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| 30 de outubro de 2017 | 19h 32

Na 25 de Março, lojas tentam se diferenciar

Movimento de “organização da compra” chega à rua de comércio popular e pode se tornar regra

Lorena Lara, Especial para o Estado - O Estado de S.Paulo

Movimento na Rua 25 de Março

Movimento na Rua 25 de Março

Andar pela Rua 25 de Março, centro de compras populares de São Paulo, é um exercício de seleção contínuo. É preciso saber o que olhar, o que ouvir, onde entrar. Em meio a esse quadrode muitas coisas disputando a atenção do cliente, alguns lojistas tentam se diferenciar investindo no atendimento e em um visual mais organizado da loja.  "Não é porque o cliente está nessa região que ele não pode se encontrar numa loja bonita", a supervisora da Bendita Seja, Karina Theodoro, de 38 anos. Na loja que vende desde brincos e anéis até vitrolas e molduras, a estética do ambiente é a principal preocupação. Ali, o produto mais barato sai por R$1,90 e o mais caro pode chegar a R$500.

Para especialistas, o investimento na decoração gera retorno. "Existe uma disputa enorme pelo espaço físico ali, então quando as lojas fazem isso, elas fogem do popular, do comum", afirma o professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP/FGV) Francisco Guglielme Júnior.  Para ele, a medida valoriza o ambiente. "É comprar uma mercadoria barata numa loja bonita. Automaticamente a percepção de que os produtos da 25 são ruins muda. As pessoas olham de forma diferente para o que estão comprando e isso funciona até para quem vai revender, porque agrega valor", avalia.

Reverter a ideia de que os produtos da 25 têm pouca qualidade é preocupação especial do gerente Ammar Alhamza, de 36 anos. Ele trabalha na Kenuz, uma loja de acessórios árabes, cuja gama de valores varia de R$5 a R$600. Para Alhamza, o preconceito com a região espanta possíveis clientes. "Existem pessoas que acham a 25 de Março um mercado feio, têm nojo daqui." Na Kenuz, o maior dos cuidados é dado ao atendimento. O gerente revela que os vendedores são instruídos a não seguir os clientes pela loja e a deixá-los à vontade. E procura fidelizar os clientes com alguns mimos. "Os brasileiros gostam da cultura árabe, então fazemos pequenos eventos aqui. Servimos chá de hibisco, sucos de Rosa da Síria, água de flores."

Segundo o coordenador do MBA em Gestão Estratégica da FAAP, Amnon Armoni, lojas com um visual mais sofisticado numa região como a da 25, não são,no entanto, garantia de vendas. "É uma faca de dois gumes. Pode chamar a atenção positivamente, mas pode espantar o cliente (que pode pensar que os preçso ficaram mais caros). Tal movimento, que pode ser descrito como uma "organização da compra", é reflexo do desenvolvimento da economia com a entrada de lojistas no varejo global  -- e o consequente cumprimento de suas regras. "Importamos da Turquia, do Nepal, China, Marrocos", enumera a gerente de vendas da Le Charm, Samara Silva, de 30 anos. A loja existe há quase sete anos e tem ateliê próprio, no Bom Retiro, que produz peças exclusivas.

Três vezes ao ano, a dupla de designers da loja viaja para o exterior em busca de referências para montar cada uma das quatro coleções. O mesmo método é utilizado na Bendita Seja e, no caso da Kenuz, cujo gerente é sírio e acompanha o mercado do Oriente Médio, não existe a necessidade de estilistas escolherem as peças - quem faz a seleção é o próprio Alhamza. "Para mim é mais fácil antecipar as tendências, porque a moda chega ao Oriente Médio antes de vir para o Brasil", diz. Ele tem secretários na China e no Marrocos, que compram as peças escolhidas ou encomendam sua produção em cores e materiais específicos.

Segundo o professor Guglielme Jr, o movimento de embelezamento do comércio existe desde o início dos anos 2000 e não é mais uma tendência. "Já se consagrou e, se eu fosse lojista, não ia querer ficar para trás", sublinha. Armoni também pensa que o futuro pode ser esse. "À medida que essas novas práticas são instituídas nas lojas, elas praticamente vão obrigar as outras a seguirem esse modelo mais estruturado", defende.

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