ESTADÃO PME » » notícias

Minha História| 27 de novembro de 2015 | 9h 20

O peso da tradição japonesa nos negócios

Sakura tem bem definida a proposta para manter sua relevância: crescer de olho nos valores da família que a criou

Gisele Tamamar, O Estado de S. Paulo

Na década de 1970, com os três filhos já formados, o empresário Suekichi Nakaya pensou em fechar as portas da Sakura. Mas o caçula da família, Renato Kenji, tinha acabado o curso de engenharia química e aceitou o desafio de continuar a empresa. Deu certo. O negócio que começou com a produção artesanal de shoyu e missô hoje engloba mais de 350 itens e já completou 75 anos de vida.

Roberto, Renato e Henry cuidam da Sakura, empresa com 75 anos de fundação
Roberto, Renato e Henry cuidam da Sakura, empresa com 75 anos de fundação
Werther Santana/Estadão

::: Estadão PME nas redes sociais :::
:: Twitter ::
:: Facebook ::
:: Google + ::

Renato conta que tinha emprego garantido em uma petroquímica, mas com as aulas sobre fermentação ainda frescas na cabeça, foi fazer um estágio no Japão para conhecer a produção e consumo de missô e shoyu no período pós-guerra. A estadia na terra dos pais foi essencial para a introdução de novas tecnologias.

Situação bem diferente da experimentada no início do negócio, que começou com Suekichi e a mulher Chiyoko. Ele atuava como professor de ikebana (arte oriental de fazer arranjos) e ela era enfermeira em Ehime-ken, no Japão. Recém-casados, eles chegaram ao Brasil como a maioria dos imigrantes japoneses e foram trabalhar em fazendas de café, mas logo mudaram-se para São Paulo e Suekichi foi trabalhar como balconista.

Na época, a maioria dos imigrantes sabia fabricar shoyu, missô e tofu, habilidade que muitos conterrâneos perderam com o passar do tempo, o que não ocorreu com a família Nakaya. “Os amigos e vizinhos começaram a pedir e a produção artesanal aumentou até 1940, quando meu pai abriu uma fábrica”, conta Renato.

O atual presidente da companhia, aliás, guarda boas lembranças da produção artesanal organizada pelos familiares, época em que o despertar era definido pela hora de misturar o fermento para a produção do missô, chamado pela colônia japonesa de koji.

“Quem fazia a hora de acordar era o koji, não era você. O pico do calor do fermento era entre 1h e 3h e não tinha estufa. Eram tarefas árduas que hoje temos que dar valor”, conta Renato, que também se recorda das tardes em que ajudava a separar soja. “As boas lembranças ficam na história.”

A primeira fusão da empresa ocorreu com negócios da própria família. O irmão de Suekichi, Hidekazu, também saiu da cidade de Promissão para produzir shoyu no interior de São Paulo, em Presidente Prudente. Ambas as marcas – a empresa de Hidekazu se chamava Cereja – usavam a flor como símbolo e as duas tinham o mesmo sobrenome. “Os próprios consumidores começaram a perguntar o que era Sakura, o que era Cereja, qual Nakaya fazia shoyu. Resolvemos fundir e aumentar nossas forças”, afirma Renato.

Hoje, a empresa ainda mantém fábricas em Boituva e em Ouvidor, no estado de Goiás, onde há estrutura para preencher 84 milhões de frascos de molho por ano. Renato tem ao seu lado, no comando da empresa, o sobrinho, Roberto Ohara, vice-presidente do negócio, e o filho Henry, na diretoria de marketing. O filho sempre acompanhou o pai nos negócios e cresceu com a imagem do avô e do pai na fábrica. “Foi meio que por osmose”, brinca Henry ao justificar o trabalho na Sakura. Brincadeiras a parte, os mais novos querem manter a tradição do negócio. “Quando cheguei, em 1990, a empresa já tinha 50 anos. Continua sendo um desafio grande”, afirma Roberto.

Um desses desafios, por exemplo, é vender o shoyu brasileiro para outros países. “Imagina a gente em uma feira na Europa dizendo que faz shoyu no Brasil? Demora meia hora para o cara começar a levar a gente a sério. Hoje, o mercado que mais cresce é a Europa, mas isso é fruto de um trabalho de pelo menos dez anos”, explica Roberto.

Atualmente, a Sakura atua com gestão mista entre membros da família e diretores contratados. Mas os valores da cultura oriental ainda permanecem. “É a combinação de perenidade com perpetuidade”, afirma Renato.

Estadão PME - Links patrocinados

Anuncie aqui