Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Cervejarias urbanas dão escala de consumo a pequenos negócios

Leis municipais permitem instalação de microcervejarias dentro do perímetro urbano, e mercado aposta no público local para testar e crescer

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 06h10

Diversificação e aproximação com diferentes tipos de consumidores, laboratório de experimentação para os cervejeiros e baixo investimento. Essas são algumas das vantagens de brewpubs (bares com produção de cerveja para consumo no local), nanocervejarias e microcervejarias instaladas dentro da cidade e não em zonas industriais. O estímulo para a mudança de endereço veio com projetos de leis municipais que atualizam a classificação dos pequenos fabricantes de cerveja e permitem sua instalação em zona mista ou mesmo em bairros centrais dos municípios.

Com o movimento, antigas e novas marcas passaram a fincar suas torneiras em regiões estratégicas e de fácil acesso, sinalizando um novo momento do mercado: as cervejarias urbanas. Uma das cidades pioneiras foi Blumenau (SC), que aprovou a lei que institui o Programa de Incentivo às Microcervejarias Artesanais e Brewpubs em 2017. Desde então, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, João Pessoa, Campina Grande (PB), Vinhedo (SP) e Valinhos (SP) - com lei sancionada em janeiro deste ano - seguiram os mesmos passos. Nos municípios, a classificação das microcervejarias passou a ser como indústria de baixo ou médio impacto, e o zoneamento para a instalação das fábricas também foi revisto.

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Em São Paulo, o decreto 58.419, de setembro de 2018, integrou a fabricação de cervejas e chopes na lei de zoneamento como atividade de baixo risco. Para Junior Bottura, sócio-fundador da Cervejaria Avós, as leis são importantes para fomentar o setor, mas há desconhecimento dos microcervejeiros sobre o que é ou não permitido.

“Fiz  parte de um grupo que se uniu para tentar entender o que pode ou não ser feito dentro da cidade e descobri que é mais fácil do que se pensa”, diz. Bottura explica que, além da permissão em nível municipal, é preciso se regularizar em níveis estadual e federal.  “Para questões ambientais, é preciso ter uma isenção da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), para justificar o volume de água e outros descartes de resíduos, e ainda ter o registro da cervejaria no Ministério da Agricultura (Mapa).”

Antes apenas um bar que servia as cervejas produzidas em fábrica terceirizada, a Casa Avós, na Vila Ipojuca, zona oeste de São Paulo, passou por uma reforma de quatro meses e reabriu no fim de 2018 com as instalações de uma nanocervejaria: um investimento de R$ 400 mil num espaço de 20 m² para fazer 600 litros por mês

“Todas as quartas-feiras lançamos uma cerveja nova e pedimos para os clientes avaliarem. A de maior nota do mês vai para a produção em larga escala”, conta Bottura. O empreendedor ainda diz que o imóvel foi locado originalmente para ser seu escritório, mas os vizinhos o estimularam a abrir o bar.

“Pouco tempo depois que aluguei o imóvel a região se tornou zona mista. E o interesse dos vizinhos fez o local virar uma nanocervejaria. Acho que isso mostra que a proximidade com as pessoas é o que vai fazer o mercado crescer”, acredita. No local, Bottura vende chope de 300 ml por R$ 8.

A aproximação com diferentes tipos de consumidores também é o objetivo de Gilberto Tarantino. Atuante no mercado de cervejas artesanais há mais de uma década, após trabalhar com importação ele abriu sua própria fábrica, a Cervejaria Tarantino, há sete meses no bairro do Limão. Com licenças para fabricação, envase, distribuição, venda no local e realização de eventos, a fábrica tem 2.400 m² e capacidade de produção de até 14 mil litros por mês.

“Sempre esteve no plano de negócios estar dentro da cidade. Queríamos um espaço inclusivo e por isso promovemos festivais, desde basquete de rua até carnaval”, diz. Gilberto orgulha-se de já ter reunido 1.200 pessoas na fábrica e ter os vizinhos como público fiel.  

“Nosso consumidor não é o ‘beer geek’, pois esse público não paga a conta. Ele pode fazer a marca ‘bombar’, mas não dá volume. Nós queremos um público fiel.” Com sistema de autosserviço, o chope de 300 ml sai por R$ 10. A cervejaria, que acabou de receber aporte de um grupo de investidores-anjo, não divulga dados de investimento.

Belo Horizonte

Foi também em setembro que a capital mineira aprovou sua lei de incentivo às microcervejarias dentro da cidade. “Com a legislação antiga, elas estavam em uma categoria de alto impacto, pois se entendia que uma fábrica de cerveja teria as dimensões de uma fábrica da Ambev”, conta Gustavo Alves, conselheiro da Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel) de Minas Gerais e integrante do grupo de trabalho responsável por promover a discussão na Prefeitura de Belo Horizonte.

Com a nova lei, as fábricas passaram a ser categorizadas como indústria de médio impacto e podem ter até 720 m². “Hoje, quem produz cerveja quer atender o público local, porque não temos capacidade e capilaridade para vender para outros mercados”, acredita Alves, que também é proprietário do bar Kobes.

Após a aprovação da lei, Eduardo Brasil, criador da cervejaria Velho Brasa, está de mudança da cidade de Contagem para Belo Horizonte. A nova fábrica, com 420 m² e capacidade para 30 mil litros por mês, será inaugurada em maio, na região da Pampulha. “A nossa perspectiva sempre foi vender para o consumidor direto e em Contagem isso não acontecia da forma que queríamos. Essa lei vai dar impulso nos negócios”, conta o empreendedor.

Há 15 anos no mercado, na última terça-feira, 23, a cervejaria Falke Bier inaugurou o brewpub Casa Falke, na Savassi, bairro boêmio da capital mineira. Com 300 m², 13 opções de chopes autorais e dois de cervejarias convidadas, o local tem capacidade para 300 pessoas.

“Algumas cervejas serão fabricadas aqui dentro, para enaltecer a vocação do brewpub”, conta Marco Falcone, sócio-fundador. A matriz, em Ribeirão das Neves (região metropolitana de Belo Horizonte), continua em atividade e é responsável pela produção de 25 mil litros por mês.

Para o presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), Carlo Lapolli, o movimento mostra a abertura do mercado. “Com as leis, o cigano (cervejeiro sem fábrica) avança para o brewpub. Ele agora parte para um pequeno empreendimento, autoral e com volume que se enquadra no Simples e não requer investimento muito alto. Essa é hoje a realidade do mercado.”

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