CLAYTON DE SOUZA|ESTADÃO | ESTADÃO CONTEÚDO
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Sem emprego, mulheres são ‘obrigadas’ a abrir empresa no País

Levantamento indica que 54% delas ingressam no empreendedorismo por necessidade; entre os homens, índice é de 32%

Vivian Codogno, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2016 | 06h00

Investir no próprio negócio, para uma grande parcela das mulheres brasileiras que o fazem, é uma questão de sobrevivência e não de oportunidade. O empreendedorismo por necessidade, quando a própria empresa torna-se a única possibilidade de manter um rendimento mensal, é mais contundente entre empreendedoras do que entre os pequenos empresários homens do País.

A conclusão faz parte do estudo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2015. Os dados, obtidos com exclusividade pelo Estado, apontam que a taxa feminina de empreendedorismo por necessidade é 22 pontos porcentuais superior que a registrada entre as iniciativas empreendedoras do sexo masculino. São 32% os empreendedores homens por necessidade contra os 54% das mulheres. No saldo total, cerca de 45% das mulheres que estão à frente do próprio negócio o fazem por identificar uma oportunidade promissora de investimento, enquanto que entre os homens essa taxa sobe para 67%.

Nem sempre o índice seguiu essa tendência. Entre 2002 e 2008, a proporção de mulheres que abriram um negócio por oportunidade saltou de 38% para 69%. No entanto, a pesquisa consegue detectar nos anos seguintes a alta da necessidade, possivelmente incentivada pela retração econômica.

Para o presidente nacional do Sebrae Guilherme Afif Domingos, a alta aconteceu como reflexo da formalização de trabalhos que já eram executados de forma autônoma, principalmente em casa. A crise econômica, conforme aponta Afif, é o agente catalisador desse movimento.

“O Brasil ainda não esgotou o fenômeno de formalização por meio do registro de MEI”, aponta o presidente sobre os Microempreendedores Individuais, registro que abarca cerca de 6 milhões de empresários no Brasil. “No escopo do MEI, as atividades de beleza e de alimentação foram as que mais cresceram na mão de mulheres”, analisa Afif.

O cenário delineado pela pesquisa se assemelha ao contexto vivido pela paulistana Jailma Bispo dos Santos, que trabalha desde o ano passado com a empresa Doce ao Paladar, iniciada a partir de um registro de MEI desde que a empreendedora ficou desempregada.

Com um filho de dois anos, Jailma até tentou iniciar uma carreira como corretora de imóveis, mas o tempo excessivo fora de casa e a desaceleração das vendas no mercado imobiliário provocada pela crise econômica logo a desmotivaram. Preparar pães e doces, o que até então era feito apenas por hobby e para a alimentação da família, tornou-se a solução para manter a renda. Hoje, Jailma planeja inclusive envolver o marido, que trabalha como zelador, na produção e nas entregas das encomendas. “O negócio está dando muito certo”, comemora a empreendedora. “Agora, tenho até medo de me ligarem para oferecer entrevistas de trabalho, pois eu não quero, não”, conta Jailma enquanto faz sua compra semanal em uma distribuidora de doces.

Entraves. Apesar da alta dos indicadores, que demonstram um empenho maior de mulheres em empreender, entraves como dificuldade de acesso ao crédito, falta de confiança do cliente e, no limite, o machismo no ambiente corporativo, aparecem como fatores que intimidam o sexo feminino na decisão por tocar o próprio negócio.

O estudo da Global Entrepreneurship Monitor, que no Brasil é financiado pelo Sebrae, aponta uma maior frequência de homens que afirmam ter conhecimento, habilidade e experiência necessárias para iniciar um novo negócio, em 63% dos casos, enquanto 54% das mulheres declararam o mesmo. Para Afif, o dado indica que o grau de autoconfiança para empreender entre os homens é maior do que entre as mulheres.

O fator é sentido na pele por empreendedoras como Vanessa Maciel, que também fabrica doces em sua própria casa. Ela conta que já viveu casos em que conseguiu bons descontos com fornecedores ao fazer compras acompanhada do marido, o que não se repetiu quando sozinha.

“É mais difícil para a mulher. Somos vistas como frágeis, com baixo nível de conhecimento. Descubro um novo desafio pessoal a cada dia”, conta Vanessa.

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