Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Moda de segunda mão cresce na esteira da economia circular

Vendas pela internet e geração pautada por sustentabilidade impulsionam ‘recommerce’; desafio é ampliar consumo consciente e também educar cliente que ‘desova’ peças em brechós

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2021 | 16h00

Em um mundo onde a indústria da moda emite cerca de 2,1 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa e a produção convencional de algodão responde por 22,5% do uso total de pesticidas, segundo a Global Fashion Agenda, negócios pautados na economia circular valorizam o uso de roupas de segunda mão e crescem pela demanda de um público mais conectado à internet e preocupado com as próprias ações de sustentabilidade. O conceito de recommerce, ou comércio reverso, ganha espaço e abre portas a novas empresas.

Segundo um relatório da Thredup divulgado neste ano, o mercado de revenda de roupas deve dobrar até 2025 e faturar R$ 77 bilhões em todo o mundo. O crescimento é motivado pela maior qualidade dos produtos ofertados e pela facilidade de vender e comprar online. Somente no ano passado, 36,2 milhões de pessoas venderam peças usadas pela primeira vez, um movimento derivado da pandemia que, para muitos, deixou as roupas paradas no guarda-roupa.

Mas, em vez de vender, por que não alugá-las? Essa é parte da proposta da Closet Bobags, em que o cliente pode alugar uma roupa para experimentar antes de comprar. Isso permite avaliar se a peça realmente faz sentido no corpo e no dia a dia da pessoa. Depois desse "drive thru", ela decide se compra ou devolve. Por R$ 199, é possível ficar quatro dias com um vestido estampado da Gucci, por exemplo. Estima-se que 30% dos aluguéis se convertam em venda.

“É uma forma de negócio não linear, em que a gente consegue ter ciclos longos, com produtos de qualidade que precisam durar para serem usados melhor”, diz Isabel Braga Teixeira, fundadora e CEO da empresa. Roupas, bolsas, acessórios e óculos são fornecidos por marcas, pessoas físicas e a partir de um inventário próprio comprado de segunda mão. Personalidades como Claudia Raia e Malu Mader possuem acervo na plataforma, cuja receita é destinada a ações sociais.

A empreendedora conta que, neste ano, a oferta de produtos cresceu 500% em relação ao ano passado. “A gente vê um movimento forte das pessoas terem passado mais de um ano em casa vendo que não fazia sentido ter tanta coisa no armário.” O relatório da Thredup estima que, no mundo, 9 bilhões de peças de roupa quase não são usadas ou ficam ociosas nos armários.

Há dez anos com o negócio, Isabel acredita que ainda é preciso criar um mercado. “O efeito da economia circular ainda é pequeno, mas tem cada vez mais marcas olhando para isso.” O ambiente agradece: comprar itens usados emite 17,4 vezes menos gás carbônico na atmosfera do que adquirir uma peça nova, além da economia de energia e água.

Economia circular depende de consumidor consciente

“A ideia de estender a vida útil de um produto é inerente à economia circular. Porém, existe um desafio que é o reflexo dessa economia compartilhada, de venda de produtos de qualidade e preço mais barato. Será que também não vai gerar um novo consumo, que quando a pessoa vê barato compra dois em vez de um?”, questiona Beatriz Luz, diretora da Exchange 4 Change Brasil, organização que impulsiona a transição para a economia circular.

Ela diz que, se de um lado há pessoas interessadas em gerar impacto social e ambiental, do outro precisa haver uma cultura que também preza por isso. A especialista observa que a pandemia fez crescer esse mercado porque os recursos ficaram escassos, então aceita-se comprar algo usado. A percepção se confirma nas 33 milhões de pessoas que compraram roupas de segunda mão pela primeira vez em 2020, das quais 76% planejam investir mais nesse setor até 2025.

Beatriz considera o movimento positivo, porque “otimiza os recursos naturais e gera receita”, além do potencial de impactar uma mudança maior na indústria. “Se a tendência do segundo uso crescer, o fabricante vai ter de aumentar a qualidade do produto, o que gera valor ao longo do tempo, que é outro princípio da economia circular.”

Pautada no upcycling, Sarah Almeida fundou a marca Florent em 2019, que transforma uma roupa em outra diferente e usa a técnica de desfibragem para criar peças novas. O objetivo é manter uma matéria-prima em uso e diminuir poluentes e resíduos. A empresária conta que muitos clientes compram mais pelo design e estilo do que pelo conceito. Tanto que só descobrem o que é economia circular quando chegam à marca.

