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Entrevista| 28 de novembro de 2018 | 5h 00

'Faltou dinheiro, mas nunca desisti'

Quase 60 anos após o primeiro personagem, Mauricio de Sousa se reinventa com série para Youtube, aplicativo e filme

Letícia Ginak - O Estado de S.Paulo

Mauricio de Sousa, ilustrador e um dos principais nomes dos quadrinhos no Brasil. Foto: Amanda Perobelli/Estadão 

Mauricio de Sousa, ilustrador e um dos principais nomes dos quadrinhos no Brasil. Foto: Amanda Perobelli/Estadão 

Quando o assunto é história em quadrinhos, ele é unanimidade no imaginário dos leitores do País. Mauricio de Sousa é praticamente o Stan Lee brasileiro, criador de personagens infantis icônicos que acompanham gerações há quase 60 anos. O primeiro deles foi o cachorro Bidu, criado em 1959. A mais famosa é Mônica, uma homenagem à filha. A personagem deu origem à Turma da Mônica e, com ela, o ilustrador deu o ponta pé para a Mauricio de Sousa Produções. Hoje, as revistas da Turma da Mônica correspondem a 86% das vendas do setor no Brasil.

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Mauricio de Sousa soube desenvolver o potencial da marca em diferentes mercados. São mais de 150 contratos de licenciamento em 13 diferentes setores da economia, como alimentação, brinquedos, calçados, vestuário e higiene pessoal. Juntos, cerca de 3 mil produtos estampam os personagens do ilustrador.

Sobre as (r)evoluções comportamentais das novas gerações, o ilustrador também seguiu por caminhos bem-sucedidos. Um exemplo é a série Mônica Toy, histórias animadas criadas com o estilo toy art especialmente para o YouTube e que somam 10 milhões de visualizações. Ou mesmo a Turma da Mônica Jovem, que retrata os personagens na adolescência, com 15 anos de idade. 

Mauricio de Sousa também é presença confirmada na CCXP, quando dará mais detalhes sobre o filme em live action Laços e também sobre a criação do aplicativo para a leitura de gibis da Turma da Mônica. Em entrevista ao Estado, Mauricio de Sousa falou sobre o mercado de quadrinhos.

Como você enxerga a evolução do cenário nacional para ilustradores e quadrinistas?

Quando iniciei minha carreira, tive que fazer contato direto com editores de arte e donos de jornais. Fazia as contas da distância para visitar meus contatos, pegar o ônibus e ainda ter dinheiro para voltar. Havia também a concorrência dos quadrinhos estrangeiros que chegavam, e ainda chegam, a preços bem baixos, pois já foram pagos em seus países de origem. Foi uma luta grande nesses anos todos para haver mercado para os quadrinistas nacionais. Hoje em dia, vejo um acesso facilitado para a divulgação de quem quer começar a trabalhar com quadrinhos ou ilustração. Pela internet, pode-se enviar para qualquer contato do mundo uma apresentação do seu trabalho.

A diversidade de produtos com foco em diferentes públicos e formatos sempre esteve em seus planos ou aconteceu com a evolução do mercado e da empresa?

Esse é um trabalho que avança conforme se atende as novas gerações de leitores. Hoje, um pai gosta de comprar as nossas revistas para seus filhos porque quando criança também curtia nossos personagens. Nesses quase 60 anos de produção, já atingimos até a quinta geração de leitores. Portanto, é natural que trabalhemos com essa diversidade de produção para atender à todos.

Qual é a estratégia para fidelizar e renovar o público há tantas décadas? 

O sucesso não vem de graça. Ele é conquistado com muito trabalho para oferecer um produto sempre melhor e também para falar a linguagem do dia e da hora com nossos leitores. As redes sociais ajudam muito no contato direto.

Percebemos que quando histórias e personagens dos quadrinhos vão para as telas (cinema e séries), conquistam um público muito maior. Como vê esse fenômeno? É possível trazer esse público para as páginas dos gibis?

A base de tudo são as revistas. Se os personagens ganham leitores e admiradores, eles sempre gostarão de ver novos produtos. Foi assim que criamos a Turma da Mônica Jovem, para um leitor já na adolescência, as graphic MSP, para o jovem adulto e o Mônica Toy, para os jovens. O primeiro filme live action que estamos produzindo para o cinema com estreia em junho de 2019, Laços, veio do sucesso de público e crítica da graphic MSP de mesmo nome, de Vitor e Lu Cafaggi. Assim está acontecendo com outras histórias. Os shows com os personagens ao vivo estão cada vez mais requintados e especiais. O Parque evolui muito e ainda queremos um dia desenvolver a Turma da Mônica Adulta.

Qual foi o maior desafio que teve em sua jornada como empreendedor?

Acreditar em mim, mesmo quando as coisas não iam bem. Faltou dinheiro, estrutura, mas nunca desisti. E chegou um momento em que tudo começou a funcionar melhor para obter ganhos que me ajudaram a ter a melhor estrutura de sustentação.

Quais dicas daria para quem pretende empreender como ilustrador neste segmento?

Em primeiro lugar, leia muito e assista a filmes e peças de teatro para aprender como funciona contar uma boa história. Depois, muito treino no desenho para apresentar algo novo ao mercado. Algo que surpreenda. E nunca deixe o trato do dinheiro em segundo plano.

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