Daniel Teixeira/Estadão
Gabriel Rodrigues (esq.) e Gabriel Dias inauguraram a loja física da Caritó um ano após iniciar o negócio na internet. Daniel Teixeira/Estadão

Loja física amplia oportunidade de pequenos negócios digitais nascidos na pandemia

Agregar espaço físico à marca online demanda sinergia, pois canais são complementares e devem ser encarados com olhar único; veja dicas para investir no atendimento presencial

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2022 | 05h01

Para quem investiu no próprio negócio em 2020, com venda de produtos, não havia outra opção senão o comércio online. De acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico, mais de 150 mil lojas virtuais foram abertas desde o início do isolamento social. Embora o digital tenha se consolidado e mostrado importância, o espaço físico ainda tem seu valor e pode agregar ao crescimento de micro e pequenas empresas.

“O online, por mais que tenha novos entrantes, ainda é uma compra muito mais de recorrência, de algo que a pessoa já tomou decisão. O físico contribui muito com a parte do impulso, da pessoa passar pela loja e comprar. É uma compra de oportunidade”, diz Allan Hagemeyer, CEO da Multi.etc e especialista em gestão estratégica de negócios e transformação digital.

Segundo ele, a presença online é como um teste de mercado para validar o negócio, além de ter baixo custo. É nesse espaço que o empreendedor vai conhecer o potencial da marca e reunir dados relevantes — como produto mais vendido e perfil do consumidor — para decidir o próximo passo. “Quando tiver maturação dos dados, das informações, é um bom momento para entrar no físico para somar com o digital, pois são canais complementares”, ressalta.

Hagemeyer afirma que, falando de varejo, o crescimento de uma marca deve alcançar o potencial máximo com a presença física, algo que os donos da Caritó Padaria Artesanal vêm sentindo nos últimos meses. O casal Gabriel Rodrigues e Gabriel Dias inaugurou a loja na Bela Vista em julho, um ano após iniciar o negócio de forma online em 2020. Desde então, o faturamento triplicou.

“A loja conseguiu aumentar as pessoas que são impactadas, pessoas mais velhas que não comprariam pela internet. E como estamos na região da Paulista, é fácil entrar no roteiro das pessoas”, afirma Rodrigues. “Também trouxe comodidade aos clientes. Antes, a gente trabalhava com encomendas, agora abriu loja em aplicativo, viu como funciona, tem mais agilidade”, completa Dias. E as entregas, que ocorriam duas vezes na semana, passaram para cinco.

Ter um estabelecimento gastronômico era um sonho antigo deles, mas não imaginavam que aconteceria logo. Foram poucos meses entre começar a cozinhar em casa para consumo próprio até entender que poderia virar um negócio. O estalo veio da demanda de amigos que queriam provar os pães que publicavam nas redes sociais.

Após começar a vender, a cozinha de casa tornou-se pequena para a grande quantidade de pedidos. Foi quando decidiram alugar uma casa, mas ainda sem o pensamento da loja. “A ideia era continuar online, mas as pessoas pediam mais para pronta entrega”, conta Rodrigues. Dias comenta que eles fizeram uma transição segura, onde o local, um sobrado, serviria para morar também, e logo o dono do imóvel sugeriu que ali poderia ter um espaço de vendas.

Como escolher o local

Gabriela Miranda, que no ano passado deu início à venda de pudins pela internet, também abriu um espaço físico neste ano pela necessidade de uma cozinha maior. Ela contou com o auxílio de uma imobiliária para encontrar um local adequado, que fosse bem iluminado, arejado e perto de onde mora. A loja não estava nos planos iniciais da Pudim Terapia e tem um ambiente pequeno para receber clientes, mas ela vê as vantagens.

“Embora a internet dê visibilidade, o espaço físico dá mais. Antes, eu divulgava no meu condomínio e contava nos dedos da mão quem comprava. Hoje, com loja, tem gente do condomínio da frente que vem comprar”, comenta, citando também o aumento das vendas. Ela percebe que agora tem mais credibilidade, mas existe o desafio de provar o valor agregado do produto. “O pudim vai na forma de alumínio, algumas pessoas pedem sem, mas eu não vendo só o pudim, vendo a experiência de desenformar, aquela expectativa de saber se vai sair certo.”

Na hora de abrir a loja física, o especialista Allan Hagemeyer orienta considerar o preço do aluguel, principalmente agora na pandemia, em que o IGP-M fez subir o valor de locação. “Se vai para um ponto onde o custo de aluguel é muito alto, às vezes desacelera e impede o crescimento da empresa ou não consegue manter aberta.” Ele comenta que um ponto na rua pode ser uma opção mais barata.

A empreendedora Lela Brandão, CEO da marca homônima de moda confortável, conta que clientes já perguntavam sobre um espaço físico para poderem experimentar as peças. A ideia saiu do papel quando ela encontrou, por acaso, um imóvel onde poderia concretizá-la. “Meu sócio, Viktor, foi bem firme ao confirmar que estávamos prontos financeiramente. Muito rapidamente alinhamos as burocracias e em um pouco mais de um mês abrimos nosso espaço”, conta.

Hagemeyer comenta que, além do apelo de provar o produto, os negócios de alimentação e moda demandam a interação humana, que não será substituída pela interação online. “Na loja, o consumidor precisa ser entendido, compreendido, receber atendimento mais consultivo.”