Então, para disseminar os princípios, ela investe em conversas sobre o tema nos stories do Instagram, em posts no feed e no blog e pretende fazer vídeos mais educativos. “A gente sente que o mercado está amadurecendo, principalmente porque tem alguns gargalos que fazem a pessoa entrar nesse universo do consumo sustentável, que é o lifestyle vegano, mais fashionista, que gosta de peça única. E a gente está nesse trabalho de mostrar o que a gente se propõe a solucionar", diz Sarah. Por questões internas, ela não fala do faturamento, mas afirma que a base de clientes aumentou.

Moda circular é impulsionada pelo e-commerce

Gustavo ChapChap, diretor do Comitê de e-Commerce da Associação Brasileira dos Agentes Digitais (Abradi), diz que as redes sociais e as plataformas de e-commerce deram alcance maior à economia circular. Para os pequenos empreendedores de moda que atuam com o comércio reverso, ele entende que os canais de venda já consolidados são um caminho favorável.

“Elas conseguem trazer um nível de acesso e alcance enormes para a pessoa que teria um alcance limitado e lidaria com uma série de rotinas pós-venda. Elas cobram uma comissão que não é barata, mas entregam pagamento seguro, garantia de recebimento, ferramenta para envio, equipe de atendimento, investem em publicidade e trazem clientes de vários lugares. Isso só é possível pelo digital”, afirma.

Para oferecer uma condição mais facilitada, o engenheiro de computação Daniel Rizzuto se uniu a mais dois amigos para fundar, em maio deste ano, a startup Clozee. A rede social para compra e venda de roupas — usadas ou novas — cobra R$ 5 fixos mais 5% sobre o valor vendido. 

“Além do potencial do mercado, a gente entende que há potencial por meio da tecnologia, de condições comerciais mais justas e que possa causar grande impacto social e ambiental”, explica ele, segundo quem a empresa vai destinar todo o lucro de 2021 ao movimento de combate à fome Panela Cheia.

O empreendedor afirma que o aplicativo, diferentemente de uma plataforma web, foca mais na experiência do usuário, em um universo estritamente do vestuário, e na construção de uma comunidade. A ideia é criar um ecossistema com conteúdos em imagens, textos e vídeos sobre moda, em que as pessoas busquem inspirações para o uso das roupas ali vendidas.

Na plataforma, o usuário pode fazer publicações, seguir amigos e influenciadores. Embora a Clozee não esteja limitada à compra e venda de itens usados, Rizzuto conta que 80% dos itens comercializados são de segunda mão. Quem vende recebe todo o material para o envio, como embalagem e etiquetas, e não paga para despachar pelos Correios.

Também pensando no consumo consciente, a engenheira civil Adriana Ribinik criou um recommerce de moda que tem como diferencial o afeto. O Roupa Com Memória foi lançado em julho no Instagram e vende roupas de segunda mão com foco na alta qualidade. Algumas das peças são apresentadas com uma lembrança da última pessoa que a possuiu. “Essa blusa foi comprada para ir a uma festa, que foi ótima, animada, e eu dancei muito ao som de Demônios da Garoa”, diz uma delas.

Adriana, que é consumidora de vestuário de segunda mão, busca levar ao negócio a curadoria criteriosa que lhe faltava nos brechós que frequenta. Ela escolhe tudo pessoalmente e preza pelo estado, pelo estilo e pelo cheiro das peças. O projeto mais ambicioso dela é que as roupas nasçam com um QR code em que fiquem registradas memórias de pessoas que as usaram, com fotos e histórias.

Para levar adiante o propósito da economia circular, ela traz informações sobre as peças e consumo consciente. “É preciso quebrar paradigmas, mudar a cultura. Nesse momento, tem um boom de brechós, mas tem de ter cuidado para não ser um lugar só para desovar peças. Essa consciência vai desde um armário arrumado, conhecer seu estilo, saber quem está por trás do produto que você compra. Gostaria que o movimento fosse mais amplo do que apenas cool.”

Dicas para um negócio de moda de segunda mão

Beatriz Luz afirma que é sempre bom ter uma abordagem sistêmica e pensar em outras formas de negócio que não dependa apenas de doação de roupas. “De repente, fazer parceria com uma grande loja que precisa dispor ao seu consumidor um sistema de coleta de roupas usadas para você. Pode-se fazer uma plataforma com parceiros também.” O mais importante é ser genuíno e preservar o valor sustentável. “Se apertar a cadeia e quebrar a proposta de valor, quebra a confiança do consumidor.”

Se o negócio for online, Gustavo ChapChap fala que é preciso se colocar na posição do cliente e entender o que realmente é aderente a ele. O especialista orienta experimentar as plataformas já existentes para entender o hábito do consumidor. Outra dica é identificar o diferencial que pode ser entregue ao comprador, mesmo dentro de uma categoria de mais vendidos. Por fim, ele afirma que a humanização entre cliente e vendedor pode ser a chave da marca.

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