Nilton Fukuda/Estadão
Com foco no e-commerce, o casal de engenheiros Luiz Ikeda e Liana Uehara criou a papelaria online Acraft em 2014 Nilton Fukuda/Estadão

Febre da papelaria atinge público crescente interessado em fazeres manuais

Movidos pela mania de cadernos customizados, canetas, carimbos e lettering, empreendedores apostam em material nacional e importado para atrair consumidores adeptos do artesanal

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 06h15

Papéis, fitas, carimbos, planners, scrapbooks e canetas das mais variadas cores, tons e modelos. Na contramão do universo digital, a febre da papelaria surge na tendência do feito a mão. Para além da papelaria tradicional - dos afazeres do dia a dia e do material escolar - o nicho voltado para a estética e para a arte, movido pelo artesanal e pelo lettering (como tem sido chamada a arte de desenhar letras), tem impulsionado negócios na área. 

“Há uma alta no setor de papelaria, que vem com uma cara modificada. Não é mais o foco na industrialização, mas a volta ao artesanal”, explica a consultora de negócios do Sebrae Juliana Segallio.

Apostando nessa tendência do artesanal e da papelaria, o casal André Pimenta e Ana Becker fez do hábito de comprar presentes para amigos em viagens a porta de entrada para o empreendedorismo e, em 2013, criou a loja Veio na Mala. “Percebemos que aumentou a demanda do feito a mão, com um papel importante das feiras de rua nisso. A gente consegue mostrar para as pessoas que é possível fazer algo grandioso mesmo sendo pequeno”, conta André.

Os designers começaram anunciando os produtos em um blog e recebiam um pedido por semana. Sete anos depois, hoje eles mantêm um e-commerce, uma loja física no shopping Center 3, inaugurada há quatro meses, e um faturamento mensal de R$ 150 mil. As projeções são de que a empresa cresça 10% no próximo ano.

Ao lado de produtos importados, eles investem também em confecções próprias. “Nós entendemos que precisávamos sair da mesmice e tentamos entender melhor o público para fazer a nossa linha”, explica André. A loja vende produtos como agendas, canetas, planners (cadernos com divisórias para a programação da semana e dos meses) e itens para scrapbooks (em que o usuário customiza seus cadernos), mas tem nos carimbos o carro-chefe. São mais de 500 modelos desenvolvidos por eles.

Para Juliana, o ideal é que a marca de papelaria consiga investir em um ponto físico, seja uma loja ou a participação em feiras, mas a presença nas redes sociais e em marketplaces (shoppings virtuais) também é essencial. Só na plataforma Elo7, marketplace para venda de produtos artísticos e autorais, existem mais de 40 mil lojistas cadastrados na categoria “papel e cia”. Entre os produtos mais vendidos estão planners, carimbos, etiquetas personalizadas e álbuns de scrapbook. 

Com foco no e-commerce, o casal de engenheiros Luiz Ikeda e Liana Uehara criou a Acraft em 2014. A papelaria online nasceu de um hobby de Liana pelo artesanato. “Começamos com um investimento de R$ 2 mil e o dinheiro que entrava usávamos para recomprar produtos. Testamos muito e passamos a comprar apenas aquilo que vendia mais. Daí acabamos tendendo para o lado da papelaria”, conta Luiz. O foco da empresa são itens para montar planners, que incluem cadernos, adesivos, canetas, washi tapes (fita adesiva) e pingentes. 

Para conseguir cuidar da loja, os dois largaram seus empregos como funcionários de empresas, mesmo que para inicialmente ganhar menos. Hoje, têm uma equipe de seis funcionários, conseguiram crescer dez vezes em quatro anos e alcançaram a renda que tinham em seus trabalhos anteriores.

Espaço para microempreendedores

Dentre os mais de 2.900 microempreendedores individuais (MEIs) registrados no comércio varejista de artigos de papelaria no Estado de São Paulo, segundo o Portal do Empreendedor, está Andreia Anjos, criadora da DIY Scrap. O interesse pela papelaria artesanal fez com que ela apostasse em um negócio inédito, um clube de assinaturas de scrapbooking.

Após dez anos criando projetos por hobby, Andreia decidiu que precisava fazer algo diferente para se destacar. “Fiz bastante pesquisa e vi que os clubes de assinaturas no País têm crescido muito e não existia nenhuma versão para scrapbooking.” Para começar o negócio, ela investiu R$ 10 mil de capital próprio.

Criado em dezembro do ano passado, o clube reúne 36 assinantes, todas mulheres entre 12 e 60 anos, que contratam o serviço por hobby ou para aprender novas técnicas. Para a consultora do Sebrae Juliana, o público da papelaria artesanal não é mais só feito de “vovozinha”. “O pessoal com menos de 30 anos está descobrindo que é gostoso trabalhar de outras formas e os mais velhos veem essa parte da papelaria como um resgate de velhos hábitos.”

Na caixa enviada mensalmente para as clientes do DIY Scrap vão produtos escolhidos por Andreia, como decalques, régua, papéis e cadernos, e uma apostila com instruções para confeccionar os projetos de scrapbooking. Ao finalizar as obras, as assinantes são incentivadas a compartilhar os resultados em um grupo de Whatsapp, onde a empreendedora também tira dúvidas. Cada assinatura custa R$ 149,90 por mês.

