Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Mulheres à frente de fintechs, minoria da minoria, contam desafios do setor

Da desconfiança dos investidores à síndrome da impostora, fundadoras de startups financeiras são só 5% do total e enfrentam obstáculos em nicho masculino; veja dicas para empreender

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

20 de março de 2022 | 05h02

A luta por equidade de gênero ocorre em todas as áreas e níveis do mercado. Há alguns segmentos, porém, em que a distância a percorrer é maior. É o caso de empreender em startups de tecnologia focadas em serviços financeiros, as chamadas fintechs

De acordo com o levantamento Fintech Diversity Radar, lançado em 2021, somente 1,5% das fintechs no mundo são fundadas unicamente por mulheres. Quando elas estão associadas a homens, o número melhora um pouco, mas segue baixo. Na Ásia, a análise revela que 7,7% dessas empresas têm mulheres no comando; na América do Norte são 4,8%.

A situação é parecida no Brasil, segundo o estudo Female Founders Report, parceria da Distrito Dataminer com Endeavor e B2Mamy. A pesquisa analisou as startups brasileiras como um todo e revelou que menos de 5% são fundadas apenas por mulheres, enquanto outras 5% têm um time híbrido de fundadores. Ou seja, 90% são fundadas por homens, apesar de dados mostrarem que startups com mulheres no quadro societário tendem a ter resultados 25% melhores.

Na ABFintechs (Associação Brasileira de Fintechs) ocorre o mesmo: apenas 5% das cerca de 500 associadas têm mulheres como fundadoras ou em cargos de direção. Para Mariana Bonora, diretora da associação e cofundadora da Bart Digital, que conecta o financiamento agrícola à economia digital, o cenário é fruto de crenças limitantes.

“Tem que ter força e autoestima para empreender porque você é responsável pela saúde e pelo crescimento do negócio”, diz. “Mas existem preconceitos sobre as mulheres. Mercado e investidores duvidam que a gente tenha a força necessária para atuar em uma área tão competitiva quanto o financeiro.”

Apesar de não gostar de dividir as pessoas em grandes “caixas”, como gênero e faixa etária, ela reitera o dado de que as fintechs fundadas por mulheres ou com fundadores mistos têm resultados superiores às que têm quadro societário exclusivamente masculino e revela que 60% do time da Bart é composto por mulheres. 

“Eu acredito que a diversidade seja o segredo para resultados melhores”, fala. A empresária acrescenta que a maioria das mulheres que empreendem no segmento são ex-executivas com carreiras mais avançadas e experiência. “Tem uma síndrome de impostora que atinge grande parte das mulheres. Tem que ser mais direta e cara de pau, se cercar de habilidades que complementam seus pontos fracos e brigar pelo que você acredita.”

Desmistificar o 'fin' e o 'tech'

Esse foi o caminho trilhado por Ana Zucato, cofundadora da Noh - fintech com foco em finanças sociais cujo primeiro produto é um aplicativo que funciona como uma carteira digital compartilhada. Formada em Administração, ela teve um primeiro contato com tecnologia ao trabalhar em um e-commerce de moda. Depois entrou no Guiabolso, onde começou a descobrir o que era o produto de fintech. 

“Eu não sabia nada de ‘fin’ nem de ‘tech’. Aí o Thiago Alvarez, CEO da empresa, disse que ele também não - e que isso é empreender. A gente ia aprender junto”, lembra. Depois de quatro anos na empresa, ela trabalhou uma temporada de quase dois anos na Intuit, uma das maiores fintechs do mundo, a fim de se especializar em produto.

“Foi um divisor de águas. Depois de aprender com os melhores, eu vi que sabia fazer”, fala. “A ideia da Noh veio dos tempos do e-commerce, da casa dos meus pais e de quando eu mesma casei. O brasileiro compartilha o pagamento de tudo, 85% da população divide as despesas, mas a estrutura bancária brasileira é feita para uma pessoa só.”

