional para alimentar a população crescente nas próximas décadas. As fronteiras agrícolas estão se esgotando. Já estamos desmatando onde não deveríamos”, destaca Luismar Porto, engenheiro químico e professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

À necessidade de preservação do ambiente soma-se ainda uma maior preocupação com as saúdes humana e animal e com as doenças infecciosas, como as gripes suína e aviária.

“Tudo isso contribui para que a indústria comece a buscar novas soluções para produzir comida. A ideia não é fazer carne para um vegetariano ou vegano e, sim, desenvolver uma tecnologia que vai permitir alimentar a população do futuro de maneira sustentável”, explica Gustavo Guadagnini, diretor executivo do The Good Food Institute (GFI) no Brasil. 

Embora a tecnologia da carne cultivada seja recente, e grande parte das empresas ainda estejam em nível laboratorial ou começando a fazer demonstrações, já há projeções que mostram seus benefícios, o que explica o interesse da indústria e da academia.

“Leva-se em média dois anos para se criar um boi para o abate. Já a carne cultivada é possível obtê-la em cerca de três semanas, dependendo da tecnologia. Em tese, uma única célula-tronco pode ser utilizada por dez anos em uma produção de larga escala”, destaca o professor Luismar Porto.

Além de não requerer o uso de antibióticos e abate animal, o processo prevê menos uso da terra, de 63% a 95%, em comparação com a carne convencional, não só para a criação do gado, como também para a produção de ração. As informações constam de estudo encomendado pelo GFI e pela organização Gaia divulgado em fevereiro, com base em dados fornecidos por 15 empresas da cadeia de abastecimento de carne cultivada.

Ainda de acordo com a pesquisa, a nova forma de produzir a proteína poderia reduzir de 51% a 78% o consumo de água azul, encontrada em reservatórios superficiais e subterrâneos. Os impactos do aquecimento global também diminuiriam em 17%, 52% e 92% em comparação à produção tradicional de frango, porco e boi, respectivamente. 

Segundo Luismar, o desafio hoje, além da regulamentação do setor, é reduzir os custos do cultivo de células. A tendência é que o preço se torne mais competitivo a longo prazo com o aperfeiçoamento da produção e ganho de escala. “Por enquanto, é uma tecnologia cara, mas disruptiva. Há infinitas possibilidades do que pode ser feito, até mesmo uma carne nutricionalmente melhor que a convencional, com menos gordura e colesterol.”

Brasil carece de investimentos no setor

Além das carnes bovinas, há estudos para a reprodução de células dos mais variados tipos de animais, como peixe, produzido pela Finless Food; camarão, pela Shiok Meats; e frango, pela Eat Just.

“Existem, inclusive, iniciativas de pesquisa com carnes exóticas, para reproduzir pratos típicos e suprir hábitos e tradições culturais. Poríamos fazer, por exemplo, a mixira de peixe-boi que é um prato proibido, porque a caça é ilegal, mas que continua sendo consumido na região amazônica”, destaca Gustavo, do GFI, que mantém parceria com o governo do Amazonas para desenvolver estudos na área. 

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Tecnologia semelhante pode ser usada também para a reprodução de leite, gelatina, ovo e outros componentes. Para se ter uma ideia, empresas internacionais captaram robustos investimentos em 2020 para a fabricação do leite materno humano.

Hoje, as iniciativas em células cultivadas estão mais concentradas nos Estados Unidos, Europa, Israel, alguns países da Ásia, como Singapura e China, além da Austrália. O maior gap está na África e na América Latina, com poucas iniciativas em andamento.

Especialistas ouvidos pelo Estadão acreditam que o Brasil tem potencial para fazer frente à concorrência, contudo, necessita ampliar o financiamento científico para acelerar as inovações e as pesquisas no campo.

“Basta observar o setor de carnes vegetais. O primeiro hambúrguer análogo foi lançado no Brasil em 2019 e nos Estados Unidos, em 2008. Saímos mais de 10 anos atrasados e, hoje, já exportamos para mais de 25 países. Vejo muito potencial para que aconteça o mesmo com as carnes cultivadas”, acredita o diretor do GFI.

Não por acaso, companhias brasileiras hoje têm investido em startups no exterior. Esse é o caso do Enfini Ventures, fundo de capital de risco voltado ao mercado de proteínas alternativas, que tem no portfólio empreendimentos de carne cultivada, entre eles, as americanas Upside Foods, BlueNalu e Mission Barns. Recentemente, participaram também da rodada de negócios da startup israelense Aleph Farms, assim como a BRF.  