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Lettering, a arte de desenhar letras, movimenta lojas tradicionais de material artístico

Casas com foco em profissionais do design e das artes abrem leque de produtos para atingir clientela interessada em papelaria e caligrafia

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 06h16

Entre a febre da papelaria, uma das maiores tendências aparece em torno do lettering, a arte de desenhar letras, que aparece em produtos variados, como quadros, embalagens, cartazes, cadernos, tatuagens e lousa de restaurante. A prática tem impulsionado também os negócios de papelaria que estão há anos no mercado.

Para um dos sócios da Papelaria Universitária, rede familiar paulistana fundada em 1956, Denis Borges, um destaque do setor é a procura por produtos de caligrafia e lettering, que tem aumentado nos últimos quatro anos. “De tempos em tempos aparecem modas e tendências, que não sabemos se vão ficar, mas que acabam tendo um impulso interessante nas vendas, como foi com o livro de colorir e agora é com o lettering”, explica.

Embora a empresa seja focada no público artista, Denis destaca que a busca por materiais de lettering, principalmente as canetas (inclusive com pontas que imitam pincéis), também tem vindo de quem pratica a atividade por hobby. “Os produtos ficaram mais baratos e isso permitiu que não só os profissionais pudessem brincar com a arte”, diz ele, da rede que possui seis endereços em São Paulo e 44 funcionários.

O lettering também tomou um papel de destaque na Pintar Materiais Artísticos, loja paulistana com três unidades que está há 17 anos no setor. “Ele é um forte nosso. O público passou a ser muito grande de cinco anos para cá. Atendemos bem os profissionais da publicidade, muito mais do que a caligrafia fazia no passado”, conta um dos sócios, Ronaldo Dimitrow.

Gerente de compras da Casa do Artista, loja especializada em material de arte, desenho e arquitetura desde 1962, Alberto Peciauskas conta que a empresa, que vende online e possui uma unidade em São Paulo, apostou em uma ampliação da sessão de marcadores e canetas. “É o que está em evidência. Já existiam marcadores carros-chefes, mas os importadores começaram a trazer muita novidade”, diz.

Para abastecer o mercado, as grandes empresas têm aproveitado a febre da papelaria e, sobretudo, do lettering. “Nos últimos anos, o desembolso do consumidor foi maior e mais focado nos itens de papelaria. A tendência impactou principalmente o mercado de canetas coloridas e marcadores de texto. Tons neon e pastel lideram a lista”, aponta Marcelo Vecchi, gerente de comunicação no Brasil da alemã Faber-Castell, que lança anualmente entre 40 e 50 produtos. Outra gigante no setor, a japonesa Pentel também investiu no crescimento da linha de artes e lançou canetas especiais para lettering.

Além do material importado, o setor de papelaria brasileiro também contribui com criações próprias. A Fina Ideia, papelaria online criada em 1994 por Isa Spivack, tem na agenda e no planner os carros-chefes da marca, mas também decidiu acompanhar a tendência e criou o caderno para lettering.

Por enquanto, ele foi lançado para os 500 lojistas que revendem produtos da marca, mas será disponibilizado para o consumidor final em setembro. “As pessoas estavam usando o nosso álbum de fotos para fazer lettering e tivemos essa sacada de adaptá-lo. O mercado de papelaria cresceu muito, os estudantes, desde a idade escolar até o concurseiro, fazem fichas de resumo, anotações, cadernos”, diz a gerente de marketing Milu Spivack.

Moda impulsiona cursos de caligrafia e lettering

Seja por hobby ou para aumentar a renda, a procura por cursos de lettering têm acompanhado a tendência vista pelas papelarias. “O lettering é uma letra desenhada. Se bem desenvolvido, conta uma história pelas palavras. Não é uma explosão nacional, mas mundial”, diz a calígrafa Silvia Cavalcanti, que trabalha com caligrafia desde 1992 e no ano passado começou a dar aulas de lettering.

Nas turmas da professora, a hora-aula custa em média R$ 65 e os alunos - a maioria mulheres - têm profissões e idades variadas. “Muitos procuram para acrescentar beleza no trabalho que já fazem, como designers, mas já ensinei até a uma dentista, que queria aliviar o estresse e conhecer o universo da filha de 12 anos, apaixonada pelo lettering”, conta. Além das aulas, Silvia também faz projetos de caligrafia e lettering, como o Papel Luz e Poesia, parceria com uma amiga, na qual vendem luminárias de papel e lettering (em média a R$ 250).

No mundo da caligrafia há 32 anos, a calígrafa e professora Andrea Branco também acompanhou a chegada do lettering. “A gente tem visto perfis no Instagram de como estudar, mostrando as letras. Fui em uma papelaria artística e tem muitas canetas novas, de pontas variadas, e o bullet journal, uma folha com linhas pontilhadas, onde dá para se escrever no espaço de uma forma diferente da pauta do caderno”, conta. 

Por enquanto, Andrea dá aulas apenas de caligrafia tradicional, mas diz que está nos planos usar a expertise para criar um curso de lettering avançado. “Hoje tenho cinco módulos do curso de caligrafia, mas estou animada para criar uma edição mais aprofundada de lettering para, por exemplo, o designer que vai fazer um logotipo para uma marca.” 

 

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