Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Criadoras de robôs virtuais viabilizam tecnologia para pequenas empresas

Assistente virtual é viável financeiramente por meio de templates de empresas como Cosmobots; na Share Eat, serviço se baseia em tecnologia de robôs aliada a consultoria

Julliana Martins, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2020 | 06h00

Presentes na maioria das empresas de comércio e tecnologia, os chamados chatbots vieram para revolucionar o relacionamento com o cliente e possibilitar novos serviços. Em meio a assistentes virtuais gigantes como Lu, do Magazine Luiza, e Alexa, da Amazon, startups como Cosmobots e Share Eat viabilizam tecnologia para pequenas e médias empresas terem os seus próprios chatbots.

A necessidade de automação de interações repetitivas como pedidos de compra, solicitações de RH ou até informações sobre serviços já tinha sido percebida pelo goiano Rafael Peterson em 2016, quando começou o desenvolvimento da Cosmobots. O lançamento da empresa, entretanto, veio para preencher uma lacuna que o cientista da computação identificou no mercado: a ausência de uma plataforma que permitisse o gerenciamento intuitivo de diferentes bots (robôs) pelos clientes.

Assim, a proposta da empresa se baseia na disponibilização de uma série de templates pré-definidos da tecnologia, escolhidos de acordo com o que for mais adequado ao negócio de cada cliente. Os robôzinhos podem ter inteligência artificial e ser configurados no Facebook Messenger, no WhatsApp, além de aplicativos próprios e sites da internet.

Embora de início o foco da operação tenha sido grandes empresas, como Sicredi, iFood e Sulamérica Seguros, o fluxo até chegar ao nível atual (em que metade da cartela de 71 clientes são pequenos e médios empreendimentos) foi favorecido justamente por esse filtro inicial.

“Foi bom começar pelas maiores porque os valores eram mais altos, o que ajudou a gerar receita, além de ter servido como uma forma de validação do produto. Nós vimos que era possível fazer vários bots e cobrar menos por isso”, conta o fundador. O objetivo da equipe de 14 pessoas é chegar até o final deste ano com uma base de 80% de pequenas e médias empresas entre os clientes.

O grande diferencial para alcançar essa meta, segundo Peterson, é apostar em um modelo self service, focando mais no desenvolvimento do produto do que na consultoria. Dessa forma, a Cosmobots oferece o chatbot pronto e ensina o cliente a usar a plataforma de gestão, para que todas as alterações não fiquem sob a responsabilidade da empresa.

“O serviço para as empresas maiores costuma ser mais caro porque elas querem tudo na mão. Nossa proposta é outra, é oferecer a possibilidade de autogerenciamento. Vemos um potencial grande nas pequenas e preferimos democratizar esse acesso, focando na cauda longa.”

Após participação em programas de aceleração, como do Google e da Vivo Telefônica, o modelo de negócio foi definido com base em cobranças por consumo. Dessa forma, é cobrada uma mensalidade que pode variar de R$ 250 a R$ 950, levando em consideração o número de atendimentos e interações do chatbot. No caso das empresas menores, o plano de R$ 250 garante até mil atendimentos por mês.

A Cosmobots desenvolve ainda projetos filantrópicos. Dois exemplos são o bot Amigo Anônimo, que interage com pessoas que buscam ajuda para tratar o alcoolismo, e a ISA.bot, lançada pelo Think Olga e o Mapa do Acolhimento em parceria com o Facebook e a ONU Mulheres para tratar de conteúdos sobre segurança para mulheres.

Serviço e tecnologia

No mercado há um ano e meio, a Share Eat oferece serviços por meio dos seus próprios chatbots, além de vender a tecnologia desenvolvida em parceria com o hub de empresas digitais 4all, para outras empresas de porte médio.

