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Vinícola usa falcões, drones e até dados no combate a mudança de clima

Empresa familiar da Califórnia emprega métodos tradicionais ao lado da tecnologia para minimizar um problema típico de nosso tempo

David Gelles, The New York Times

15 de janeiro de 2017 | 05h44

A Jackson Family Wines é uma das vinícolas da Califórnia que emprega técnicas da velha escola ao lado da alta tecnologia para se adaptar às condições mais quentes e secas do clima.

Recentemente, numa manhã típica de outono, com muita névoa, no Condado de Sonoma, na Califórnia, Katie Jackson fazia sua ronda costumeira pelos vinhedos para avaliar as condições da colheita. Era o fim de outono, e um exército de trabalhadores acelerava para colher os cachos antes que as primeiras chuvas, embora finas, começassem a cair.

Mas naquele dia, Katie, vice-presidente de sustentabilidade e assuntos externos da Jackson Family Wines, não estava preocupada com a quantidade usual de uvas cabernet, chardonnay e merlot. Ela verificava a rede sofisticada de sistemas que haviam sido instalados para ajudar a safra a se adaptar à mudança climática.

Katie, juntamente com os irmãos e a mãe, dirige e é a proprietária da empresa da família. Mais conhecida pelo chardonnay Kendall-Jackson, um dos mais vendidos nos supermercados, a família produz também dezenas de outros vinhos em cinco continentes. Há décadas atuando neste ramo de negócios, os Jackson estão atentos à menor variação do clima, e estão convencidos de uma coisa: está ficando cada vez mais quente, e isto poderá se tornar um problema sério.

Enquanto a Califórnia sofre, há um ano, por causa de uma seca prolongada, os Jackson, como outros vinicultores, tiveram de enfrentar uma nova realidade. As uvas, embora um produto surpreendentemente resistente, estão sendo colhidas mais cedo. As noites são mais quentes, os aquíferos já começam a secar.

Consequentemente, o setor vinícola da região, se tornou um laboratório em que se tenta reformular a agricultura de toda a nação. É claro que não é apenas na Califórnia que o clima está mais quente.

Os Jackson decidiram ir além das medidas costumeiras adotadas para reduzir a seca; lançaram mão também de corujas e falcões que se alimentam das pragas atraídas pelos invernos mais amenos. E estão encontrando novas estratégias para captar a água da chuva. 

Além disso, como o consumo de combustíveis fósseis é um dos principais fatores que contribuem para a mudança do clima, eles buscam maior eficiência em sua atividade, em parte com o emprego de antigas técnicas de cultivo. A mudança climática obriga os Jackson a responder a questões ao mesmo tempo práticas e existenciais: É possível produzir vinhos finos com menos água? Daqui a 20 anos, estes lugares continuarão produzindo boas uvas? Qual será o destino de um setor econômico fundamental para a identidade da Califórnia, que, segundo seus cálculos, contribui com US$ 114 bilhões anuais à economia da nação?

De jeans, camisa xadrez e botas para caminhada, Katie, 30, acompanhou um dos gerentes da vinícola numa volta a cavalo até o topo de uma colina da qual se descortina a pitoresca Alexander Valley, área que produz alguns dos melhores vinhos da Califórnia.

Lá no alto, parou para inspecionar um galpão que abriga o sistema de irrigação do vinhedo. Em seu interior há um novo dispositivo de frequência variável destinado a economizar energia que permite uma irrigação eficiente, mais precisa.

Nas proximidades, há uma estação meteorológica movida a energia solar. Se os sensores acusarem aumento do frio no meio da noite (a mudança de clima, evidentemente, não significa que esteja sempre quente), novas turbinas começarão automaticamente a fazer circular ar quente para proteger as vinhas.

Além disso foi instalada uma casinha para as corujas - atualmente ocupada - como parte de uma tentativa de controlar as pragas sem pesticidas. E pouco abaixo do pico há uma cisterna rústica para administrar o recurso mais precioso de toda plantação: a água.

"O clima está ficando mais quente, e estamos vendo temperaturas mais extremas, de chuvas persistentes à maior seca", disse Jackson. "Aos poucos, estamos aprendendo".

Até o momento a seca não prejudicou o negócio do vinho na Califórnia. Não houve destruição de colheitas e a qualidade continua excelente. Além disso, muitos dos vinhedos da família Jackson se encontram em bolsões da costa da Califórnia que se beneficia da neblina fresca, úmida.

Mas aqui as dificuldades não são teóricas. A mudança climática já ameaça a oferta mundial de café. Vários informes sugerem que o aumento das temperaturas em todo o planeta poderá ameaçar as regiões vinícolas nas próximas décadas. Outro estudo mostra que em 2050, muitas regiões da Europa, inclusive grande parte da Itália e do Sul da França, poderão tornar-se inadequadas para a uva de vinho. O mesmo estudo afirma que, por volta de meados do século. a produção da Califórnia poderá cair até 70%. / Tradução de Anna Capovilla

 

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