Rodrigo Vieira
Rodrigo Vieira

Vinho em lata cresce com informalidade e adeptos da sustentabilidade

Alta taxa de reciclagem de latas de alumínio e foco em público despojado são apostas de negócios; consumo crescente de bebida alcoólica na pandemia ajuda a impulsionar vendas

Nathalia Molina, Especial para o Estadão

15 de abril de 2021 | 05h02

Uma experiência despojada, de preço mais acessível, e atenta à sustentabilidade. O vinho em lata abriu caminho no mercado brasileiro nos últimos anos e ganhou um atalho com a pandemia e a consequente alta no consumo da bebida no País em 2020. A pioneira no setor no Brasil inaugurou um quiosque em março na Praia de Ipanema, no Rio, e planeja começar a exportar. Novas marcas apareceram, uma delas em janeiro deste ano. Nas várias empresas, mais lançamentos estão previstos para maio e os faturamentos, já na casa dos milhões, não param de subir.

O vinho em lata é produzido com uvas do Rio Grande do Sul, cultivadas na Serra Gaúcha e também nos Pampas. As latinhas da Mysterius, de elegante design e formato mais alto com 310 ml cada, chegaram ao mercado em março, com a bebida produzida pela Estância Guatambu, uma das proprietárias da nova empresa.

“A gente queria uma linguagem que fugisse do padrão dos vinhos, leve e atraente. Muito do enfoque foi pensado para esse público jovem que está migrando dos drinques e para quem já consumia um vinho reserva, mas não fica limitado a levar garrafa se vai para o campo ou para uma festa”, diz Gabriela Potter, sócia da Guatambu e diretora da Mysterius para produção.

O primeiro lote de 20 mil unidades se dividiu igualmente entre Veraz (tinto seco) e Intuição (espumante brut). Para o próximo mês, mais dois vinhos chegam ao público: o rosé Dasmarias e o branco Solstício. “Todas as uvas na Campanha são viníferas. Estamos na latitude 31, com verão seco de muita insolação e inverno com temperaturas baixas constantes. O clima permite qualquer tipo de vinho”, explica a enóloga.

“É verdade que você não vai sentir todos os aromas na lata. Mas, se é para ser um momento mais informal, é prático e vai compensar pelas outras experiências.” Vinícola boutique, com pequenos lotes e garrafas numeradas, a Guatambu produz 120 mil garrafas por ano e projeta 60 mil latinhas da Mysterius para 2021. “A nossa marca já tem reputação. Nunca vai criar um produto se não for de extrema qualidade”, afirma Gabriela. 

Lançada no ano passado, a Lovin’ Wine também se preocupou em conquistar os consumidores pelo paladar. “Fechei uma parceria com a Casa Perini, vinícola gaúcha muito conhecida, que desenvolveu um blend de vinho frisante, algo que fosse fácil de beber”, conta João Paulo Sattamini, CEO da empresa. “Não é para um cara que lê Wine Spectator, mas também não é um vinho barato, ruim. Logo no primeiro ano, ganhamos o Wines of Brazil Awards Gold com o rosé.”

Com dez anos de experiência em bebidas não alcoólicas, Sattamini criou o Organique, primeiro energético orgânico brasileiro, feito de erva-mate, açaí e guaraná e vendido em lata. “Acredito muito na sustentabilidade, em causar o mínimo impacto possível. A lata tem uma das maiores taxas de reciclagem no Brasil. O vidro pode ser 100% reciclável, mas não é 100% reciclado.”

De setembro de 2020 a março de 2021, a Lovin’ faturou R$ 1 milhão. “A gente lançou o produto em agosto do ano passado. É uma startup de vinho DNBV (Digitally Native Vertical Brand): faz produção, parte industrial, desenvolvimento de produto, marketing e distribuição até o cliente”, explica Sattamini.

O primeiro lote de 15 mil latas, inicialmente previsto para durar uns três meses, vendeu em menos de 30 dias. “Foram dois motivos: o consumo de vinho cresceu 30% na pandemia e a venda online de vinho cresceu acima de 50%”, diz. Depois do sucesso dos frisantes, a marca lança o rosé seco na primeira semana de maio. A Lovin’ espera faturar R$ 5 milhões neste ano.

