Quando a escolha do que comemos se torna um ato revolucionário

Quando a escolha do que comemos se torna um ato revolucionário

Negócio de comida incentiva empoderamento e autonomia financeira de mulheres na periferia de São Paulo, além de ampliar acesso a orgânicos e gerar baixo impacto ambiental

Maure Pessanha

27 de fevereiro de 2020 | 17h03

“Voltar à cozinha é um ato político”, afirma o jornalista norte-americano Michael Pollan, autor de livros no qual combina história, ciência e filosofia para repensar a relação de diferentes gerações com a comida. Na minha percepção, norteada pelo recorte da população brasileira em situação de vulnerabilidade econômica, enxergo que a falta de acesso a alimentos saudáveis e a informações nutricionais – para quem consome – e, na outra ponta, a baixa remuneração para quem faz parte dessa cadeia produtiva, como o pequeno produtor familiar, têm gerado danos sociais relevantes.

Esse desequilíbrio tem impactado diretamente a saúde e a geração de renda de uma parcela significativa da população. Vale lembrar que uma alimentação inadequada pode provocar o aumento de doenças como diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares e obesidade. Ou seja, atuar para solucionar essa assimetria de acesso e de oportunidades para nutrir o cidadão é um trabalho da sociedade, não apenas uma atitude do indivíduo.

Nesse cenário, vejo que há iniciativas empreendedoras que nascem com a proposta de mudar essa lógica vigente. São negócios de impacto social que estão mostrando que é possível oferecer alternativas alinhadas que respondem ao desafio de acesso à alimentação saudável para quem consome e à remuneração justa para quem produz. Essas iniciativas foram mapeadas em 2017 pela Tese de Impacto Social em Alimentação, conduzida pela Artemisia em parceria com a Fundação Cargill. No levantamento, uma das oportunidades identificadas foi a de “acesso a refeições saudáveis”.

Dentro dessa lógica se destaca a duLocal – uma startup de gastronomia com impacto social e ambiental positivos. Fundada em 2018 por Felipe Gasko, o negócio funciona como uma plataforma que conecta pequenos produtores locais de orgânicos a uma rede de cozinheiras-empreendedoras de Paraisópolis, em São Paulo, para entregar pratos 100% vegetais, frescos e gastronômicos via delivery.

Felipe Gasko, fundador da duLocal. Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão-13/9/2019

Na prática, o negócio ajuda o produtor a escoar a produção, oferece oportunidade de geração de renda a cozinheiras-empreendedoras de bairros periféricos, além de criar disponibilidade de comida orgânica e saudável para a população. O cardápio é desenvolvido por uma chef que utiliza os insumos disponíveis na estação; as cozinheiras são capacitadas e recebem visitas periódicas; os pratos são vendidos via aplicativos de delivery ou via WebApp do próprio negócio. Hoje, a duLocal conta com mais três sócios envolvidos na operação: Eduardo Donato, Roberta Rapuano e Rafaela Soldan.

Como resultado de um envolvimento intenso dos empreendedores no processo de aceleração da Estação Hack – parceria da Artemisia com o Facebook – o negócio tem consolidado a atuação. No início de janeiro, os empreendedores inauguraram a primeira loja-conceito dentro do Civi-co, coworking para empresas de impacto socioambiental em São Paulo. Na área aberta ao público, além dos pratos, são vendidos quitutes e bebidas alinhadas aos princípios da marca, que foi a vencedora do Planeta Startup, reality show da TV Bandeirantes.

Um negócio de comida que vai além: incentiva o empoderamento e a autonomia financeira de mulheres; amplia o acesso a alimentos orgânicos e gera renda nas periferias. A duLocal, nas palavras do próprio empreendedor em entrevista para o Estado, cumpre o duplo objetivo de entregar pratos feitos na hora e servir como alavanca social. Empreender um negócio de impacto em alimentação é um ato político, com reflexos econômicos e socioambientais.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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