ESTADÃO PME » » notícias

Estratégia| 19 de dezembro de 2018 | 5h 30

Negócios sazonais se adaptam para lucrar o ano inteiro

Carioca leva marca de biquínis a Barcelona para viver dois verões por ano; para consultora, produtos complementares podem ajudar PMEs

Letícia Ginak - O Estado de S.Paulo

O termômetro acima dos 28°C indica a temperatura ideal para aquecer as vendas de empreendedores que têm o verão como a estação mais lucrativa. Na areia ou no asfalto, os pequenos aumentam o faturamento em cerca de 30%, mesmo em período de crise. Para especialistas, aproveitar a estação é fundamental, mas se adequar aos demais ciclos do ano é a saída para manter as contas em dia.

Incomodada com a certeza de queda nas vendas no inverno, a carioca Danielle Cavalher decidiu viver um eterno verão. A decisão até virou slogan de sua marca de biquínis e maiôs, a Aro Swimwear, criada em 2015. “Comecei a perceber que algumas marcas compensavam a baixa no inverno com o mercado externo, aproveitando o verão do hemisfério norte.”

A primeira entrada no varejo internacional foi em 2016, com a participação em um desfile na Ucrânia. Em seguida, apareceram oportunidades em Veneza e Paris. Danielle sentiu a boa aceitação de suas peças e então preparou a coleção verão 2017 já com a intenção de entrar com força no mercado europeu.

Europa. Danielle Cavalher optou por viver o verão o ano todo e abriu duas empresas da marca de biquínis Aro. Foto: Wilton Junior/Estadão

Europa. Danielle Cavalher optou por viver o verão o ano todo e abriu duas empresas da marca de biquínis Aro. Foto: Wilton Junior/Estadão

“Me mudei para Barcelona e já fiz o verão europeu daquele ano morando na cidade. Como tenho cidadania, atuo como uma espécie de MEI da Espanha. Me tornei importadora de mim mesma. Minha empresa no Brasil fornece para a minha empresa na Espanha”, explica.

Com selo nacional, mas com modelos que destoam dos famosos biquínis brasileiros, pequenos e sexualizados na visão de Danielle, a produção continua no País. Com isso, a empresária afirma que inverte a lógica da moda. “As marcas lançam a coleção primeiro na Europa e depois rebatem no Brasil. Eu optei por lançar primeiro no Brasil e depois levar para a Europa.”

Sobre os planos para a expansão da marca, Danielle diz que não enxerga limites para o mercado externo. “Estou disposta a ir até a Austrália. A estratégia é alcançar cada vez mais pessoas. Mas tenho Portugal e Espanha como mercados em potencial, pois são parecidos com o nosso. Sei que existe uma demanda forte por biquínis de qualidade.”

De dezembro deste ano a fevereiro de 2019, Danielle fica no Rio para distribuir a nova coleção por lojas colaborativas e coordenar as entregas do e-commerce, que ajuda a driblar a sazonalidade do negócio. Depois, o mesmo se repete em Barcelona. A marca também está fisicamente em um showroom em Paris. A empresa, que começou com a confecção de mil peças, já aumentou a coleção para 2 mil.

Deslocar-se para outras regiões também foi a estratégia de Walnice de Oliveira, sócia do Oxente, uma barraca de comida nordestina de Campinas (SP). Para aproveitar o verão ao máximo, ela vai descer com seu food truck para Juqueí (SP) neste verão. “Eu e meus sócios adquirimos o food truck há quatro meses para ampliar os negócios. E logo surgiu o convite de um food park em Juqueí, para fazermos a temporada de verão”, diz.

Especializada em comida nordestina com opções vegetarianas e veganas, Walnice ficará na praia de 26 de dezembro a 31 de janeiro de 2019. As licenças para atuar no local, exigidas pela Prefeitura de São Sebastião, serão preparadas com a ajuda do administrador do food park.

“É a primeira vez que vou descer para a praia. Terei gastos adicionais, mas espero compensar com o volume de turistas”, acredita. De acordo com dados da Secretaria de Turismo de São Sebastião, município ao qual Juqueí pertence, são esperados cerca de 250 mil visitantes na cidade durante o período.

Inspiração. Baseada em uma barraca na praia de Maresias, Juliana de Andrade abriu o Dona Vitamina. Foto: Werther Santana/Estadão 

Inspiração. Baseada em uma barraca na praia de Maresias, Juliana de Andrade abriu o Dona Vitamina. Foto: Werther Santana/Estadão 

A conexão do asfalto com a areia também norteou o negócio da paulistana Juliana de Andrade. “Eu e meu marido viajávamos sempre para Maresias. Lá, tinha uma barraca com comida saudável e simples. Pensamos que não existia nada parecido em São Paulo e decidimos investir em um negócio do tipo.” Foi assim que abriram na capital, em 2010, o Dona Vitamina, uma casa de sucos e comidas leves em Pinheiros, que faz muito sucesso no verão. Com quase nove verões de experiência, Juliana se prepara para a estação mais importante do ano pensando novidades do cardápio e treinando a equipe desde agosto.

“De dezembro a março temos o período mais importante em movimento. Nossa aposta para o verão 2019 é o açaí, tanto em pratos quentes como da forma que já conhecemos.” No inverno, o cardápio refrescante dá espaço para preparações como o nhoque de banana-da-terra e sopas, para aquecer os clientes sem perder a identidade.

Olhar. Para a consultora do Sebrae-SP Jacqueline Boriam, o empreendedor não deve ficar refém das estações que favorecem o negócio. “É preciso ter um olhar mercadológico e buscar um ponto de equilíbrio durante todo o ano”, diz. 

Jacqueline afirma que trabalhar com produtos complementares pode ser uma saída. “Se eu tenho uma marca de biquíni, posso pensar em vender roupas de academia também. Outro ponto é a adequação temporária. Oferecer produtos que cobrem uma demanda sazonal é uma oportunidade de continuar atendendo os seus clientes. Como servir bebidas quentes em uma sorveteria.”

Sorveteria driblou o inverno servindo café na casquinha 

As sócias Suelen Ferrari e Debora Tesoto sentiram a queda nas vendas assim que passaram pelo primeiro inverno, em 2015, à frente da Davvero, de gelatos italianos. Sem sustos, as empresárias tomaram a experiência como aprendizado e começaram a pensar no período com antecedência. Enxergaram uma oportunidade de oferecer receitas originais e foi assim que surgiu o café na casquinha. “Criamos essa receita em um período de frio que também coincidia com uma data comemorativa do café.

Café servido na casquinha de sorvete é uma das criações especiais de inverno da gelateria Davvero. Foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo 

Café servido na casquinha de sorvete é uma das criações especiais de inverno da gelateria Davvero. Foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo 

Tivemos a ideia de pegar a nossa casquinha, juntar com uma calda de chocolate e café”, conta Suellen. A empreendedora também investe no inverno em opções que misturam sorvete com itens quentes, como petit gateau e brownies. “Também criamos receitas para outras ocasiões, como festa junina e Natal, oferecendo novos produtos aos clientes e assim driblamos a sazonalidade.”

Estadão PME - Links patrocinados

Anuncie aqui