Foto: Werther Santana/Estadão - 19/11/ 2019
Foto: Werther Santana/Estadão - 19/11/ 2019

‘Mulher negra não pode ser só resistência; é preciso poder sonhar’, diz empreendedora

Para fundadora da Feira Preta, que há 20 anos fomenta empreendedorismo negro, é preciso celebrar conquistas em meio a vulnerabilidades; na semana da mulher, Adriana Barbosa lança livro ‘Preta Potência’

Entrevista com

Adriana Barbosa

Anna Barbosa, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2021 | 17h34

Mulher, preta, mãe e empreendedora. Essa é a realidade de milhões de brasileiras que resistem todos os dias no desafio de empreender e que, além de enfrentar os problemas que atingem todos os empreendedores cotidianamente, ainda têm de lidar com obstáculos do racismo. Agora, soma-se a crise imposta pela pandemia do coronavírus.

A intersecção de fatores como raça, classe e gênero faz com que não seja possível analisar o cenário com somente um dos fatores. A Pesquisa de Empreendedorismo no Brasil do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), feita em 2019 em parceria com o Sebrae, mostra no recorte de cor/raça que 69% dos empreendedores negros tinham renda de até 3 salários mínimos, enquanto esta era uma realidade para 48% dos empreendedores brancos.

Quando se trata de mulheres negras, que estão no extremo socioeconômico oposto aos homens brancos, elas ganham menos na carreira, têm menor chance de ascensão que as mulheres brancas e lutam contra mais de uma questão ao mesmo tempo. 

De acordo com o levantamento realizado pelo Insper “Diferenciais Salariais por Raça e Gênero para Formados em Escolas Públicas ou Privadas", com base em dados da Pnad Contínua de 2006 a 2018 e análise de cinco profissões (engenheiros/ arquitetos, médicos, professores, administradores e cientistas sociais), a média dos salários dos homens é sempre 100% maior do que a de mulheres negras e chega a quase 160% para aqueles que possuem ensino superior público.

entre mulheres a diferença também é grande: brancas que possuem ensino superior e são formadas no ensino público recebem em média 55,55% a mais do que negras.

Para a empreendedora Adriana Barbosa, CEO e fundadora da Feira Preta, que promove o empreendedorismo negro e completa 20 anos neste ano, todos esses fatores possuem cruzamentos e infligem na trajetória das empreendedoras, assim como ocorreu em sua própria história. “Houve muitos atravessamentos em relação à intersecção de raça e gênero. Para o bem, que é essa potência de ser uma mulher negra com todo esse legado ancestral que eu tive, e para o mal, com todas as camadas da discriminação”, conta.

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, ela destaca a importância de fomentar o empreendedorismo negro. “Eu acho que, como justiça, a gente precisa trazer a potência empreendedora não pela lógica do ‘vender hoje para comer amanhã’, da resistência, mas sim das oportunidades, da potência, do legado de tudo que a população negra construiu. A gente merece empreender com qualidade, com prosperidade, com abundância, com prosperidade e não porque tem um processo de vulnerabilidade.”

Parte desse repertório Adriana Barbosa conta no livro Preta Potência (editora HarperCollins), que será lançado no dia 13 de março em uma live no Instagram. O livro foi escrito com a pesquisadora e escritora Ana Lúcia Silva Souza, com o apoio de Christiane Gomes, jornalista, pesquisadora e integrante do conselho editorial da revista O Menelick 2º Ato, e Semayat Oliveira, também jornalista e cofundadora do Nós Mulheres da Periferia. “Não daria pra ser diferente se não fosse uma escrita coletiva, um processo de muitas mulheres olhando para esse tema de pretas potências - que não é só da minha vida, não é só da minha família, não é só da Feira Preta, mas de muita gente.”

Confira a seguir trechos da entrevista que Adriana concedeu ao Estadão, onde falou sobre seu livro, interseccionalidade de gênero e raça, empreendedorismo e maternidade.