A empreendedora diz que a ideia de mexer com tecnologia assustou no começo por ser um ambiente masculino, mas que, depois de encarar uma série de desafios, ficou mais destemida. “Os investidores me pediam mais números, mais evidências do que para os homens, apesar de o meu modelo ser mais simples do que tantos outros”, relata. “Dá para perceber que alguns se perguntam ‘será que ela sabe mesmo?’ ou ‘o que ela está fazendo aqui?’. Mas agora eu já entendo que quem tem que mudar são os outros, não eu.”

Após cruzar com mulheres “surrealmente boas de fintech”, ela é outra que fala do sentimento de síndrome de impostora. “A gente tem que entender que fintech mexe com inovação, disrupção. É desconhecido e isso assusta. Só que ninguém sabe fazer, só finge que sabe”, ela observa.

Novos espelhos

Formada em estatística e fundadora da Keycash, Clarissa Vieira conta que passou por duas transições de carreira antes de abrir a fintech, especializada em crédito com garantia. Ela fala que o primeiro passo foi se libertar do “sobrenome da empresa”, que a gente carrega quando trabalha anos na mesma corporação, para descobrir quem ela era. O segundo foi entender que precisa ter estômago. 

“As pessoas romanceiam muito a startup, mas a verdade é que você passa a conviver com incerteza. Tem momentos em que a corda estica muito e você tem que ceder; tem que passar pelas situações falando que vai dar certo porque você acredita naquilo”, observa.

Para ela, o baixo número de empreendedoras no segmento vem também da falta de modelos para se espelhar, principalmente para mulheres que têm filhos. “A gente pensa em como fazer, ainda mais não tendo um colchão financeiro que permita se arriscar”, diz. “A mulher acaba se autolimitando, se vendo travada no combo CLT e segurança. Porque empreender é se dividir entre o tripé investidores, família e filhos, assumir juridicamente muitos riscos, saber que você vai errar. Não tem zona de conforto.”

No caso da Keycash, no entanto, assim como no da Noh, as mulheres já compõem mais de 50% do time - e essa é uma forma de criar esses espelhos e usar a própria voz em prol do lugar de fala, segundo ela. “É uma mulherada muito empoderada de 20 e poucos anos que inclusive vai contra a vontade dos pais, que criam a gente para ir atrás da estabilidade do mundo corporativo. São mulheres jovens que já têm um mindset mais fluido.”

Cinco dicas para mulheres que querem fundar fintech

  1. Descubra o problema

    “É fundamental se debruçar sobre um tema que nos chama. Tem problemas financeiros e soluções passando na nossa frente o tempo todo. Quais são os problemas que me tocam? Que conhecimentos eu tenho para contribuir para uma solução? Montar uma empresa que resolve dores é uma baita contribuição”, diz Clarissa Vieira, da Keycash

  2. Estabeleça contatos

    “Mantenha seus relacionamentos, crie seu networking e fale com as pessoas, ouça a história por trás do que você lê ou ouve sobre elas. Seja destemida em estabelecer contatos porque ninguém é inalcançável. Aí pegue dicas e use-as. Empreender é muita incerteza - a única certeza é que tem gente ajudando”, afirma Ana Zucato, da Noh

  3. Tenha equipe de confiança

    “Entenda como produzir seus serviços ou produtos. Se você tiver uma empresa que depende de tecnologia e você não entende nada disso, vai precisar de uma pessoa de confiança que entende. A minha dica aqui é: se associe a pessoas de extrema confiança e que vão aguentar o ritmo da sua empreitada”, conta Vanise Zimmer, do ElasBank 

  4. Siga seu propósito

    “Tenha um fio condutor - e ele não é sempre linear. Mas é importante ter um drive, fazer algo em que você acredita. Com o empreender, a gente deixa de ser racional para ser emocional. Precisa de propósito para encontrar dentro de você a força para dar os próximos passos”, conta Clarissa

  5. Faça parcerias

    “Muitas vezes o seu serviço pode ser interessante para os clientes de uma outra empresa. Faça parcerias. E nós, mulheres, temos uma certa facilidade de juntar parceiras e andar juntas. Portanto, procure se relacionar com outras empreendedoras e conversem sobre os seus negócios. Nessas horas sempre surgem ideias bacanas”, diz Vanise

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