Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

600 shoppings do País recebem cartilha para promover diversidade

Associação Brasileira de Shopping Centers inclui na ação calendário de datas simbólicas, legislação, glossário de termos e estímulo a contratação de transgênero; para especialista, avanço da pauta ESG ajuda

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2021 | 11h00

A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) lançou uma cartilha de diversidade e inclusão (D&I) destinada aos 601 estabelecimentos do País. O documento elaborado em parceria com a consultoria Mais Diversidade também está disponível gratuitamente ao público em geral no site da instituição. Segundo a entidade, o objetivo é promover conscientização dos colaboradores, lojistas e prestadores de serviço a fim de que eles realizem e impulsionem ações inclusivas.

Quando usadas de forma estratégica, cartilhas como essa ajudam a dar continuidade ao debate sobre D&I nas empresas, indo além da simples distribuição do material ou eventos pontuais. Essa constância é importante para promover uma cultura de inclusão, construída pela mudança de pensamento e comportamento de todos que integram a organização.

Os temas abrangidos na publicação da Abrasce são diversidade étnico-racial, sexual, de gênero, estética, etária, religiosa e pessoas com deficiência. Entidades referência nesses assuntos também colaboraram para a construção da cartilha, como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH) e Aliança Nacional LGBTI+

Para Glauco Humai, presidente da Abrasce, a criação da cartilha é um importante passo e motivo de comemoração no momento em que a Abrasce completa 45 anos de história. “Os shoppings do Brasil recebem milhões de pessoas todos os meses e queremos que todos se sintam ainda mais seguros em nossos empreendimentos. Muito já foi conquistado com ações inclusivas, como banheiro universal, exposições que abordam diversidade étnicorracial, ações para pessoas com deficiência, treinamento de colaboradores”, menciona.

Segundo ele, a ação tem grande impacto no varejo, com capacidade de ir além do setor, uma vez que as lojas podem ampliar a iniciativa para as unidades de rua e suas indústrias. Essa diversidade em todos os ambientes é o que potencializa a inovação nos empreendimentos, diz. Para tornar a cartilha efetiva, Humai explica que o material está sendo distribuído no formato digital para todos os shoppings do Brasil, além de divulgá-lo nas redes sociais da Abrasce. Neste mês, a associação fará um webinar para discutir o tema.

O documento traz sugestões para os shoppings desenvolverem ações que valorizem a inclusão e a diversidade, como fazer decorações acessíveis para deficientes visuais e incentivar a participação de pessoas transgênero e travestis em processos seletivos para vagas de emprego. Também inclui um calendário com datas relacionadas ao tema para guiar o planejamento de atividades, legislações sobre o assunto e glossário com termos que ajudam a compreender o universo de D&I.

Diversidade e inclusão nas empresas

Uma pesquisa realizada pela PwC em 2020 mostra que as empresas estão investindo cada vez mais em programas de diversidade e inclusão, uma resposta à exigência de empregados, clientes e investidores que buscam apostar tempo e dinheiro em negócios pautados por equidade e inclusão. O consultor em diversidade e inclusão Ricardo Sales indica pelo menos quatro fatos recentes que colaboraram para o aumento do interesse das companhias pelo assunto, principalmente de 2020 para cá.

O primeiro, diz, é a pandemia, que deixou as desigualdades ainda mais à mostra, e o segundo foi o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, que mobilizou protestos em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil.

“O terceiro foi o avanço da pauta ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) no meio empresarial, que alcançou um protagonismo grande e isso faz com que o assunto tenha subido na escala de prioridade da empresa. E o quarto item eu associo à eleição norte-americana, em que os vencedores Joe Biden e Kamala Harris colocam cinco prioridades centrais no seu governo: uma delas é o enfrentamento da pandemia, mas uma das outras é justamente o enfrentamento ao racismo estrutural”, pontua.

Segundo o especialista, sócio-fundador da Mais Diversidade, o cenário político internacional traz consequências para as empresas norte-americanas e chega ao Brasil não só pelas filiais, mas também pelo fato de que essas empresas têm uma influência em todo o mundo. “Hoje, o tema entrou no radar dos conselhos de administração e está ocupando um espaço na agenda da liderança, o que eu acho que é um bom sinal, mas cabe a gente acompanhar para que isso se desdobre em objetivos estratégicos, em metas”, destaca.

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De acordo com o estudo da PwC, que ouviu 3 mil pessoas de 25 indústrias em 40 países, 76% dos participantes afirmam que diversidade é um valor declarado ou área prioritária na organização. No entanto, apenas 5% das companhias dizem ter sucesso com as principais dimensões de um programa de D&I. A companhia lista quatro elementos que tornam a concretização de programas de diversidade e inclusão mais eficazes nas empresas: compreensão dos fatos atuais, construção de estratégia inspiradora, engajamento da liderança e criação de um movimento sustentável.

Outro dado que chama atenção mostra a dissonância entre as percepções dos que estão em cargos de comando e dos funcionários. Enquanto 63% dos líderes acreditam que a empresa oferece informações sobre diversidade e inclusão regularmente, 42% dos colaboradores pensam o mesmo. Um dos motivos para esse cenário é a falta de capacitação das lideranças acerca do tema, segundo a pesquisa.

O presidente da Abrasce afirma que, embora a cartilha seja recente, diversidade e inclusão sempre esteve sob o olhar das lideranças dos shoppings. “Além de discutirmos esse assunto em comitês que contam com a participação de executivos e lideranças, também já abordamos a importância da diversidade e inclusão em nossos principais eventos dedicados ao setor”, diz.

Para Ricardo Sales, iniciativas como criação de cartilhas e treinamentos, por exemplo, “são fundamentais para que as ações de diversidade e inclusão ganhem capilaridade e alcance” e é natural que, num primeiro momento, a estratégia seja compartilhada com a liderança. Mas as ações para massificar esse debate precisam ir além. “Essa é uma forma também de dialogar com diversos outros stakeholders, como consumidores, acionistas, cadeia de valor, entre outros grupos, que precisam saber qual é o olhar da organização para essa pauta.”

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