Vinicius Pimenta
Vinicius Pimenta

Sextech inova com plataforma de contos eróticos em áudio na pandemia

Startup Tela Preta fatura R$ 220 mil no primeiro ano com 5 mil clientes; empresa surfa no sucesso dos nichos de bem-estar sexual e de podcast, em alta global com isolamento social

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 05h00

De um lado, um segmento que ganhou bastante com o cansaço das telas: o setor de áudio e voz. Do outro, um mercado que chamou a atenção dos consumidores na pandemia: o de bem-estar sexual. Da junção desses dois, lá em 2020, quatro sócios criaram uma startup de contos eróticos narrados.

A ideia da Tela Preta é pré-pandemia, mas teve que ser colocada no ar às pressas quando os empreendedores perceberam que o isolamento social se tornaria uma realidade no Brasil. Os dados atestam que a decisão foi acertada. A consultoria KBV Research estima que o mercado de bem-estar sexual deve movimentar globalmente US$ 125 bilhões até 2026. 

Uma parte desse mercado já tem sido impulsionada durante a pandemia. De acordo com uma pesquisa do Portal Mercado Erótico, o número de empreendedores no setor triplicou no Brasil em 2020. Foram criadas as chamadas sextechs (startups do segmento sexual) e até grandes varejistas de outros setores começaram a investir no bem-estar sexual, como a Amaro.

O setor de áudio também não fica para trás, com os podcasts. Segundo pesquisa realizada pela Kantar Ibope e por O Globo, o número de brasileiros que ouvem podcast regularmente aumentou 33% no ano passado, totalizando 28 milhões de pessoas. O Spotify atribuiu o recorde de 30 milhões de novos assinantes premium, conquistado no ano passado, a uma estratégia de priorização dos podcasts às músicas. Hoje, há 1,5 milhão de podcasts na plataforma e quase 63 milhões de pessoas os escutam (21% da base).

“Passando mais tempo em casa, as pessoas estão escutando mais áudio. Já existem empresas de áudio erótico fora do Brasil que registraram aumento de download. Esse é um mercado maduro lá fora. Já vemos startups recebendo investimentos”, explica Lídia Cabral, especialista em tecnologia e inovação e fundadora da Tech4Sex, plataforma de tendências e pesquisas em sextechs. Uma dessas startups é a espanhola Emjoy, que levantou uma rodada de capital semente de € 3 milhões no ano passado. O foco da empresa são contos eróticos narrados e áudios-guia sobre bem-estar sexual.

Por aqui, a brasileira Tela Preta funciona por um modelo de assinaturas, que vai de R$ 14,99 por mês a R$ 149,90 por ano. Por esses valores, o cliente acessa os cerca de 200 áudios eróticos da plataforma, que é alimentada com três contos inéditos a cada semana. Os áudios são divididos por categorias, como mais leves e mais pesados, masturbação guiada, LGBTI+, com brinquedos e ASMR (resposta sensorial autônoma do meridiano, uma sensação prazerosa de formigamento provocada por alguns sons). 

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“Os contos variam em estilo e duração, mas o que temos pedido para os narradores é tentar manter uma média entre sete a 10 minutos de áudio, principalmente porque o público feminino costuma demorar um pouco mais para entrar na história e chegar no clímax”, explica Laís Conter, cofundadora da empresa ao lado de outros três sócios.

Ao longo de quase um ano e meio de existência, a startup já atingiu 5 mil clientes, cuja maior parte é composta por mulheres de 25 a 35 anos. “É um conteúdo que repercute muito em um mercado mais jovem. Além das pessoas hoje estarem cansadas de telas, com o áudio ninguém sabe o que você está escutando, então traz uma certa privacidade. Isso termina facilitando a entrada das mulheres nesse universo. É diferente de você comprar um vibrador, por exemplo”, explica Lídia Cabral.

Para atender todos os públicos, são contratados nove narradores para todas as temáticas. “Tem mulher narrando conto para mulher, homem para homem, homem para mulher e mulher para homem. Nós não usamos descrição física nos áudios, prezamos por isso para que todas as pessoas possam se inserir naquela história”, conta Laís. Ainda este mês, a empresa pretende realizar uma captação de novas vozes para o time de narradores.

A startup - cujo nome nasceu porque o idealizador, Fábio Chap, gravava os áudios tapando a câmera do celular com uma fita isolante - fechou o primeiro ano de vida com um faturamento de R$ 220 mil e com meta de atingir R$ 500 mil até abril de 2022, quando completará dois anos. 

Além dos áudios, que são o carro-chefe, eles começaram a investir também em um produto físico - um jogo de desafios e perguntas para casais (R$ 69,90) - e uma versão personalizada dos contos a partir das fantasias do cliente (R$ 597). Outro plano é disponibilizar contos escritos, pensando no público que gosta de ler.

“Também temos pensado em fazer eventos. O nosso maior desafio hoje é conseguir nos promover, uma vez que as regras das redes sociais (que restringem conteúdos relacionados à pornografia e ao erotismo) são uma barreira para que a gente atinja um público maior”, explica Laís

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