Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Bicicleta estimula negócios como opção segura de transporte na pandemia

Vendas de bikes tiveram pico em julho e seguem em alta, segundo associação, mas lojas sofrem com falta de peças; empreendedor expande marca com duas lojas novas na quarentena

Felipe Tringoni, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2020 | 14h00

Especial para o Estado

Uma valiosa alternativa de transporte, além de aliada na manutenção das saúdes física e mental. As restrições impostas pela pandemia do coronavírus transformaram a relação de muitos com a bicicleta e impulsionaram um mercado que já vinha em bom momento.

Segundo a Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas), as vendas em setembro e outubro aumentaram 64% em comparação ao mesmo período de 2019. Daniel Guth, diretor executivo da associação, indica que em julho houve um pico de 118% em relação ao ano passado e desde então “os índices continuam altos e a tendência é que se consolide um crescimento constante”.

Segundo ele, entre março e abril o faturamento do setor “caiu drasticamente”. “Todo mundo ficou bastante receoso. Mas logo começou a haver uma inversão”. Dois fatores decisivos para isso, diz ele, foram a classificação de mecânica e reparo de bicicletas como serviços essenciais e a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) estimulando as pedaladas como opção de transporte durante o isolamento social.

“Acredito que esse posicionamento tenha sido decisivo. Abriu a cabeça das pessoas para pedalarem com segurança”, afirma Alex Gomes, consultor em mobilidade urbana e colaborador do blog São Paulo na Bike, do Estadão.

Outro levantamento, realizado pela startup Semexe – marketplace de bicicletas e esportes outdoor que acaba de receber seu primeiro aporte de investidor institucional –, analisa mudanças no comportamento de praticantes de atividades físicas e destaca a incorporação de atividades individuais, como o ciclismo: 89% dos entrevistados afirmam que essas práticas são mais seguras do que esportes coletivos ou treinos em academias. E 62% consideram utilizar com mais frequência a bicicleta para atividades cotidianas.

Apesar do momento positivo, o mercado de bicicletas tem tido dificuldades no fornecimento de componentes - assim como outros setores também foram afetados pela falta de matéria-prima. Cerca de 90% desses itens vêm de países como China, Taiwan e Camboja. 

“Quando a produção se regularizou, houve crescimento da demanda em todo o mundo. Fomos prejudicados pela pandemia e pela priorização no reabastecimento de outros mercados, como o europeu”, diz Guth. O monitoramento da Aliança Bike prevê que a partir de fevereiro a distribuição deverá estar “totalmente normalizada”. 

O especialista frisa: “Não houve corte total, e sim atrasos, reduções e a queima de estoques acumulados. Mas, como tivemos um aumento de demanda repentino, não foi possível atender a procura de um ou outro modelo”. As bicicletas de entrada (com valores de R$ 800 a R$ 1.500) são as mais procuradas e foram as primeiras a sofrerem com represamento de vendas.

Para aproveitar o bom momento, lojistas que tinham um único fornecedor procuraram alternativas. Outros, para não dependerem da venda de bicicletas inteiras, passaram a fazer também montagens. 

Além disso, na onda da digitalização, muitos fortaleceram seus canais de vendas online e passaram a estimular o contato com clientes via WhatsApp e redes sociais. “Houve crescimento em todas as áreas que compõem o faturamento de uma loja”, sumariza Daniel Guth.

Faturamento de lojas e expansão

Com o mercado aquecido, quatro tendências principais têm se estabelecido: as bike shops,  lojas que representam grandes marcas globais; modelos específicos para o uso urbano; pulverização de bicicletas de entrada, produzidas pensando em mercados regionais; e bicicletas elétricas, cujas vendas têm subido em média 30% ao ano.

Exemplo de crescimento acelerado entre as lojas-conceito é a Visual Bike, que trabalha com a marca esportiva norte-americana Trek. “O objetivo é representar de ponta a ponta e oferecer a experiência completa, seja em bike de estrada, de trilha, elétrica, tudo relacionado à Trek”, diz Bruno Soares Barbosa, de 32 anos, prestes a inaugurar sua terceira loja em São Paulo, em Moema. A segunda, nos Jardins, foi aberta em março e, ao lado da primeira, no Ipiranga, rendeu ao negócio crescimento de 300% em relação a 2019.

Com apenas uma loja, no ano passado a Visual Bike vendeu cerca de 170 bicicletas, com tíquete médio de R$ 15 mil. Neste ano, as duas unidades já passaram de 500 bikes vendidas, em média a R$ 12 mil. “Trabalhamos com o público AA”, diz Bruno, que planeja expandir para fora de São Paulo nos próximos anos.

Já o foco da Ciclo Urbano, como sugere o nome, está em bicicletas adequadas às cidades, seja para passeio ou transporte, de marcas como Brompton, Pashley e Specialized. Com lojas na Vila Olímpia e em Pinheiros, o fundador Mário Canna, de 42 anos, diz que vai fechar o ano com faturamento um pouco superior ao de 2019.

“Vendemos muito em alguns meses, mas não no começo da pandemia. E agora vivemos outro cenário: há demanda, porém, pouca oferta de mercadoria. Posso afirmar que não tivemos um ano de ouro de vendas por causa disso”. Hoje, o tíquete médio de suas bicicletas está entre R$ 3,5 mil e R$ 5 mil.

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