Ana Lee Sales
Ana Lee Sales

Cacau brasileiro leva três prêmios em concurso mundial de excelência

Amêndoas de cacau do baiano João Tavares, que abastece pequenos negócios de chocolate, é ouro pela terceira vez em Paris; anúncio foi transmitido no Festival do Chocolate e Cacau, em Ilhéus (BA)

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 15h53

ILHÉUS - O renascimento da produção de cacau no sul da Bahia tem sido próspero e reconhecido internacionalmente. Nesta quinta-feira, 16, o produtor João Tavares, cujas amêndoas abastecem pequenos negócios de chocolate nacionais, conquistou mais um ouro no Prêmio Cacau de Excelência 2021, anunciado no Salão Internacional do Chocolate de Paris. O concurso, que destaca os melhores cacaus do mundo, ainda premiou a mãe dele, a baiana Angélica Maria Tavares, e João Evangelista, produtor do Pará, ambos com a prata.

Únicos brasileiros entre os 50 finalistas, os produtores cacaueiros conquistaram um feito inédito na premiação, que é realizada desde 2009. Pela primeira vez, três amostras de amêndoas brasileiras são condecoradas e um produtor familiar paraense é reconhecido, mostrando o potencial do cacau de alta qualidade que se alastra pelo País.

“Estou muito feliz, porque vejo a qualidade do cacau como uma saída para essa região, uma agregação de valor, seja na qualidade da amêndoa ou pela verticalização, que são áreas de chocolate que trabalham com essas amêndoas. Então isso é muito importante, estimula a gente”, disse João Tavares após ser anunciado entre os vencedores. A "saída" à qual ele se refere está vinculada ao desenvolvimento das cidades ao sul do Estadao a partir da cacauicultura, principalmente depois que a praga vassoura-de-bruxa devastou plantações. 

A cerimônia virtual foi transmitida para mais de 70 países, e os brasileiros assistiram à divulgação do Centro de Convenções de Ilhéus, na Bahia, onde ocorre, nesta semana, o 12º Festival Internacional do Chocolate e Cacau, que reúne variadas marcas de chocolate. O evento nacional, considerado o maior do setor, marca a retomada das atividades presenciais após interrupção em 2020 devido ao início da pandemia de covid-19.

Emocionado, Tavares falou da experiência de estar no pódio ao lado da mãe, que não compareceu ao encontro por precaução à saúde. “A satisfação de ganhar com minha mãe é uma coisa ímpar”, ele diz e para de falar, a voz embargada, os olhos marejados. “É um momento único, minha mãe tem 82 anos, uma grande parceira”, consegue finalizar.

O produtor, terceira geração da família a investir no cacau, preza pela alta qualidade do fruto e é referência na Bahia e no mundo. Tal reconhecimento faz dele, agora, tricampeão do prêmio internacional, tendo ganhado em 2010 e 2011 - em 2019, ele chegou aos 50 finalistas também. A produção de Tavares, na Fazenda Leolinda, abastece pequenas empresas de chocolate do Brasil do ramo bean to bar (da amêndoa à barra), a exemplo de Casa Lasevicius e Cacau do Céu.

Já o cacau premiado do Pará é feito pelo produtor João Evangelista ao lado de sua mulher em sistema de agricultura familiar, no município de Novo Repartimento. As amêndoas de alta qualidade são vendidas para a produção de chocolate fino em Estados como Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. 

Análise e critérios técnicos

Para chegar aos finalistas, a equipe do Cacau de Excelência fez a seleção e avaliação de 235 amostras de cacau enviadas de 53 países. Os critérios incluem qualidade, sabor e diversidade do fruto de origem e em cada região mundial foram eleitos os ganhadores das três categorias (ouro, prata e bronze). Antes da análise final, uma parceria entre o Centro de Inovação do Cacau (CIC) e a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) identificaram as melhores amostras brasileiras para concorrerem lá fora, por meio de concurso nacional realizado anualmente.

“Esse é um trabalho de múltiplas pessoas, de diversos pesquisadores e instituições envolvidas na cadeia do cacau do Brasil”, comenta Cristiano Villela, diretor científico do CIC e presidente do Comitê Nacional de Qualidade de Cacau Especial. Para ele, o resultado do prêmio foi “surpreendente” e vai gerar impacto positivo nas regiões onde os produtores cultivam o cacau, bem como evidenciar a qualidade do produto perante o mundo. “Certamente, essa premiação trará benefícios imensuráveis para a cacauicultura brasileira.”

Sofisticadas, as amêndoas baianas vencedoras têm características peculiares, como explica Tavares. A que levou o ouro é de um cacau branco chamado catongo, naturalmente doce, com notas de nozes e caramelo, um diferencial grande em termos de sabor. Já o cacau de Angélica Maria traz notas de fruta e uma nota alcoolizada, tornando-o exótico. Toda a plantação é feita pelo sistema cabruca, em que os pés de cacau crescem em meio à Mata Atlântica, abaixo das copas das árvores, o que no passado contribuiu para a revitalização da mata e hoje ajuda na preservação.

O produtor considera que, mais do que o prêmio, importa a constância de prêmios. O Brasil esteve entre os melhores cacaus do mundo quatro vezes (em 2017, venceu o fruto do Espírito Santo) e isso abre ainda mais as fronteiras para que o fruto seja utilizado lá fora. As amêndoas de Tavares, por exemplo, são as únicas brasileiras na cozinha do renomado chef francês Alain Ducasse. Outra vantagem é a valorização do fruto nacional e o incentivo para que pequenos e médios produtores invistam na melhor qualidade de suas plantações.

“Essa premiação internacional mostra que o Brasil tem cacaus maravilhosos que nada devem a nenhum lugar do mundo, que o Brasil tem diversidade de aromas e são cacaus muito bem trabalhados. Isso mostra ao consumidor que o que está sendo ofertado a ele vem com origem maravilhosa, que são cacaus muito bons. Quem ganha no final é o consumidor, então que ele valorize”, diz o fazendeiro baiano.

Festival de chocolate em Ilhéus

Parte do estímulo a essa valorização é exercida por meio do Chocolat Festival, que começou nesta quinta-feira, 16, e ocorre até domingo, 19, no estacionamento do Centro de Convenções de Ilhéus, na Bahia. Com entrada gratuita, o evento reúne representantes da cadeia produtiva do cacau, do fruto ao produto final, seja ele chocolate, mel de cacau ou licores.

Atrações mais animadas incluem chefs preparando receitas, performances culturais típicas da região e a confecção de uma árvore de Natal gigante, com mais de dois metros de altura e 350 quilos de chocolate. Criado em 2009 pelo empresário baiano Marco Lessa, o evento já foi realizado em São Paulo e no Pará, e agora há expectativa de levá-lo ao Espírito Santo e Portugal, que seria a primeira versão internacioal.

A repórter viajou a convite do Chocolat Festival

Tudo o que sabemos sobre:
empreendedorismocacauchocolate

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.