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Site e loja física são complementares; confira 6 dicas para cuidar dos dois

Especialista orienta como empreendedores devem cuidar dos canais de seu negócio, sem negligenciar o cliente

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2022 | 05h00

Ao abrir uma loja física, o empreendedor não pode negligenciar o virtual. O consumidor é multicanal, ou seja, compra nos dois espaços. Gabriela Miranda apostou nisso e até investiu mais na imagem online da Pudim Terapia, que criou no ano passado: fez fotos profissionais para o perfil no Instagram e registrou o estabelecimento físico, aberto este ano, no Google. Segundo ela, isso deu ainda mais visibilidade à marca. “As pessoas avaliam muito lá, acho que é tudo ligado.”

Lela Brandão, dona de um empreendimento de moda confortável, conta que foi fácil traduzir as características da marca nativa digital para o mundo físico, uma vez que estava tudo evidente para os sócios. Prova disso é que as pessoas que conhecem a Lela Brandão Co. dizem que entrar na loja é como entrar nas redes sociais dela.

“O atendimento, a estética da loja e tudo o que envolve nosso espaço foi pensado nas bases do nosso branding e do que a gente acredita. Conseguimos trazer muitos elementos da nossa identidade visual e das nossas crenças enquanto marca para a loja, com ambientes mega instagramáveis de um jeito que fica quase impossível sair de lá sem postar uma foto”, brinca. Ela considera que a experiência como criadora de conteúdo e arquiteta ajudou a fazer essa integração.

Allan Hagemeyer, CEO da Multi.etc e especialista em gestão estratégica de negócios e transformação digital, diz ser importante encarar o negócio como única vertical, tendo o consumidor como foco, não o tipo de canal. “Tudo bem um vender mais que o outro, desde que tenha olhar único, porque, no final do dia, vai ser sobre o que o cliente entende que é bom e isso tudo faz com que ele esteja próximo da marca.” 

Ao pensar em promoções, por exemplo, ele orienta ter equilíbrio e não concorrer um com o outro. “Se vou fazer promoção exclusiva no online, é importante que a loja comunique bem isso e ajude o consumidor, mesmo dentro da loja”, afirma. Hagemeyer e os empreendedores consultados na reportagem dão dicas para quem quer abrir a loja física depois de consolidar a marca no online.

Confira 6 dicas práticas

1. Tenha uma reserva financeira: uma vez que Gabriela não dependia apenas da Pudim Terapia para se manter, pois já tinha uma empresa de comunicação, ela poupou todo o faturamento líquido da loja online. O valor serviu depois para investir na reforma do espaço físico e na compra dos equipamentos profissionais. Para quem pode, ela indica ficar o máximo de tempo possível no online para juntar esse dinheiro e aportá-lo no estabelecimento. 

2. Busque ajuda profissional: Gabriela contou com a ajuda de uma amiga que também empreende para fazer a precificação dos produtos, tópico que ela não dominava. Os donos da Caritó Padaria Artesanal recorreram ao Sebrae depois que a loja física foi aberta para estudar mais sobre como administrar o negócio e estar em dia com legislação e vigilância sanitária. Gabriel Dias e Gabriel Rodrigues indicam ter boas noções de marketing, criação de conteúdo e comunicação visual para fortalecer a marca. 

Allan Hagemeyer também recomenda buscar um especialista principalmente no momento de escolher o ponto físico. “Se a pessoa já entende a questão de locação, acredito que possa fazer sozinha, mas se conhece muito de produto e marca e tem dificuldade com parte financeira, é melhor buscar um consultor”, diz. Ele indica empresas especializadas em dados de geolocalização e geomarketing, que contribuem para a escolha do local com base nos interesses do consumidor da região.

3. Estude seu público: Lela considera importante analisar bem o público para entender a localização que faz mais sentido para o espaço físico, estudar o fluxo de pessoas no local e só abrir a loja quando souber que a equipe está preparada para atender ao vivo.

4. Esteja alinhado com o atendimento: A CEO da Lela Brandão Co. também recomenda conversar bastante com a equipe de atendimento da loja para que entenda o universo da marca, no que acredita e o mais importante: no que não acredita. “Um vendedor e o espaço físico representam o primeiro contato no mundo real com a sua marca para um cliente, como uma personificação da marca, e essa experiência pode ficar para sempre na memória dele, para o bem ou para o mal”, destaca.

5. Planeje estoque e logística: Ter a loja online ajudou Lela a manejar melhor o espaço físico. “Nosso escritório fica bem próximo à loja, o manejo do estoque e logística foi bastante simplificado por essa proximidade. Temos o estoque unificado no sistema, com um ponto de venda dentro da própria plataforma, o que deixou a operação mais simples”, diz.

O especialista aprova a unificação do estoque e diz que há sistemas variados, para todos os portes e bolsos, que ajudam a integrar os dois canais e fazer uma logística adequada, seja para o consumidor retirar no local ou seja para o site fazer entrega mais rápida.

6. Considere outros canais: Hagemeyer comenta que, a depender da marca e do e-commerce, é interessante pensar, além do atendimento presencial, em modelo de franquia e sistema de afiliados, estratégia que torna-se uma extensão da venda online e pode ser um passo antes da abertura física.

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