De acordo com o economista e sócio da Enfini Ventures, Bruno Franco, no Brasil ainda há poucos investidores no setor. “Falta conhecimento, no mundo, inclusive, por se tratar de uma tecnologia nova, além de pesquisa para o desenvolvimento de empresas no País. Embora já existam protótipos muito bem feitos e avanços nas regulamentações, até que todos comecem a ver e provar vai existir um ceticismo grande.”

Ainda segundo o economista, o setor de carne cultivada deve enfrentar o mesmo movimento do mercado de energia, que hoje é composto por várias fontes renováveis. “Teremos um combinado de soluções proteicas para conseguir suprir a demanda alimentar no futuro”, finaliza.  

 

 

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Carne de laboratório: startups cruzam fronteira da inovação com cultivo celular

Setor de carne cultivada teve investimento recorde em 2020 e deve ocupar 35% do mercado global de carnes até 2040; Brasil entra no mapa com investimento da BRF; conheça quem provou

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h01

Prepare o seu paladar: a carne de laboratório está prestes a se tornar uma realidade no prato dos brasileiros. A tecnologia, antes imaginada apenas no desenho animado Os Jetsons, já é desenvolvida por cerca de 70 startups, em ao menos 10 países, focadas em insumos, serviços ou produtos finais, segundo levantamento do The Good Food Institute. 

Carne bovina, frango, peixe, camarão. Há empresas que trabalham com a reprodução de células dos mais variados animais, inclusive exóticos, e até mesmo leite materno humano. Engana-se quem pensa que é papo futurístico. Em 2020, ocorreu a primeira aprovação de venda comercial de carne cultivada, em Singapura, na Ásia. 

Os números também não deixam dúvidas. No ano passado, os investimentos no setor bateram recorde, totalizando US$ 360 milhões, o que é seis vezes o levantado em 2019 e 72% do valor arrecadado na história da tecnologia (2016-2020). 

Ao que tudo indica, o Brasil não ficará fora do mapa do cultivo celular, depois que a BRF e o fundo Enfini Ventures anunciaram, em julho deste ano, investimentos na startup israelense Aleph Farms, conhecida por fazer bifes a partir do cultivo de células animais.

A gigante BRF, ao desembolsar US$ 2,5 milhões, quer disputar um mercado em ascensão e com bastante potencial. Estudo da consultoria norte-americana AT Kearney projeta que a proteína produzida em laboratório deve ocupar 35% do mercado global de carnes até 2040, uma fatia de US$ 630 bilhões num setor que soma US$ 1,8 trilhão.

De acordo com Marcel Sacco, vice-presidente de Novos Negócios da BRF, que espera lançar sua carne cultivada no Brasil a partir de 2024, o foco é o desenvolvimento consistente de tecnologia para a produção de bifes e poder oferecer alternativas a seu consumidor. 

“Reproduzir a consistência, a fibra e a experiência de um steak é sem dúvida um estágio mais avançado nesse processo. O desafio é reproduzir todas essas características que o consumidor busca quando consome carne”, destaca Marcel, em entrevista ao Estadão.

Num mercado incipiente no Brasil, a novidade, no entanto, esbarra na falta de marcos regulatórios e de tecnologia, pontua o vice-presidente. A produção desse tipo de carne não leva antibióticos e começa com a obtenção de uma amostra de células de alta qualidade de animais, por exemplo por meio de uma biópsia, sem o abate.

As células são cultivadas em laboratório, por meio de um equipamento chamado biorreator, com o fornecimento de nutrientes e ambiente propício para o seu crescimento. Diferentemente dos transgênicos (geneticamente modificados), a carne cultivada é feita a partir da reprodução de células. Ao final do processo, no microscópio, é possível ver a mesma estrutura de uma carne proveniente do abate de um animal.

O investimento da BRF faz parte da segunda rodada de captações da Aleph Farms, que levantou ao todo US$ 105 milhões, e vem para consolidar a parceria com a gigante de alimentos, anunciada em março deste ano.

Essa é a primeira vez que a BRF realiza uma transação de venture capital, que garantirá o uso da tecnologia. “Agora, criamos laços ainda mais fortes de apoio e suporte ao desenvolvimento dessa produção para trazer mais opções de proteínas alternativas ao mercado”, diz Marcel.

Somando os aportes da primeira rodada, o montante obtido pela startup israelense chega a US$ 118 milhões, vindos de diversas corporações do mundo. Entre as brasileiras, além da BRF, há o Enfini Ventures, fundo de capital de risco voltado ao mercado de proteínas alternativas, que investiu entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão.

Os recursos serão usados na execução dos planos de comercialização de carne cultivada em larga escala global, expansão do portfólio em novos tipos de proteína animal e estruturação da planta piloto.

