Werther Santana/Estadão
Gabriel Novais e Rafael Papa criaram o marketplace de bicicletas e esportes outdoor Semexe; para escalar, fundadores procuraram um fundo de investimento focado no setor. Werther Santana/Estadão

Tem dinheiro, mas não é para todo mundo: 74% das startups nunca tiveram investimento

Cenário revelado por pesquisa da ABStartups mostra que é preciso combinar fase de estruturação da empresa com área de interesse dos investidores, apontam especialistas

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 05h00

À primeira vista, empreender em negócios de tecnologia parece ser uma aposta certa em tempos de digitalização obrigatória dos negócios e recordes do setor, como na aquisição de empresas e no volume de aportes. Mas um dado obtido pela Associação Brasileira de Startups (ABStartups) em seu Mapeamento 2020 mostrou que a jornada do empreendedor de tecnologia não é tão simples: 73,8% das startups nunca receberam nenhum tipo de investimento.

Entre as que conseguiram (26,2%), 41,5% receberam aportes de investidor-anjo, 28,4%, seed e 21,6% de aceleradoras. O  restante é dividido por investimentos séries A, B e C. A pesquisa foi realizada entre maio e setembro deste ano com 3 mil empreendedores do ecossistema nacional de startups e também teve como apoio os dados do Startupbase (com 5 mil startups), da ABStartups. Hoje, há mais de 13 mil startups no País.

O gargalo na captação de investimentos não pareceu surpreender os especialistas ouvidos pelo Estadão PME. No entanto, cada um apresentou um olhar diferente sobre o tema. De acordo com as análises, há três pontos-chave para entender a questão: o empreendedor está buscando investimento na hora errada; o investidor não diversifica seu portfólio, buscando empresas que fazem a mesma coisa; e o investidor aposta no empreendedor mais do que na sua ideia. Em comum, os especialistas são categóricos: nunca se teve tanto dinheiro no Brasil para investir em startups.

Para Amure Pinho, presidente da ABStartups, empreendedor e também investidor profissional que já fez aportes em 29 startups, há um desequilíbrio claro entre o volume de startups e o de investidores ou fundos. “Há mais startups buscando investimento do que investidores dispostos a aportar capital. O problema é que, quando essa equação pende para o lado do investidor, a tendência é que ele suba a régua na hora de decidir em quem investir”, afirma.

De acordo com Amure, a maioria das startups buscam investimento na fase de ideação do negócio, quando ainda está pensando como resolver um problema. “E nessa hora, erroneamente, ele vai em busca de capital. Quando declara que não conseguiu investimento, não é pela falta do dinheiro. É que provavelmente ele não conseguiu provar tração para o investidor.”

Segundo a pesquisa da ABStartups, 41,9% das startups não têm faturamento, 13,5% faturam entre R$ 50 mil e R$ 250 mil por ano e 11,8% faturam entre R$ 10 mil e R$ 50 mil por ano.

O presidente da entidade ressalta que, na corrida por investimento, o empreendedor que já conseguiu gerar receita é visto de outra forma pelo mercado. “Sua empresa está rodando e já tem um cliente? Comece a mandar o seu report para os investidores.”

Então, validar a solução no mercado e aumentar o número de clientes são os principais fatores para os investidores prestarem atenção na startup? Depende. Segundo Daniel Ibri, professor do Insper e presidente executivo do fundo Mindset Ventures, o investidor que existe no Brasil é “muito único”.

“Quando você olha para os Estados Unidos, você vê que eles têm investidores especializados em todo tipo de coisa: em várias verticais (setores), em vários estágios, em vários modelos de empresas. A maioria dos investidores no Brasil, principalmente de venture capital, olha para a mesma coisa. ‘Eu quero um negócio com base tecnológica que já tenha tração, que tenha uma dupla forte de sócios, esses empreendedores provavelmente já empreenderam antes, um deles provavelmente já foi para Stanford…’ É uma regrinha. Todos os fundos estão competindo pelo mesmo bolo.”

Daniel apresenta um exemplo claro de como alguns tipos de negócios não são vistos como ‘fundable’ no Brasil: a startup de tênis Allbirds, que se tornou sensação no Vale do Silício. “Um negócio desse nunca iria decolar no Brasil. Não é que falta dinheiro, mas falta dinheiro com carimbo para esse tipo de negócio.”

O especialista acredita que essa é uma característica de um ecossistema que ainda busca maturidade e alerta que o excesso de capital não significa oportunidade para criar uma startup. “Tem gente que fala ‘vou empreender porque agora todo mundo virou unicórnio’. É muito mais difícil do que parece.” 

Match de interesses com o investidor

Gabriel Novais compreende bem o cenário. Formado em administração e com mais de 10 anos de carreira, ele fundou ao lado de Rafael Papa (formado em marketing, com 13 anos de carreira e especialização em Stanford) o marketplace de bicicletas e esportes outdoor Semexe, em janeiro de 2019.

A empresa acaba de receber o primeiro aporte de um investidor institucional, o fundo  OutField Capital. A empresa já teve aporte de um investidor-anjo, e os dois aportes somam R$ 2 milhões. 

“O que eu vejo é que o fato de ser uma ideia inovadora não significa que ela consegue se tornar uma empresa bilionária. A gente ouviu de alguns fundos: a gente gostou de vocês como fundadores, a gente acredita no business, mas a gente não acredita que consiga valer X bilhões de dólares e é só assim que a conta fecha para a gente”, conta Gabriel. “O que funcionou para a gente foi entender essa prática e buscar um fundo mais especializado em esporte.”