A Vivant Wines, pioneira no vinho em lata no Brasil, quer atingir R$ 23 milhões de faturamento em 2021 – nos dois anos anteriores, início da operação, a empresa alcançou R$ 1,2 milhão (2019) e R$ 6 milhões (2020). “A ideia é continuar fortalecendo a distribuição física no Brasil, e parte desse volume virá da exportação, prevista para o segundo trimestre. A gente quer começar pelos países vizinhos”, afirma Alex Homburger, CEO da empresa. Presente em mais de 4 mil pontos de vendas em 25 Estados brasileiros, a Vivant mantém uma negociação avançada para vender para o Peru e o Paraguai.

Antes do verão passado, em outubro, os consumidores foram apresentados aos dois frisantes da marca. “Branco e rosé são vinhos mais flexíveis em termos de clima e temperatura e se encaixam muito bem na lata”, diz Homburger.

Com intuito de reforçar a identidade do produto, a empresa abriu um quiosque na orla de Ipanema. “O Rio recebe bastante turista o ano inteiro, então não atinge só o carioca. A praia para a Vivant é muito importante. É um dos principais locais de consumo do vinho em lata, como a piscina.” No quiosque, são vendidos os cinco vinhos da marca, incluindo tinto, rosé e branco secos, produzidos pela Quinta Don Bonifácio, em Caxias do Sul.

O CEO da Vivant acredita que o setor ainda tem muito a crescer no Brasil. “Os Estados Unidos são os mais avançados em termos de vinho de lata, com cerca de 300 marcas. Lá o mercado cresceu mais de 90 vezes nos últimos oito anos. A gente usa isso de benchmarking”, diz.

A Vinícola Góes, em São Roque (SP), decidiu entrar nesse mercado também, levando em conta a sustentabilidade com a reciclagem da lata, a facilidade do consumo em porções menores e a possibilidade de ganhar consumidores. Participante do Roteiro do Vinho de São Paulo, a empresa lança sua linha Sauv até o início de maio deste ano, quando os frisantes branco e rosé devem estar à venda na loja virtual da marca.

Vinho na caixa de papelão

Adriano Santucci, da Fabenne, vê o vinho fora da garrafa no Brasil do mesmo modo. “Temos de desritualizar e diminuir esse preço. Novos formatos vão ajudar muito a categoria. As vinícolas do Sul são boas em terroir, e a Fabenne e outras marcas, em encontrar o consumidor final e distribuir”, diz o sócio da startup, que envasa o vinho produzido pela Cooperativa São João, de Farroupilha. “Eles têm 450 famílias descendentes de italianos, cultivando uva há mais de 100 anos, muito focados na elaboração do vinho.”

A Fabenne, no entanto, trabalha com outro formato de embalagem: bag-in-box. “É muito conhecido no mundo inteiro e é realmente um saquinho dentro da caixa. Vão mais de 800 tipos de resinas no saco, o que mantém a qualidade do vinho. Tem a torneirinha e a gravidade empurra o vinho para baixo, evitando entrar tanto ar. Existem estudos que mostram que, se você toma uma taça por dia da bag in box, o vinho pode durar até oito semanas.” A caixa de três litros, segundo ele, ainda tem a vantagem do preço. “Nosso custo acaba sendo de R$ 5 a R$ 6 por taça, com umas 20 ou 30 por mês.”

A empresa começou em 2017, mas focou no consumidor final apenas a partir de março de 2020. “A gente queria testar o conceito com bares e restaurantes, ter uma chancela, validar o produto”, conta Santucci. Em 2019, a empresa atendia diretamente 360 estabelecimentos. “Quando chegou a pandemia, ficaram dez e a inadimplência aumentou, então a gente decidiu contar a história do bag in box e investiu no ecommerce.”

Terminou o ano passado com R$ 4 milhões de faturamento e 10 mil clientes na base do seu ecommerce. Para este ano, a meta é chegar a 50 mil casas e faturar R$ 16 milhões. “Cerca de 30% dos nossos consumidores compram dois bags por mês. Vamos expandir de três para seis tipos de vinho em maio. O tinto é o que mais vende, de 60 a 70%.”

Quanto custa

Mysterius: Com seis unidades de 310 ml, o pack de 310 ml custa R$ 210 (o valor individual fica em R$ 35)

Lovin’: A caixa com quatro latas de 269 ml sai por R$ 79,60 (equivalente ao custo unitário de R$ 19,90)

Vivant: Por R$ 76,50, o kit degustação inclui cinco latas de 269 ml (uma de cada tipo de vinho da marca)

Góes: A lata de 269 ml custa R$ 15

Fabenne: A R$ 99, a embalagem contém três litros de vinho – rosé e branco estão em oferta, a R$ 84 cada

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