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| 29 de setembro de 2016 | 5h 00

Crowdfunding faz sucesso com projetos culturais

Crise econômica e acesso restrito a leis de incentivo à cultura tornam o financiamento coletivo fonte importante de viabilização de projetos

Vivian Codogno - O Estado de S. Paulo

Não é apenas de produzir que vivem os entusiastas da economia criativa. Eles também pensam em alternativas de captação de recursos. E uma estratégia que vem se consolidando para o setor é a vaquinha virtual, conhecida pelo nome oficial de crowdfunding. No Brasil, essas iniciativas apareceram há pouco mais de cinco anos e, basicamente, servem para viabilizar empreendimentos ligados ao mundo das artes.

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Angariar fundos para um projeto por meio da captação de ‘apoiadores’ – como são chamados aqueles que aportam algum recurso para a iniciativa em questão – é estratégia comum em países europeus e nos Estados Unidos, precursor do movimento. O norte-americano Kickstarter, principal portal de crowdfunding do mundo, já acumulou mais de US$ 2,6 bilhões em financiamentos para os 112,1 mil projetos, mais do que os fundos públicos dos Estados Unidos direcionado aos investimentos de arte, que não chegam a US$ 1 bilhão.

Por aqui, o Catarse é o primeiro representante. O site acumula em sua carteira 3,5 mil iniciativas viabilizadas. Apenas no primeiro semestre deste ano, o número de aportes dentro da plataforma cresceu 33%. Até outubro, a expectativa dos fundadores é de que ele alcance o mesmo engajamento do ano passado inteiro.

Conforme avalia Diego Reederg, sócio do Catarse, a crise econômica e o volume de iniciativas de sucesso no crowdfunding é um dos fatores que eleva o engajamento do público. “Os idealizadores dos projetos aprenderam há pouco tempo a criar uma comunidade de pessoas em busca de um ideal e são elas que financiam os projetos”, analisa o empreendedor. “O financiamento coletivo tem uma relação estreita com a comunidade em que o produto vai atuar. O apoiador vira um coprodutor”, comenta.

No Kickante, também nacional, esse movimento é ainda mais evidente. Apenas no primeiro semestre deste ano, foram financiados mais de 6 mil projetos criativos, em um total de R$ 8,27 milhões em investimentos. No mesmo período de 2015, os 2 mil projetos em pleito receberam R$ 2,89 milhões. A fundadora da plataforma Candice Paschoal vislumbra o crowdfunding como a principal fonte de financiamento para iniciativas culturais no futuro. “Existe uma necessidade de financiamentos alternativos. As leis de incentivo não estão funcionando como antes e as empresas não estão investindo”, comenta. “Nos Estados Unidos, quando a economia desacelerou, o crowdfunding disparou. O mesmo está acontecendo aqui e eu espero ainda muito mais”, prospecta a empreendedora.

Projetos. Com projetos bem-sucedidos, o financiamento coletivo começa agora a se expandir para além do estereótipo de plataforma para artistas independentes. Ele vai também se tornando um expediente cada vez mais comum de personalidades do meio. No ano passado, o álbum “A Mulher do Fim do Mundo”, de Elza Soares, esteve entre os mais bem avaliados da MPB. 

A cantora, porém, quer ir mais longe e levar o trabalho para uma edição em DVD. Com a carreira marcada por atitudes pouco convencionais, Elza optou pelo crowdfunding para viabilizar a ideia. A proposta é realizar a gravação na comunidade carente de CentreVille, em Santo André. Sua campanha está no ar no Kickante e busca levantar R$ 400 mil.

Iniciante. Elza Soares recorreu ao modelo para lançar DVD

Iniciante. Elza Soares recorreu ao modelo para lançar DVD

“Pensamos em levar a apresentação para um comunidade, levar a nossa música até o povo mesmo e fazer esse registro lá”, conta Elza. “Seria muito mais fácil gravar em um teatro, porque a estrutura já está pronta. Na comunidade, precisamos levantar toda a estrutura e também queremos deixar coisas legais para as pessoas. Daí, surgiu a ideia de fazer o crowdfunding.”

Conforme aponta a cantora, as transformações do mercado fonográfico tornam o financiamento coletivo uma real alternativa de captação de recursos. “Tocar na rádio era sinal de sucesso. O disco ‘A Mulher do Fim do Mundo’ foi muito premiado, mas não tocou na rádio. E tudo mudou”, analisa. 

O caráter disruptivo também chegou ao mundo da arquitetura e urbanismo sob o guarda-chuva do financiamento coletivo. Um dos maiores sucessos do Catarse foi o projeto Mola, uma espécie de “Lego” de peças que possibilita o estudo de estruturas arquitetônicas. A meta inicial de arrecadação do Mola foi de R$ 50 mil. Ao fim da campanha, porém, o aporte total recebido de apoiadores foi de R$ 600 mil. 

O arquiteto e idealizador do projeto Marcio Sequeira conta que não conseguiria tirar os kits do papel se não optasse pela vaquinha virtual. “Tentei patrocínio e investimento por outras vias mais tradicionais, sem sucesso”, conta. O reconhecimento foi tamanho que Sequeira planeja lançar uma segunda campanha para uma nova edição do mesmo projeto, que já alcançou mais de 40 países com a primeira versão.

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