O escopo inicial é de uma plataforma que usa inteligência artificial para entender o perfil dos clientes e filtrar as opções de lazer nos segmentos de turismo e gastronomia que têm mais a ver com os gostos individuais de cada um. Esse filtro é realizado pela guia digital Xai, além do Bira, que dá dicas de cervejas, e da Pipa, bot focada na escolha de vinhos. O usuário pode contar com as indicações em mais de 12 regiões, incluindo destinos internacionais, e pode ver a Xai também no WhatsApp.

O outro braço da empresa está segmentado na curadoria e produção de conteúdo para empresas parceiras, aplicados na tecnologia de um chatbot. Diferentemente da entrega de um modelo pronto como o da Cosmobots, o serviço inclui, além da criação do robô, uma consultoria específica, o que faz os preços serem um pouco mais salgados para as empresas menores.

“Algumas empresas não sabem nem por onde começar, principalmente na construção de um relacionamento eficiente por meio dessa tecnologia. Foi por isso que preferimos oferecer um pouco mais. Não é um bot de atendimento padronizado. Inclui uma curadoria de conteúdo customizada para cada cliente”, afirma o fundador da empresa, Diego Fabris.

O pacote mais acessível, normalmente contratado por empresas de porte médio, custa R$ 50 mil para colocar o chatbot no ar, além de um valor mensal cobrado para a manutenção do serviço. Os mais utilizados, de acordo com Fabris, variam entre R$ 300 mil e R$ 400 mil o primeiro valor. A previsão da empresa para este ano, que já dobrou o número de funcionários para 20, é triplicar o faturamento em relação a 2019, dobrando o número de clientes - hoje são 15 recebendo curadoria de conteúdo, cinco deles utilizando o serviço de chatbot. Esses projetos são os que incrementam mais na receita da empresa, segundo o gaúcho.

Negócio nascido de um bot

Na contramão das pequenas empresas que buscam a tecnologia pronta, conforme oferecido pela Cosmobots, a Magva Tecnologia nasceu como empresa ao desenvolver seu próprio chatbot. O gênio Aarim, presente no WhatsApp e no Telegram, foi criado para facilitar o processo de pedido de comida e compra de serviços, como passagens de avião e de ônibus, por exemplo.

Estabelecendo parcerias com outras empresas, a startup consegue intermediar compras e organizar entregas na sua área de atuação, na zona oeste do Rio de Janeiro. “A gente queria facilitar a vida do usuário e a primeira forma de fazermos isso foi a inserção do bot nos aplicativos de mensagem que todo mundo já têm no celular, sem que seja necessário baixar um aplicativo”, afirma o fundador e CFO da empresa, Lucas Angi.

Para utilizar o serviço, basta adicionar o contato do gênio no celular e iniciar uma conversa com ele em um dos aplicativos de mensagem disponíveis. Após uma breve apresentação, o próximo passo é especificar o pedido dentro das opções disponíveis e efetuar a compra pelo próprio aplicativo ou sendo redirecionado para o site do estabelecimento.

Na outra ponta, as empresas que querem participar do catálogo do Aarim podem escolher entre dois modelos de negócio: pagamento mensal pelo serviço ou a cobrança de 8% sobre os valores vendidos pelo chatbot. Em um ano de operação, já estão entre as parceiras a Pizzaria Parmê, a rede de petshop Petz, o site MaxMilhas e a rede de fastfood Bob’s.

Para os empreendedores, o maior desafio enquanto pequena empresa no segmento de tecnologia, entretanto, foi a validação do produto, que utiliza machine learning para desenvolver as interações com os clientes.

“Para a interação ser fluida e prazerosa, precisamos gastar recursos e tempo fazendo validações e testes. Isso demanda bastante infraestrutura e investimento”, explica Angi. Outro fator que tornou o desenvolvimento mais complexo foi a possibilidade de o estabelecimento parceiro acessar um dashboard de operação, interagindo com os números das vendas, assim como dando acesso para a empresa aos bancos de dados dos parceiros, como atualizações de cardápios e preços.

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