Regulamentação em mercado incipiente

A Aleph Farms foi cofundada em 2017 com a incubadora israelense de tecnologia de alimentos The Kitchen (do Strauss Group) e o Instituto de Tecnologia de Israel. A startup anunciou, em fevereiro, a produção de um bife por bioimpressão 3D e, atualmente, está em negociações com reguladores em vários países para comercializar seus produtos.

Ainda em fase de testes, a proteína cultivada da Aleph poderá chegar ao Brasil também na forma de hambúrguer, almôndegas e embutidos, como salsicha. Porém, por se tratar de tecnologia nova, ainda esbarra em entraves legislativos no País junto à Anvisa e ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

“Todos os mercados estão passando por esse processo agora. Estamos trabalhando para desenvolver o marco regulatório junto aos órgãos do governo, com o apoio de pesquisadores e acadêmicos. Existe uma série de parâmetros que precisam ser criados para poder produzir e comercializar o produto. O próprio nome ‘carne cultivada’, do ponto de vista técnico, não está formalizado”, ressalta Marcel Sacco, vice-presidente de Novos Negócios da BRF.

Há ainda o desafio de mudança cultural, que envolve a educação e a conscientização do consumidor. Todavia, Marcel acredita que será um processo natural de mudança de hábito, assim como ocorreu com as proteínas vegetais, que já fazem parte da dieta de muitos brasileiros, principalmente os flexitarianos.

“O consumidor hoje está cada vez mais ávido por experimentação. Não tenho dúvida de que tem espaço. Mas haverá uma substituição da carne? De jeito nenhum. Como toda tecnologia que surge, a carne cultivada vem para somar, ser uma nova opção ao consumidor e gerar mais oportunidades para empreendedores, trabalhadores, cientistas.”

Didier Toubia, cofundador e chefe executivo da Aleph Farms, afirma que a nova rodada de investimentos deve acelerar ainda mais a produção. “Estamos entusiasmados em unir forças com a BRF. Como um dos maiores produtores de carne bovina do mundo, o Brasil é um mercado estratégico para nós”, disse Toubia ao Estadão.

Brasil no mapa do cultivo celular

O primeiro hambúrguer cultivado em laboratório foi apresentado em 2013 pelo professor holandês Mark Post, da Universidade de Maastricht. Mas foi em 2020, depois da pandemia do novo coronavírus, que o desenvolvimento da tecnologia e investimentos e parcerias no setor aceleraram, tendo em vista uma maior preocupação com a segurança alimentar e a sustentabilidade do planeta. 

Fato é que no ano passado ocorreu a primeira regulamentação para a produção e comercialização de um produto cultivado em um país. Singapura, na Ásia, aprovou a venda de um frango produzido pela startup americana Eat Just para um restaurante.

No mesmo ano, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu tornou-se o primeiro chefe de estado a provar um bife desenvolvido a partir de células bovinas, feito pela Aleph Farms. Na ocasião, Netanyahu apresentou um plano nacional para tornar Israel líder global de proteínas alternativas. O país já concentra algumas das principais companhias do setor, como SuperMeat, MeatTech e Future Meat Technologies. 

No Brasil, embora a BRF seja a primeira companhia a anunciar a produção de carne cultivada, outras empresas e universidades já estão trabalhando para desenvolver a tecnologia no País, mas ainda não informaram publicamente, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão.

“Há uma percepção de que o Brasil estava saindo atrasado no setor. Agora, o investimento da BRF indica o quanto o nosso País também estará envolvido nesse tipo de tecnologia”, afirma Gustavo Guadagnini, diretor executivo do The Good Food Institute (GFI) no Brasil. "A BRF, ao anunciar investimento na Aleph Farms, está se antecipando. A companhia de alimentos não faria isso se não acreditasse que esse é o futuro do mercado de carnes."

O sabor da carne de laboratório

Gustavo Guadagnini teve recentemente a oportunidade de cozinhar e comer um pedaço de carne cultivada em sua própria casa. A peça foi produzida por uma empresa de nome não revelado, por motivo de acordo de confidencialidade. “Era um pedaço pequeno, feito apenas para testes. Coloquei numa frigideira para poder acompanhar bem o processo de cozimento."

Segundo ele, ao fritar a carne, deu para sentir aroma mais próximo de carne animal do que os produtos 100% vegetais. "Foi possível ver a gordura animal soltando aos poucos e derretendo na frigideira, o que não é tão diferente dos produtos vegetais. No final, o sabor era de carne, como esperado. A textura do produto era dada por uma base vegetal, então foi bem similar à de um hambúrguer vegano. Mas foi surreal perceber que eu estava consumindo carne feita a partir das células, sem abate animal. Foi uma chance de ‘provar o futuro’ e ver como nós conseguimos romper limites para produzir alimentos mais sustentáveis e saudáveis."

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