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Bem-estar sexual ganha novos players de cosméticos e moda

Com valorização do autocuidado na pandemia, 'sexual wellness' ganha espaço entre empresas; marcas reclamam de regras para postagens nas redes sociais

Fernanda Bastos, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h50

Autoconhecimento, naturalidade e autocuidado. Perpassado por esses três conceitos, o sexual wellness ou bem-estar sexual veio para quebrar tabus e superar preconceitos e, em alta, o segmento ganha novos adeptos constantemente. Depois de a varejista de moda Amaro ter entrado no nicho, agora a marca de cosméticos Simple Organic também lançou novos produtos.

Sexual care é o novo skincare” é o slogan utilizado pela Simple Organic, empresa de cosméticos orgânicos, veganos, naturais, cruelty-free e sem gênero, que aproveitou a época do Dia dos Namorados para lançar o seu segmento de sexual care. A empresa investiu em um lubrificante íntimo natural e orgânico, batizado de Enjoy.

A fundadora e CEO da Simple Organic, Patrícia Lima, traça uma comparação entre o sexual care e o skincare (cuidados com a pele). “Cada vez mais as pessoas têm se permitido descobrir a si e o que está relacionado com o seu prazer. Assim como o skincare é algo rotineiro, o prazer e a saúde sexual também deveriam ser, afinal são tão importantes quanto o bem-estar físico e emocional.”

O lubrificante, sem parabenos, silicones ou petrolatos, apresenta em sua formulação ácido hialurônico, que, além de lubrificar, permite a hidratação e a restauração da umidade na região aplicada. O kit da campanha de lançamento da linha de bem-estar sexual inclui velas aromáticas estimulantes e um baralho Kama Sutra inclusivo e agênero com sugestões de posições sexuais para héteros, LGBTQIA+, grávidas e pessoas que usam cadeira de rodas.

De acordo com Patrícia, no dia do lançamento, o primeiro lote dos kits esgotou e as vendas representaram 36% do faturamento do mês de maio. A CEO enfatiza que o lubrificante já era um pedido antigo da comunidade e pode ser o complemento de um momento de autodescoberta. Os resultados mostram o vigor do segmento. A consultoria internacional KBV Research estima que o mercado de bem-estar sexual deve movimentar globalmente US$ 125 bilhões até 2026. 

Para Tatyannah King, pós-graduanda em terapia sexual na Universidade de Widener (EUA), há uma relação da alta do setor com o aumento do autoconhecimento, com a naturalização do debate coletivo sobre saúde sexual e cuidados. “O bem-estar sexual é uma mistura do bem-estar físico, mental e social em relação à sexualidade. É a certeza de estar confortável consigo mesma, com o parceiro e com as decisões que está tomando em relação à sua vida sexual”, destaca.

Além disso, os negócios são incrementados com uma valorização da diversidade. “A revolução sexual que estamos vendo agora está acontecendo porque as mulheres e outros grupos subrepresentados, como LGBTQIA+, não estão mais tolerando o sacrifício de seu bem-estar pela falta de compreensão da sexualidade nas sociedades”, destaca Rocio Pelayo, fundadora da Hablemos SexTech, consultoria focada em tecnologia sexual. Para ela, esse despertar é o catalisador da mudança da velha indústria do sexo para a nova indústria sextech.

A liberdade além da moda

“Tudo é político" é a frase estampada em uma das blusas da marca Fredericas. Roupas com personalidade, que permitam movimentos e promovam a sensação de liberdade, são o mote do empreendimento cearense. Com peças de tamanho 36 ao 50, podendo chegar aos 54, a loja encarou o desafio de levar também a liberdade sexual para as suas clientes.

Desde março, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, a marca passou a vender produtos que promovem o bem-estar sexual, como vibradores, óleos, lubrificantes, velas, brinquedos e anéis penianos.

“A minha ideia é trazer profissionais, psicólogas e sexólogas para discutir essa questão dentro da rede, antes de ampliar os produtos. O que eu percebi é que o nosso público ainda é muito cru nesse sentido. A gente atende mulheres de 25 a 60 anos, e as mulheres mais velhas têm relatado tanto curiosidade como inexperiência com o próprio corpo”, diz a sócia-fundadora da Fredericas, a publicitária Mariana Figueira.