No Dia da Mulher, muitas reflexões são trazidas como universais, como “problemas que atingem as mulheres”. De fato, eles existem, mas é importante pensar em intersecções de raça e classe. Como todos estes aspectos marcaram e marcam sua trajetória até hoje?

Eu nasci uma mulher preta e tive uma educação matriarcal. Na nossa família, são cinco gerações de mulheres, minha bisavó, minha avó, minha mãe, eu e minha filha. Essa questão de gênero e os valores femininos sempre foram muito fortes. Isso marcou para o bem, com todas as especificidades de ser mulher que são boas. Ao mesmo tempo, também existem as questões de discriminação, os processos de diferença de raça, classe, gênero e idade que existem entre as mulheres.

Houve muitos atravessamentos (na minha história) em relação à intersecção de raça e gênero. Para o bem, que é essa potência de ser uma mulher negra com todo esse legado ancestral que eu tive, e para o mal, com todas as camadas da discriminação. 

Além da questão de idade, porque quando eu comecei a Feira Preta, eu era muito nova. Para as pessoas, logo no início, era o cúmulo, elas ficavam tipo “quem é essa menina que está me falando o que fazer?”. 

No livro, você fala sobre não lembrar de ter feito grandes planos para sua carreira na infância. Contudo, você chegou até aqui, fazendo um trabalho que impacta muitos pequenos empreendedores negros e já movimentou mais de R$ 6 milhões. O que você diria para a Adriana de anos atrás e para outras mulheres negras que estão traçando caminhos no empreendedorismo?

A primeira coisa que eu falaria é que elas se permitam a sonhar, porque sonhar também é para elas. A segunda é que a nossa vida não pode ser marcada só pela resistência, só pela sobrevivência. A gente pode ter o bem viver, viver com qualidade de vida, alegria e leveza.

Na minha criação, eu não tive essa coisa do bem viver, eu fui programada para trabalhar. Eu fui educada para arrumar trabalho, para sustentar, para resistir. Hoje, tenho uma filha e quero que ela sonhe. Ela fala “eu quero ser presidenta” e eu quero que ela seja presidenta. Então, é preciso ter a coragem de sonhar.

O segundo ponto é sobre o caminho do fortalecimento identitário. Para a juventude negra, vem outra questão. Para a minha geração, veio um processo de se tornar negro, mas as novas gerações já vêm pretas. Agora, a questão é como você pega o bastão e segue. 

Para você, qual a relevância pessoal e social de criar um espaço afrocentrado, voltado para o fortalecimento da comunidade negra?

Nós ainda estamos num momento com muitas complexidades. É um longo processo de desigualdade, construído a partir da escravidão. Mas, em 13 décadas, a população negra conseguiu passar por todo o apagamento histórico e identitário e hoje ser maioria.

Ser a segunda maior população negra do mundo fora da África vem a partir de um processo de autodeclaração, que é se reconhecer negro. O legado, não só do meu trabalho, mas de muitos movimentos que aconteceram antes de mim, é essa possibilidade de qualificar essa identidade e falar: ‘Você é preto e tem uma história que foi construída para que você pudesse estar aqui hoje. São muitas histórias, que não somente histórias de vulnerabilidade, de escassez e de resistência. Existe muita beleza, tecnologia, produção intelectual e muito legado’.

Quando eu olho hoje, existem muitos trabalhos acontecendo que nos colocam nesse lugar de realeza, de potência. Eu acho que nós também temos coisas para celebrar.

Em 2016, você relatou ter enfrentado uma dívida de R$ 200 mil. Como foi o processo de se reerguer, tanto pessoal como profissionalmente?

O primeiro passo foi aceitar o fracasso, que eu tinha errado e que não tinha dado certo - e doeu muito reconhecer isso. Ao reconhecer o fracasso, eu percebi que não conseguia sair sozinha dele e que eu precisava de ajuda. 

Eu consegui pedir ajuda e me permitir ser ajudada e ser cuidada de diferentes formas, desde processos terapêuticos até pessoas que me ajudaram financeiramente, que puderam me dar mentoria e aconselhamento, que de fato me suportaram num momento muito difícil. Eu certamente não conseguiria reverter essa situação se não fosse pela mão de muitas pessoas.

