Taty Liberato
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Micro e pequenas empresas vão 46% melhor em ESG do que médias e grandes

Pesquisa avaliou 300 corporações em relação a propósito, estratégia de valor e liderança; entre os destaques, pequenos negócios como Dobra e Ana Health e a gigante Magalu

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2022 | 11h07

Os princípios ESG (ambientais, sociais e de governança) podem parecer estar restritos a grandes corporações, mas uma pesquisa realizada com 300 companhias de variados portes e segmentos no Brasil mostra que as micro e pequenas empresas saem na frente nos temas relacionados à Nova Economia, que inclui a sigla. Em relação ao ESG, elas possuem performance 46% superior às grandes.

Os resultados também apontam que as micro e pequenas empresas brasileiras superam as grandes companhias em cinco princípios: propósito, estratégia de valor, cultura consciente, aprendizado e mudança e liderança consciente. A pesquisa “Melhores para o Brasil”, da Humanizadas, obtida com exclusividade pelo Estadão e apresentada nesta quarta-feira ao público, avalia a qualidade das relações que as empresas desenvolvem e mantêm com clientes, colaboradores, lideranças, fornecedores e a sociedade em geral.

“A tendência, no Brasil, é que as micro e pequenas performem melhor. Claro que tem grandes exceções, mas, no geral, é mais fácil para uma empresa com 5 ou 20 colaboradores nutrir uma cultura saudável, ter um ambiente de segurança psicológica e cuidar da sustentabilidade, do que uma empresa com 30 mil ou 100 mil colaboradores”, explica Pedro Paro, CEO da Humanizadas, empresa de inteligência de dados que conduziu a pesquisa.

Nas micro e pequenas empresas, os empreendedores conseguem estar mais próximos das pessoas, sejam funcionários ou stakeholders, e com isso identificar problemas e ajustar a rota com mais rapidez, explica ele. A partir do momento em que a organização começa a crescer, os níveis hierárquicos crescem junto e aumenta a complexidade na gestão e na liderança, o que interfere no tempo de resposta aos erros. 

No entanto, há médias e grandes empresas que também foram muito bem avaliadas, como, por exemplo, Magazine Luiza, Liv Up, Sabin e Banco Inter. 

Para chegar às notas, que variam entre 11 níveis evolutivos (de AAA à E, sendo o primeiro o mais elevado), a Humanizadas identifica quem são os stakeholders da empresa e os aciona por uma pesquisa online, que coleta a percepção desses públicos em relação às organizações. Quem respondeu aos questionários não é identificado. Entre as 300 avaliadas, 200 tiveram notas acima de BBB, nível considerado de alta qualidade.

“Percebemos que quanto melhor é a qualidade das relações, melhor para o negócio. É melhor para o resultado financeiro a médio e longo prazos, para o bem-estar do colaborador, a reputação da marca e a satisfação do cliente. Consequentemente, investidores tendem a procurar mais a empresa”, analisa Pedro. Entre as avaliadas, 31% são micro (até 19 colaboradores); 33% pequenas (até 99); 26% médias (até 999) e 10% grandes (mais de 1 mil).

Além do negócio de impacto 

Entre as micro e pequenas empresas bem avaliadas figuram muitos nomes do empreendedorismo de impacto social, como Simbiose Social (que promove patrocínio para negócios de impacto), Politize! (de educação política) e 4 Hábitos para Mudar o Mundo (de reaproveitamento de resíduos). Porém, assim como acontece entre as médias e grandes companhias, há negócios que não são considerados de impacto, mas têm modelo sustentável e seguem estratégias de valorizar a ética e as pessoas.

A Dobra, empresa de nove funcionários de Monte Negro (RS), é uma delas. Os sócios Guilherme Massena, Augusto Massena e Eduardo Seelig começaram o negócio em 2016, com a criação de carteiras feitas com fibra reciclada, similar ao papel. Com o tempo, passaram a incorporar outros produtos, como tênis e capa de notebook. Hoje, a empresa foi avaliada pela pesquisa com nota AA. 

“A gente não nasceu para resolver nenhum problema do mundo, não somos negócio de impacto, mas dentro do que a gente faz queremos causar impacto em várias frentes, desde a responsabilidade socioambiental até a financeira em toda a cadeia”, explica Guilherme.

Para isso, o trabalho é pensado em relação ao combo colaboradores, clientes e sociedade. Como medida interna, nos seis primeiros anos, a empresa estabeleceu a política da não existência de cargos e de um salário igual para todos, inclusive para os sócios. 

“Até hoje, isso funcionou. Foi uma prática importante porque temos uma disparidade salarial muito grande no Brasil. Mas, agora, chegamos num patamar de crescimento em que a mudança vai ser necessária para darmos o próximo passo”, conta.

Do ponto de vista da comunidade, a criação e confecção dos produtos é feita de forma colaborativa. Artistas independentes criam suas estampas no site e recebem comissão pelas vendas. Após os produtos serem impressos e cortados, eles são enviados para uma rede da cidade que faz a montagem.

Já em relação à sociedade e ao ambiente, a empresa não trabalha com estoque, mas sob demanda. “Nós invertemos a lógica, primeiro vendemos e depois produzimos. Não trabalhamos a matéria-prima de forma inútil para que seja descartada depois”, explica Guilherme. Os clientes ainda podem enviar produtos antigos para a empresa, para reciclagem, e obter 20% de desconto em um novo. 

Propósito para colaboradores

A microempresa Ana Health decidiu participar da pesquisa para ter uma avaliação de pontos de melhoria, a partir do olhar externo, e é uma das avaliadas com nota A. Com um modelo de negócio primordialmente B2B (que tem como cliente final outra empresa), a organização é focada em oferecer assistência de saúde online para os colaboradores das contratantes. 

Durante 24 horas por dia, sete dias por semana, o contemplado pode se consultar de forma digital com médicos, enfermeiros, psicoterapeutas e gerontólogos. Os profissionais fazem o acompanhamento da pessoa em casa, no hospital ou no trabalho. 

“O serviço é personalizado. Nós montamos uma linha de cuidado com as necessidades de cada pessoa. Tem gente que faz triathlon e quer melhorar o desempenho, tem outros com problema no sono ou, por exemplo, algum associado transgênero que esteja fazendo a terapia hormonal”, explica Vinicius Molina, sócio ao lado de Victor Macul e Olivio Souza Neto.

Para os empreendedores, a boa avaliação é resultado do próprio modelo de negócio combinado com a sensação de propósito desenvolvida entre os colaboradores. 

“A gente quer ter uma empresa em que as pessoas acordem na segunda-feira e queiram trabalhar, então sempre pensamos na cultura. Juntou isso com a nossa insatisfação com o mercado de saúde”, diz Olivio Souza, que é médico. “A pessoa faz medicina para ajudar alguém. O que a indústria da saúde entrega está desalinhado há muitos anos. Então, trabalhamos o propósito ao trazer para a Nova Economia uma nova forma de cuidar dos associados e dos colaboradores.”

A empresa existe há um ano e, além dos três sócios, possui 13 funcionários. Neste mês, chegou à marca de atuação em 16 Estados. 

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