Agustin Marcarian/Reuters
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Pequenas empresas argentinas enfrentam futuro 'aterrorizante'

Mesmo após negociação de dívidas, país precisa que pequenos negócios paguem impostos para cumprir obrigações com credores e atrair novos investimentos

Eliana Raszewski e Marina Lammertyn, Reuters

20 de agosto de 2020 | 15h54

A empresa têxtil de Francisco Lurueña, nos arredores de Buenos Aires, sobreviveu a 39 anos de inúmeras crises econômicas. Agora está quase fechando, impactada pelo novo coronavírus após dois anos de recessão, inflação alta e crise da dívida. 

Sua empresa, a Rayvis SA, que tem 18 funcionários e duas fábricas de fios de acrílico, viu as vendas despencarem e interrompeu a produção por meses, um dos milhares de pequenos negócios que estão definhando no momento em que a Argentina precisa desesperadamente deles para reanimar sua economia.

"Agora é o pior momento da história da empresa", disse Lurueña. "Não sei quanto tempo temos. Recebemos ajuda de amigos, familiares. Estamos no limite, praticamente à beira do default absoluto." 

A Argentina, que acabou de fechar um acordo para reestruturar a dívida externa de US$ 65 bilhões, precisa que empresas como a Rayvis paguem impostos para que possa cumprir suas novas obrigações com os credores e atrair investimentos muito necessários para o país.

Embora o acordo da dívida tenha sido fundamental para estabilizar a economia, será em vão se a Argentina não puder recuperar o crescimento necessário para sair de um buraco fiscal profundo e repor as reservas estrangeiras esvaziadas, disseram credores, analistas e autoridades.

"O governo entrou na pandemia com desequilíbrios fiscais e monetários significativos que efetivamente o forçaram a deixar de pagar sua dívida local", disse Patrick Esteruelas, chefe de pesquisa da EMSO Asset Management. "Agora eles enfrentam um problema ainda maior por causa da cicatriz pós-covid."

No primeiro semestre do ano, 28 mil pequenas empresas argentinas faliram, apesar dos esforços de resgate do governo, segundo os dados da associação de pequenas e médias empresas do país compartilhados com a Reuters, mais em seis meses do que nos quatro anos anteriores juntos.

Muitas dessas empresas, que respondem por cerca de 70% dos empregos na terceira economia da América Latina, estão indo à falência, de acordo com uma dúzia de proprietários de empresas, trabalhadores e funcionários da indústria em toda a Argentina.

“As (pequenas e médias empresas) que fecharam já viviam uma crise econômica desde o ano passado - este ano tiveram a chance de avançar ou afundar completamente, e acabaram afundando”, disse Daniel Rosato, presidente da IPA, associação de indústria de pequenas e médias empresas. "Foi essa pandemia que selou o destino deles."

O presidente peronista de centro-esquerda Alberto Fernandez enfatizou o papel das pequenas empresas na recuperação pós-pandemia e lançou empréstimos a juros baixos para empresas e financiamento para ajudar no pagamento de salários como parte de um pacote de auxílio mais amplo de 1,4 trilhão de pesos (US$ 19,9 bilhões).

"O objetivo número 1 de nosso governo para a pós-pandemia será a criação de empregos", disse o ministro da Economia, Martin Guzman, apontando as políticas para impulsionar a demanda e o acesso ao crédito.

Hotelaria, restaurantes e outros setores afetados

A covid-19 atingiu duramente o centro de produção e consumo da Argentina em torno da capital, Buenos Aires, onde medidas de bloqueio total estão em vigor desde 20 de março. Setores como hotelaria, alimentação, lojas de roupas e construção foram os que mais sofreram.

Santiago Olivera, 43 anos, disse que fechou seu restaurante 'Bad Toro' depois de ser afetado pelo lockdown em toda a cidade, que ainda permite apenas sistema de entrega de comida. "A realidade é que centenas de lojas estão fechando todos os dias", disse ele, acrescentando que inicialmente havia feito um empréstimo para manter os pagamentos, mas acabou desistindo.

“Se continuássemos assim iríamos carregar cada vez mais dívidas e era impossível manter aluguéis, salários e serviços; impossível pagar tudo isso com as instalações fechadas”.

O apoio estatal ajudou, mas Rosato disse que o acesso a empréstimos se tornou cada vez mais difícil para empresas deficitárias que precisavam provar que podiam pagá-los. Em algumas regiões, os programas de empréstimos também foram interrompidos assim que os bloqueios totais foram suspensos.

Na província rica em petróleo de Neuquen, cerca de 1.200 quilômetros a sudoeste da capital, empresas desde produtores de energia a varejistas também estão lutando, com a queda dos preços do petróleo agravando o impacto da baixa demanda doméstica.

“Você anda pela rua e antes da pandemia havia uma loja fechada por quarteirão devido à crise. Agora são três”, disse Daniel González, presidente da Câmara de Comércio de Neuquén.

Ele disse que subsídios governamentais de emergência que pagam até 50% de alguns salários com um teto de 33.000 pesos argentinos (US$ 451,44) ajudaram, mas não compensaram a queda nas vendas, embora fosse difícil para as empresas "já pesadamente em dívida" pedir mais empréstimos.

"Estou preocupado com o cenário pós-pandemia, acho que estamos em uma situação muito complicada da qual será muito difícil sair."

A pandemia também aumentou a pressão sobre os setores manufatureiros que há muito lutavam na Argentina - desde a zona de produção de baixa demanda de eletrônicos e eletrodomésticos até a indústria de peças automotivas. Esta última viu 47 empresas fecharem desde 2019, 30 delas neste ano, de acordo com a AFAC, uma associação da indústria de peças para automóveis.

Apenas o congelamento dos salários dos trabalhadores e a redução de horas do expediente evitaram grandes demissões no setor de eletrodomésticos e eletrônicos até agora neste ano, disse o chefe da associação da indústria, Federico Hellemeyer.

Federico Cuomo, dono de uma empresa que distribui bebedouros de água, descreveu o clima entre as empresas como "assustador". "A maioria das empresas está debatendo a respeito de como sobreviver", disse ele.

A tempestade perfeita de crises deixou as empresas argentinas em um estado enfraquecido, disse o ex-ministro da Economia da Argentina, Ricado López Murphy.

"Se por cima dessa grande fragilidade você recebe um tremendo choque externo, então é claro que você terá uma crise monumental", disse ele. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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