Deixar meu orgulho de lado e me permitir ser cuidada foi um passo importante. Porque, primeiro, saber que você fracassa e reconhecer que você fracassou é muito difícil. Depois, você pedir ajuda é mais difícil ainda. Mas foram etapas subjetivas que eu passei para que eu pudesse transcender uma situação muito ruim para poder reverter em um momento de potência - depois, muitas potências vieram, pelo suporte de muitas pessoas. 

Pensando em uma sociedade estruturalmente racista, qual a importância de debater e fomentar o empreendedorismo negro?

O empreendedorismo negro é fundamental e estratégico para população negra no Brasil, porque nós somos empreendedores há muitos anos. A gente constrói o empreendedorismo pós-abolição como forma de sobrevivência e resistência. Durante muitos anos, a população negra que não estava dentro das empresas, estava empreendendo - sobrevivendo.

Eu acho que, como justiça, a gente precisa trazer a potência empreendedora não pela lógica do ‘vender hoje para comer amanhã’, da resistência, mas sim das oportunidades, da potência, do legado de tudo que a população negra construiu. A gente merece empreender com qualidade, com prosperidade, com abundância, com prosperidade e não porque tem um processo de vulnerabilidade.

Quais os principais desafios sendo uma mulher preta, mãe e empreendedora?

Tem uma grande responsabilidade com a minha filha. O primeiro é apoiar o processo de desenvolvimento da identidade dela, porque, apesar de celebrarmos os muitos avanços que aconteceram, ainda assim nós precisamos cobrar e falar sobre a questão de sermos um país racista (e isso reflete nas crianças negras).

O desafio é a questão do fortalecimento identitário dela. Ela já nasce em um contexto de se reconhecer como negra, mas como ela sustenta isso? Como sustentar isso no colégio, com os amiguinhos, na vida social dela com sanidade mental? Porque nós precisamos também olhar para a saúde mental das crianças negras diante de tantas coisas que ocorrem.

A segunda questão é o papel da super heroína. Eu sou uma mãe solteira e os desafios são infinitamente maiores, em relação às tomadas de decisão, os processos de educação. Vou falar que não é fácil, mas eu estou muito presente e consciente.

No mais, tem as questões do negócio da Feira Preta, que é como um filho para mim. É um processo desgastante, árduo - num sentido de ter muito trabalho. Obviamente, não é árduo cuidar da minha filha, mas é estar extremamente vigilante no processo identitário dela.

No dia a dia, ela participa comigo. Ela vai na Feira Preta, fica comigo na Casa PretaHub. Eu trago ela para esse espaço, para que ela entenda que ambiente é esse e qual é o legado que a minha geração está deixando para a geração dela. Não é só ser mãe, não é só ser trabalhadora.

Como foi o processo de produzir um livro tão forte como ‘Preta Potência’?

Eu tinha um desejo antigo de fazer o livro, não sobre as minhas histórias, mas sobre a Feira Preta, poder contar o que foi acontecendo ano a ano, cada desafio e cada conquista. 

Quando a editora me procurou, há dois anos, eles queriam escrever um livro sobre empreendedorismo e contar a história da Feira Preta a partir do meu olhar. Nós fomos construindo, mas eu disse que não faria sentido eu escrever sozinha, até porque não tenho a habilidade da escrita. Então, eu quis contar com outras pessoas, porque a perspectiva da Feira Preta é coletiva e tem esse senso de comunidade. 

O livro foi feito por muitas mãos. Eu, a Ana Lu, que é docente na UFBA, a Chris Gomes e a Semayat Oliveira. São quatro gerações de mulheres negras colocando conhecimento, energia, escrita e poesia.

Não daria pra ser diferente se não fosse uma escrita coletiva, um processo de muitas mulheres olhando para esse tema de pretas potências - que não é só da minha vida, não é só da minha família, não é só da Feira, mas de muita gente.

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