Segundo Rocio Pelayo, a América Latina está começando a consumir mais quando se trata de aprender sobre sexualidade. “Estamos vendo a necessidade de educação inclusiva e conscientização sobre sexualidade. A pandemia fez com que muitas pessoas olhassem para si mesmas, suas situações, suas vidas, e isso inclui seus desejos.”

Apesar disso, negócios como a Fredericas, além de enfrentar os tabus da sociedade, precisa ultrapassar outra barreira: o algoritmo das redes sociais. “O Instagram não entrega conteúdos que falam sobre sexualidade. A gente tem dificuldade na divulgação dos produtos, em usar termos como erótico, sexual. vulva, vibrador. Nenhuma dessas palavras é bem vista pelo Instagram e simplesmente a gente entra em um shadowban (banimento temporário)”, destaca Mariana, segundo quem o alcance aos clientes cai bastante, mesmo no formato stories. 

Para Tatyannah King, isso pode inibir os empreendedores do setor, com medo de ter conta desativada. “Plataformas como Instagram e Facebook mudaram suas diretrizes recentemente. Os usuários não podem postar conteúdo sexual, incluindo emojis sugestivos ou referências a ‘umidade’ ou ao emoji de berinjela, insinuando uma ereção.”

A Fredericas, para driblar esse problema, apostou em comunicar sobre novidades no catálogo por meio de mensagem de WhatsApp para as clientes.

Nativa na era do bem-estar sexual

A Lubs, empresa de sexual care que tem como protagonistas os lubrificantes com ingredientes naturais, já nasceu em 2020 com a ideia de normalizar o prazer e também dialogar sobre a sexualidade com as pessoas de forma leve, sem gênero e inclusiva. 

Após um período de estudos nos Estados Unidos, Chiara Sandri, CEO da marca, percebeu um mercado em potencial no Brasil. “Não encontrava produtos de qualidade, com ingredientes naturais, embalagens sofisticadas e uma comunicação mais ampla, sem ser apelativa”, destaca.

“Acreditamos que cuidar da sexualidade é também uma forma de autocuidado. Parece óbvio, mas acabamos esquecendo do tanto que fomos reprimidos e que o assunto se tornou um tabu”, destaca Chiara Sandri, CEO da Lubs. A marca defende a cultura dos corpos livres, se define como uma marca sem gênero, para que todos se sintam representados, busca trazer a diversidade e deixar o tabu de lado, sintetiza a CEO.

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Os produtos mais vendidos da Lubs são o Jambu Vibes, lubrificante que possui em sua formulação o jambu, planta conhecida por seu efeito “vibratório” (de tremor da pele), e o Naked Taste, que é neutro e imita a lubrificação natural. “Além deles, a Magic Potion é um shot diário à base de maca peruana, mana cubiu e cacau, ingredientes conhecidos por estimular a energia sexual”. Todos os produtos da marca são veganos, naturais e não são testados em animais.

Qual é o caminho para sentir o bem-estar sexual

“Promover saúde sexual é atuar na qualidade de vida das pessoas”, destaca a médica Marcella Maia. Para a ginecologista da Clínica Horaios, alcançar o bem-estar sexual significa chegar de forma leve ao autoconhecimento da própria sexualidade. “Ainda enfrentamos desafios, tabus e preconceitos. Algo que deveria ser visto como natural e até mesmo fisiológico ainda é trazido de forma tímida. A ideia do movimento é explorar o assunto com naturalidade.”

Para Rocio Pelayo, “o primeiro passo é ser honesto consigo mesmo sobre o que você acredita sobre sexo e o papel que ele desempenha em sua vida”. A especialista acredita que cuidado sexual se baseia nas necessidades e nos desejos individuais e pode ser visto de muitas maneiras diferentes. 

“Acredito que o cuidado sexual se desenvolve à medida que aprendemos mais sobre nós mesmos, e não há uma maneira de fazer isso, mas o autocuidado deve definitivamente incluir o bem-estar sexual”, enfatiza.

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