Outro ponto, destaca ele, é o relacionamento que o empreendedor deve construir com o investidor. “No final, os fundos investem muito mais nas pessoas do que nas ideias.  A gente vem trabalhando também em criar esse laço com quem tem esse poder de decisão. Se você deixar esse momento só para a hora do pitch, você vai sentar na frente dele sendo um completo desconhecido. Ficamos 10 meses conversando com o OutField Capital.”

Captar para escalar

Criada em 2016, a startup 4intelligence (que trabalha com inteligência de negócios e aprendizado de máquina) nasceu baseada no modelo bootstrapping, no qual a empresa se financia e se mantém com a receita que gera.

“Depois de criarmos um algoritmo próprio, em 2019 a gente chegou à conclusão que era a hora de a gente procurar um investimento. A gente já tinha conseguido chegar em uma grande inovação com as próprias pernas, mas precisávamos de capital para acelerar e diminuir o tempo para colocar essa inovação no mercado”, conta Bruno Rezende, CEO da startup. 

Depois de um processo que durou mais de seis meses, eles captaram US$ 1 milhão com o Inovabra Ventures em abril de 2020. “A startup tende a amadurecer bastante no processo de captação, eles te forçam a pensar com mais profundidade.” Segundo ele, o investimento foi importante para escalar e começar a estruturar as vendas.

A empresa tinha 28 funcionários antes do aporte e agora já tem 55. De acordo com Bruno, a receita mais do que dobrou desde o investimento. O fundador, no entanto, ressalta outros benefícios do aporte.

“Tem outro impacto que não é o dinheiro em si, mas a experiência que o investidor vai trazer. Em poucos meses a 4intelligence amadureceu o que levaria anos. Isso porque o investidor consegue transferir conhecimento com relação a boas práticas, métricas, como estruturar uma equipe de venda, desempenho operacional. Isso foi muito impactante.”

 

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Startup ajuda no match entre investidor e empreendedor

Empresa passa por um processo rigoroso que contém 15 etapas antes de ter encontro com o investidor; objetivo é fazer a conexão entre startups e fundos que atuam no mesmo segmento

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 05h01

Ajudar startups que não conseguem investimentos se tornou o modelo de negócios da DiliMatch. Fundada em 2019 por Fabiany Lima, a empresa promove o encontro organizado e assertivo entre fundo de investimento e startup.

“O empreendedor não tem ideia do que ele precisa fazer para captar, e o investidor recebe muitas propostas de startups. Algumas não são claras. Existe um desencontro e a relação esfria”, diz Fabiany.

A DiliMatch propõe uma imersão do empreendedor no processo de captação. Ele precisa passar por 15 etapas para que a empresa reúna as informações de seu negócio e as entregue para um investidor de sua rede de contatos, adequado com as características do empreendedor. 

“Preparamos toda a documentação, fazemos uma pré-diligência, resolvemos os problemas que encontramos, treinamos os fundadores para a sabatina com o investidor e analisamos suas projeções. Uma vez que ele completa esse processo, a gente vai na nossa rede e escolhe o investidor que tem a tese de investimento que combine com a proposta da startup. É um processo de ponta a ponta”, conta. A  DiliMatch fica com 5% em cima do sucesso do negócio e a fase de preparação é gratuita.

Segundo Fabiany, 100% das startups que a procuram não sabem exatamente o que querem fazer com o dinheiro. “Quando vão discutir as projeções, na verdade são chutes. Às vezes há decks confusos, ou a startup foi apresentada de uma maneira tão ruim que o investidor não conseguiu perceber o potencial. Muitos não estão preparados para estar frente a frente com um investidor profissional”, comenta ela sobre a maturidade e o conhecimento dos empreendedores na hora da captação.

A fundadora também ressalta que a falta de conhecimento do empreendedor pode o levar a fazer escolhas ruins que vão prejudicar futuras novas rodadas de captação. “Alguns investidores, pelo menos do risco, acabam sufocando as startups. Baixam o valuation da startup, prejudicando a próxima rodada de captação dela. Ou tomam um porcentual muito alto da empresa, tirando a atratividade dela para o investidor que vai entrar. Ou ainda exige uma série de regras, além de controle e direito de informação, e faz com que o novo investidor potencial olhe e fale ‘não quero entrar nesse problema, já tem muito chefe aí’, diz.

TIPOS DE DINHEIRO

Family, Friends and Fools (FFF)

Este é o primeiro ‘aporte’ que o empreendedor recebe. Para tirar a ideia do papel, ele pede que sua rede de contato de familiares, amigos e pessoas que o conhece intimamente possam investir na startup. O valor captado geralmente é baixo (geralmente até R$ 30 mil). 

Bootstrapping

A startup se financia com a receita gerada pela venda da solução o produto. Muitas startups começam dessa forma e depois partem para uma rodada de captação. No entanto, há empreendedores que buscam permanecer no modelo para não vender nenhuma parte da empresa. 

Investimento-Anjo

Aporte realizado por pessoas físicas, que investem seu capital próprio em startups em vez de comprar ações, por exemplo. A startup já tem um MVP e precisa transformá-lo em um produto de fato, para colocá-lo no mercado. O valor do aporte pode variar de R$ 50 mil a R$ 500 mil.

Aceleração

Serve para startups que já têm produto e precisam ganhar mercado. Além do investimento, o espaço auxilia o empreendedor com networking e mentorias. O empreendedor fará um acordo com a aceleradora, no qual podem variar de 5% a 25% da participação da empresa.

Semente (seed)

Adequado para startups que buscam expandir mercado. O investimento pode chegar R$ 2 milhões. 

Venture Capital

Indicado para empresa completamente estruturadas, mas que precisam ganhar escala em um curto período de tempo. Os aportes podem variar de R$ 2 milhões a R$10 milhões em rodadas diferentes, que são chamadas de A, B, C. 

Fonte: ABStartups 

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