Thiago Silva/Terra Preta Produções
Thiago Silva/Terra Preta Produções

Banco de imagens Fértil fortalece representatividade racial em conteúdo

Negócio, que foi acelerado em programa da Prefeitura de São Paulo, vende fotos com atores negros para aumentar diversidade na produção publicitária de outras empresas

Anna Barbosa, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2021 | 05h01

A maioria da população brasileira, composta por negros e negras (56% de acordo com IBGE), não se enxerga nas propagandas. A pesquisa TODXS, desenvolvida pela ONU Mulheres e pela Heads Propaganda, viabilizada pela Aliança Sem Estereótipos, indica que a presença de homens negros em protagonismo na TV é de apenas 7% e a de mulheres negras nunca ultrapassou os 25%. Visando essa lacuna do mercado, o Fértil Imagens surge para resolver o problema da falta de representatividade na publicidade com um banco de imagens voltado à diversidade preta

O Fértil Imagens se diz o primeiro banco de imagens de pessoas negras do País. As opções ainda são poucas mesmo no mercado global, com bancos de imagens correlatos como o Nappy e o Young Gifted and Black. 

“Tentamos entender qual é a visão desses pequenos afroempreendedores dentro do mercado de uma forma com que elas consigam ter acesso a imagens por um preço acessível - que não é gratuita, mas também não custa R$ 5 mil. Ela se torna mais acessível para o pequeno negócio, para que ele se sinta representado no próprio produto dele. Ao mesmo tempo, estamos ali do outro lado para mostrar para as grandes empresas que não é tão difícil assim você ter pessoas pretas dentro dessas representações”, diz Renato Lopes, sócio-fundador do Fértil, segundo quem o preço médio de cada foto é R$ 25. 

O projeto é um braço da Terra Preta Produções, produtora de audiovisual fundada por Rodrigo Portela. Com o Fértil, o objetivo é produzir imagens que representem as pessoas negras brasileiras nas mais diferentes posições: CEOs de empresas, médicos, chefs de cozinha, pais e filhos e muito mais. Os clientes em potencial são grandes agências, pequenas e médias empresas, que valorizam a inclusão de pessoas negras, indígenas e PCDs em suas campanhas.

“A gente sempre fala: 'Vamos entrar (numa campanha) com uma equipe preta'. Entram dez pessoas da equipe, que são pretas, e consequentemente a pessoa que vai estar na frente da tela vai ser preta. Se não for preta, vai no mínimo ter um entendimento cultural, social e político sobre o que é ser uma pessoa preta no Brasil”, conta Portela, também sócio-fundador do Fértil.

Recentemente, os sócios conseguiram um investimento de R$ 34,2 mil por meio da 5ª edição da aceleradora Vai Tec, programa gerido pela Ade Sampa, agência de desenvolvimento vinculada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo de São Paulo. Além disso, receberam mentorias para aprimorar o negócio. 

O dinheiro é uma forma de fomentar o negócio, que estimula a comunidade negra por meio do black money. Para os sócios, isso já é um processo natural. “Queremos dinheiro de todos e queremos dar dinheiro aos próximos. Nós vamos alimentar toda essa rede. Dinheiro de todos é: se o cliente é preto, branco, azul, da forma como for: quer contratar? Quer comprar uma imagem? Está ótimo. Mas a gente vai alimentar os nossos para poder fazer rodar entre a gente”, diz Renato. 

Rodrigo Portela exemplifica como a circulação do dinheiro entre profissionais negros se dá em outras empresas, como a Feira Preta, a agência de comunicação Oliver, a agência de publicidade Gana. “Por exemplo, a produtora (Terra Preta) tem a expectativa de faturar R$ 750 mil neste ano. Esse dinheiro chegou na mão do Renato, na mão da Kelly, no Gui, no Thiago, na Giovana. Fora as outras pessoas que a gente acaba contratando para fazer o catering, que é uma pessoa preta. A gente faz com que o dinheiro se mantenha mais tempo dentro da comunidade preta, o que é muito importante."

Para ele, o dinheiro também é forma de empoderamento da comunidade. “É extremamente importante ter essa questão do black money. Quando a gente fala do empoderamento, é muito legal olhar no espelho, fazer seu skincare, se sentir bonito. Mas eu também estou falando de manter o ciclo girando, de poder ter liberdade de escolha com compra, de dizer que moro aqui porque eu quero, de ter uma boa internet. Isso tudo porque o dinheiro também traz essa possibilidade. Eu não sou um mercenário, mas eu sei o que é não ter dinheiro. Então, eu quero fazer com que esse dinheiro circule cada vez mais em mãos pretas.”

Eles explicam que incentivar o black money também é quebrar estigmas da sociedade, principalmente sobre a qualidade do trabalho de pessoas pretas. "Você quer uma pessoa preta que fala inglês? Eu falo. Você quer uma pessoa preta que sabe editar? Eu sei editar. Quer alguém que sabe dirigir? Eu sei dirigir", diz Portela. 

Representatividade por meio das imagens

Para a população negra, o desestímulo e a falta de representatividade fazem com que muitas vezes ela não se enxergue não só dentro das empresas, mas também como consumidoras de marcas.

“Essa questão da falta de representatividade e de como isso é reforçado tem uma questão que eu sempre tive comigo nesses quase dez anos de audiovisual, que é a culpa que o audiovisual tem na criação do imaginário coletivo. Você liga a TV e vai ver pessoas pretas somente nos noticiários policiais, sendo que somos mais de 50% da população brasileira. A questão do audiovisual é justamente esse lance da culpa, que acontece porque é uma área muito cara, que é consequentemente elitista e branca. Se não há pessoas negras no poder de decisão e na criação das peças, consequentemente não vai ter pessoas negras no suporte, na peça final. Não vai ter na TV, no outdoor, no banner, porque as pessoas que estão encabeçando isso não pensam dessa forma", explica Portela.

Os sócios contam que desde a faculdade, quando se conheceram, sentem esse incômodo, mas que antes nem sabiam haver a possibilidade de bancos de imagens voltados para pessoas pretas. 

"Com o tempo, pesquisando, descobrimos que havia dois bancos de imagens fora do Brasil, americanos, mas sem características brasileiras. Por mais que a gente entenda que o brasileiro não tem um rosto, é engraçado porque sabemos quem não é brasileiro. Me formei em audiovisual e fiz cursos de fotografia também, o Renato também tem formação em fotografia. Então, pensei: o que eu preciso para eu mesmo ter esses conteúdos?", conta Portela sobre o start para a criação do Fértil.

"Como empreendedores, entendemos o processo mercadológico, mas a nossa luta diária é conquistar cada vez mais espaço para as pessoas pretas e fazer com que as pessoas pretas brasileiras se reconheçam nessas imagens", completa Renato.  

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