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Inovação financeira| 10 de maio de 2018 | 8h 00

'É tanto aventureiro que o mercado fica poluído', diz CEO da Ewally sobre fintechs

Fundador da startup de soluções financeiras para desbancarizados fala sobre empreendedorismo de impacto, ampliação do negócio e a onda de empresas nascidas na era da transformação digital

Felipe Tringoni, especial para - O Estado de S.Paulo

Escritório da Ewally no espaço do inovaBra habitat, em São Paulo. Foto: Divulgação

Escritório da Ewally no espaço do inovaBra habitat, em São Paulo. Foto: Divulgação

A população brasileira acima de 16 anos que não possui conta bancária ou acesso a empréstimos e poupança está em torno de 50 milhões. No mundo todo, esse número chega a dois bilhões de pessoas. "É um problema recorrente, inclusive nas economias mais desenvolvidas", diz André Cunha. Foi pensando nessa fatia excluída financeiramente que o empresário fundou a Ewally em 2016. A startup oferece soluções práticas por meio de um aplicativo, que possibilita pagamento de contas, transferências e recarga de celular.

Surfando a onda das fintechs – jovens empresas do setor financeiro que trabalham com tecnologias disruptivas –, a Ewally passou por programas de aceleração da Artemisia e do Bradesco e hoje oferece a seus clientes mais serviços que uma conta bancária tradicional. Nesta entrevista, Cunha fala sobre o viés de educação financeira de seus produtos, metas do negócio e comenta o boom das fintechs: "É tanto aventureiro que o mercado fica poluído. Mas o próprio mercado se encarrega de separar o joio do trigo".

Como surgiu a ideia da fintech e dos serviços oferecidos?

A ideia é antiga e surgiu quando eu participava de grupos do World Economic Forum para inclusão financeira. Víamos que no mundo todo, mas especificamente no Brasil, existe um grande número de pessoas não-bancarizadas. Para elas, pagar uma conta não é algo simples. Eles usam dinheiro, têm que ir a uma lotérica, pegar fila, e isso envolve sair no meio da jornada de trabalho, chegar tarde em casa... A ideia é oferecer ao não-bancarizado a mesma experiência ou até mais serviços do que os disponíveis para os clientes de bancos.

Uma das características das fintechs é trabalhar com nichos bem específicos. Fale um pouco sobre o público a quem se destinam os serviços da Ewally. Por que focar nos desbancarizados?

Primeiro porque você pode causar uma transformação social, melhorar a qualidade de vida das pessoas, dar a elas mais segurança financeira e até mais segurança física. Agilizar, melhorar a produtividade, o controle de despesas. Todos esses são grandes motivos. E se você pensa em nível de sociedade, podemos impactar a economia do país. É algo bacana de se fazer, melhorar a vida das pessoas usando tecnologia de fronteira. Conseguir inovar numa indústria tão tradicional e fechada como a financeira é bastante motivador. Além disso, é um negócio altamente escalável e pode ser bem sucedido economicamente.

Como foi o processo de aceleração com a Artemisia?

Foi em 2015. A Artemisia nos deu um formalismo na área de impacto social. Tínhamos vontade, queríamos atuar na área, mas não sabíamos ao certo as métricas e como acompanhar o impacto social. Mas não houve nenhum aporte financeiro.

A Ewally passou também pelo programa inovaBra Startups e hoje está sediada no inovaBra habitat. Conte um pouco sobre a entrada nesse programa do Bradesco e no espaço de co-inovação do banco.

Fomos selecionados como uma das startups mais inovadoras no setor financeiro. Isso nos permitiu algumas integrações sistêmicas com o banco e também nos deu a experiência da indústria financeira. Nossos produtos amadureceram durante o programa e hoje temos todos os sistemas de segurança e a qualidade dos serviços com padrão bancário. Embora não sejamos um banco, temos um nível de atendimento que um banco tem. Sobre o habitat, existe todo um ecossistema girando aqui: outras empresas, parceiros, startups. Isso aumenta muito a exposição, hoje temos contatos quase diários com outras empresas e possíveis links de negócios.

Fale um pouco sobre a formação da sua equipe hoje. Planeja expandir?

Hoje temos por volta de 20 funcionários, a maioria absoluta é de engenheiros e programadores. Temos um viés tecnológico muito forte que vem da minha formação [Cunha cursou Engenharia no ITA e tem PhD e pós-doutorado em áreas científicas]. Tenho anos de estrada e sempre fui empreendedor, tive várias empresas, startups que tiveram sucesso, outras não. Para mim é natural ter esse viés mais inovador. O que precisamos agora é de mais braço para atender todas as nossas demandas.

As fintechs têm crescido e buscam ampliar suas possibilidades. O Nubank, por exemplo, surgiu como emissora de cartão de crédito, mas recentemente passou a oferecer também contas de pagamento. Como você planeja a expansão da startup?

Pretendemos ampliar bastante nossa base e também a oferta de produtos, para que o cliente faça one stop shop: tenha na Ewally acesso a todos os produtos financeiros que ela gostaria de ter. Crédito, investimentos flexíveis, pequenos seguros. Temos alta escalabilidade, tanto no mercado potencial – nosso target marketing é grande –, quanto no desenvolvimento da tecnologia, já que nossa principal característica é a rapidez de atendimento. Utilizamos 100% de inteligência própria, tudo foi feito em casa. E temos um plano de atingir dois milhões de usuários em cinco anos. Hoje nossa base é pequena, cerca de 20 mil usuários.

E em quais soluções a Ewally trabalha no momento?

Participamos de um programa no começo do ano passado com a Oracle e agora estamos desenvolvendo um piloto de solução que utiliza a tecnologia Blockchain para algumas transações financeiras. Além disso, acabamos de lançar um chatbot no Facebook Messenger que, usando algoritmos de inteligência artificial, aumenta a eficiência e rapidez no atendimento aos clientes.

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Neon na última semana e a instituição teve suas atividades suspensas. Mesmo que o problema não envolva diretamente a fintech Neon Pagamentos, acontecimentos como esse prejudicam a imagem das fintechs como um todo?

Tente se colocar no lugar da pessoa que está analisando o negócio. Uma notícia dessas assusta. Há muito falatório em cima desse termo fintech e a coisa não é tão boa quanto imaginam, nem tão ruim. É mais uma vertente de negócios que vai ser depurada ao longo do tempo. Os bons vão sobreviver. E quando mostramos a Ewally, todas as auditorias, testes e investigações que já tivemos explicam bem o que é a empresa, a solidez e a sustentabilidade dela. Isso tranquiliza o observador, seja investidor, parceiro ou cliente. Temos todas as respostas para dar e fazemos isso com muita seriedade e pensando no longo prazo.

Como vocês se preparam para evitar problemas de segurança e conquistar credibilidade?

Vou dar um exemplo prático. Fizemos integrações com o Bradesco e, para isso, tivemos que passar por inúmeros testes e auditorias de setores do banco que comprovam que a solução é robusta o suficiente, atende aos níveis de segurança exigidos pelas normas estabelecidas, tanto regulatórias quanto de compliance. Tudo isso é profundamente avaliado. O padrão da indústria bancária é muito alto, inclusive no Brasil.

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