Jennifer Altman/USA Today
Jennifer Altman/USA Today

Vaquinha virtual ajuda empreendedor a tirar seu negócio do papel

Por meio de crowdfunding, empreendedores apresentam suas propostas e conseguem dinheiro para criar empresas

Roger yu, usa today,

04 de junho de 2012 | 18h00

 Em 2006, quando estudava em Gana e passeava pelos mercados locais, Meghan Sebold se impressionava com a enorme quantidade de tecidos supercoloridos que ficavam encalhados nas bancas. Ao retornar a San Francisco, ela teve a ideia de produzir uma linha de vestidos usando os tecidos e o talento do país africano. Mas faltava dinheiro.

Até que num seminário em Nova York ela esbarrou nos fundadores do RocketHub - um website de crowdfunding, uma espécie de "vaquinha virtual" onde pessoas e empresas conseguem financiamento para seus projetos por meio de doações coletivas. Por insistência e orientação de Brian Meece e Vladimir Vukicevic, ela apresentou seu projeto no RocketHub.com, acompanhada de um vídeo, pedindo contribuições financeiras da família, amigos e amigos de amigos.

A meta de US$ 4 mil foi alcançada em duas semanas. E a sua primeira coleção de vestidos feitos por costureiras em Gana, foi toda vendida online e em lojas locais. "É diferente de pedir: tio, me empresta US$ 20?", diz.

Empresários e sonhadores como Meghan Sebold estão recorrendo em massa ao crowdfunding, um setor emergente de financiamento que, usando a internet como intermediária, consegue muitas vezes ser mais eficiente do que os meios tradicionais. A ideia existe há anos, mas vem despertando mais atenção agora que redes sociais e tecnologias em meios de pagamentos estão derrubando os obstáculos logísticos, psicológicos e legais para pedidos de financiamento.

RocketHub, Kickstarter, PledgeMusic, Funding4Learning, ArtistSjare, FundRazr e centenas de outros websites incentivam a colaboração das pessoas comuns a participarem de um fundo financeiro coletivo, por meio da internet, e apoiarem os esforços de outros indivíduos no campo empresarial, educacional e artístico, e também de instituições de caridade ou humanitárias. "A internet é uma ferramenta incrível de poder organizacional", disse Yancey Strickler, cofundador do site Kickstarter.

Embora se sintam realizados ao ver que campanhas que apoiaram deram certo, os doadores normalmente não recebem informações sobre os projetos nem participações. Mas isso pode mudar. O presidente Obama sancionou recentemente uma lei, o Jumpstart Our Business Startups Act (chamado Jobs Act), que permite que indivíduos adquiram participações em empresas por websites de crowfunding, seguindo certas regras. A lei entrará em vigor em 2013.

"Essa é uma expansão do modelo do investidor anjo, em que pessoas abastadas investem em troca de participação", disse David Rubinstein, sócio da auditoria WeisertMazars. Em 2011, US$ 1,5 bilhão foi arrecadado por 450 websites de crowfunding, segundo estudo do site Crowdsourcing.org. O valor deve dobrar este ano.

Os sites também ganham. Eles recebem uma porcentagem do dinheiro levantado (3% a 5%) e uma comissão em cada transação. Em alguns websites, quem está fazendo a campanha só recebe o dinheiro se a meta foi cumprida. Caso contrário, é tudo devolvido aos doadores. Campanhas bem sucedidas costumam arrecadar, em média, US$ 5 mil.

O Jobs Act provavelmente vai elevar o limite de financiamento para alguns websites quando eles começarem a vender participação de capital online. A comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos (SEC) está redigindo as normas para esse tipo de transação. Mas órgãos estaduais já emitiram comunicados alertando os consumidos sobre os riscos envolvidos.

Os proponentes do crowdfunding apostam que o advento de um outro canal para levantar financiamento será uma bênção para empreendedores. O número de empresas financiadas assim pode crescer 60% este ano, para 540, segundo estimativas do Crowdsourcing.org. "Veremos um grande número de plataformas de nicho - especializadas em tipos específicos de gadgets ou tecnologias", diz Kevin Berg Grell, diretor de programas da Crowdsourcing.org.

O ArtistShare, por exemplo, é um estúdio de música online que também propicia encontros entre músicos e fãs que contribuem com dinheiro para seus artistas favoritos. "Nosso primeiro projeto ganhou um Grammy, mas as pessoas não entenderam", disse Brian Camelio, fundador do ArtistShare.

Maria Schneider, compositora de uma orquestra de jazz, encontrou Brian Camelio quando lutava para levantar dinheiro para seu primeiro álbum, em 2001. Usando o ArtistShare, ela levantou mais de US$ 100 mil, usados para produzir o álbum Concert in the Garden, que recebeu um Gammy em 2004. "O ArtistShare me propiciou a maior parte dos lucros. Se vendo um CD por US$ 16,95, não vou dividir com os distribuidores e não preciso vender tanto." Agora, ela está concluindo seu terceiro álbum.

Fraudes. A maneira como os websites de crowdfunding administram o dinheiro varia. O cruzamento de crowdsourcing, dinheiro e anonimato permitido pela internet pode parecer uma pocilga de desonestidade e fraudes, mas os operadores dos sites são sensíveis a isso. A abordagem financeira do "tudo ou nada" do Kickstarter - os doadores não pagam nada se a campanha não atingir suas metas financeiras - ajuda a reduzir a fraude. Essa regra força os empreendedores a serem realistas quanto aos seus projetos e ao montante de dinheiro que necessitam.

O RocketHub permite que os arrecadadores de fundos fiquem com o dinheiro mesmo que suas metas malogrem. Mas a empresa não vê necessidade de reter o dinheiro porque 75% dos fundos arrecadados no seu site são de pessoas conhecidas dos donos do projeto ou de amigos dessas pessoas.

O RocketHub também tem um enfoque mais liberal nas propostas de campanha, deixando que todas sejam expostas desde que legais e não ofensivas. O Kickstarter recusa projetos que considera inadequados.

Mas fraudes e projetos jamais materializados às vezes surgem. Num caso famoso, a campanha de um videogame arrecadou US$ 5 mil no Kickstarter até que usuários de um fórum no site social Reddit descobriram que o projeto era uma fraude. A campanha foi cancelada. Por isso, James Portnow, designer de jogos em Seattle, critica o método do Kickstarter. "Vi inúmeros videogames no site que não estão dentro do escopo determinado por eles para levantar capital." No ano passado ele tentou levantar fundos para pagar os honorários médicos de um colega, mas sua campanha foi recusada pelo Kickstarter porque "não era um projeto artístico".

Ele procurou o RocketHub e arrecadou mais de US$ 100 mil (a meta era US$ 15 mil). Ele pretende investir o restante em outros empreendedores. "Sinto uma responsabilidade pela quantia que levantei." Para quem está sem dinheiro ou é discriminado por fundos de venture capital, o crowdfunding é uma luz no fim do túnel. Mesmo assim, há quem veja esse tipo de financiamento como uma porta aberta para fraudes.

Tradução: Terezinha Martino

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