Adilton Venegeroles/Estadão
Adilton Venegeroles/Estadão

Transição capilar inspira mulheres negras a empreender a partir de histórias pessoais

Mercado de tranças e alongamentos motiva negócios reforçados por orgulho da negritude e do cabelo crespo, movimentando o ‘black money’ e combatendo o racismo na beleza

Laila Nery, Especial para o Estadão

31 de outubro de 2021 | 05h00

O “cabelo ruim”, que não se adequava à moda anos atrás, agora representa para muitas mulheres uma jornada de reconstrução da autoestima e da negritude. Nesse processo, até que a transição capilar esteja completa e também depois dela, são necessários muitos cuidados com o cabelo crespo e cacheado - potencial descoberto não só pela indústria de cosméticos como também por empreendedores de beleza e cabeleireiros.

Foi assim que a trajetória da carioca Jacy Carvalho foi se transformando. Incentivada por amigos que admiravam suas tranças, ela começou a ajudar outras mulheres a passar pela transição ensinando tranças em vídeos no Youtube em 2014, quando ainda era adolescente.

“As pessoas queriam saber como eu fazia as minhas tranças sozinha. Consegui câmera emprestada, computador para editar e fiz meu primeiro vídeo”, conta a afrohairstylist. Na época, Jacy não imaginava que poucos amigos se tornariam milhares de seguidores e ela - na época uma adolescente insegura sobre seus fios - se tornaria uma referência para tantas mulheres que optam por passar pela transição capilar utilizando tranças.

“Eu ainda usava as tranças como forma de me esconder, tinha uma insegurança absurda quando o assunto era meu cabelo crespo. O canal foi uma forma de autodescoberta. Foi ali que iniciei minha transição capilar, entre as tranças e penteados”, diz ela. Cinco anos depois de começar como youtuber, em 2019 Jacy abriu uma loja de fibras sintéticas para tranças, a Ciara.

Antes de Jacy Carvalho começar a sua carreira no youtube, a empresária Flávia Santana decidiu deixar de lado os 20 anos trabalhando como enfermeira num hospital de Salvador e investiu tempo e dinheiro em seu próprio instituto de beleza, que hoje inclui uma fábrica de cosméticos (marca Essência dos Cachos) e parceria com salões de beleza em 12 Estados. 

Ela sempre amou seus cabelos crespos, mas, para mantê-los arrumados, importava produtos do exterior. “Porque aqui no Brasil a gente não achava. Numa cidade como Salvador, com 73% de população negra, eu me via obrigada a trazer produtos dos Estados Unidos, em 2010. Mas sempre entendi muito de química e lia as composições. Nem os produtos que naquela época se diziam apropriados para cabelos crespos realmente eram. Olhava para dentro da minha casa e nenhuma das minhas irmãs, com diferentes texturas de cabelo, se sentia feliz em utilizar os produtos que a gente podia comprar. Por isso decidi fazer os produtos”, conta.

Sair da CLT para empreender não foi uma decisão fácil. “Me planejei com antecedência, fiz uma reserva.” E Flávia só começou a dormir tranquila no segundo ano do Instituto de Beleza Essência dos Cachos. Hoje, ela diz que chega a faturar R$ 400 mil por mês nos meses mais lucrativos. Por meio do instituto, ela presta consultoria a salões que aprendem e replicam técnicas variadas, como ozonioterapia capilar.

Veja vídeo de Jacy Carvalho:

Para a empreendedora Karinne Machado, a oportunidade veio do ramo dos alongamentos capilares, usados em mulheres que não querem fazer o big chop - corte para retirar as pontas quimicamente alisadas, quando a mulher fica com o cabelo bem curtinho e opta pelo megahair.

Com dez mulheres da própria família investindo em transição capilar, Karinne viu a possibilidade de multiplicar dinheiro. Há dois anos, criou o Karinne Hair Cabelos Humanos. Com um investimento inicial de R$ 88 mil, Karine deixou de lado a carreira em um banco e começou a estudar métodos de alongamento capilar. Hoje, diz faturar cerca de R$ 60 mil por mês.

“Não foi fácil tomar a decisão de abrir mão da minha estabilidade financeira e começar a empreender do zero. Trabalhar com cabelo humano também exige um investimento inicial bem alto, senti medo, nervosismo. Mas hoje, quando vejo o meu nome estampado na entrada do meu salão, me sinto realizada”, conta.

Racismo no mercado da beleza

Mulheres como Karinne, Jacy e Flávia perceberam nelas mesmas e nas milhares de brasileiras com cabelos crespos ou cacheados o racismo no mercado da beleza - por muito tempo, negras não foram vistas como consumidoras.

Ao ver suas irmãs passando pelos mesmos problemas relacionados à autoestima, a pesquisa de mercado foi fácil: amigas, vizinhas, mulheres que passavam por transição capilar começaram a exigir novas possibilidades.

“A transição é uma jornada de autoconhecimento e aceitação. É um momento difícil. Exige paciência e cuidado com o cabelo que está crescendo. Respeitando o fio original da minha cliente, não posso pesar demais na aplicação. O ideal é a utilização de telas finas, para manter a integridade e o crescimento dos fios naturais”, explica ela, que defende o entrelace como o mais adequado para transição com o alongamento, pois ajuda a proteger o cabelo natural.

Clientes como as de Karinne representam 40% dos consumidores brasileiros, que movimentam quase R$ 2 trilhões anualmente, segundo a pesquisa "As faces do Racismo”, do Instituto Data Favela. Mas, segundo Flavia Santana, a maioria das marcas ainda não está adequada para atender as necessidades do cabelo crespo. “A boa vontade da marca acaba no rótulo. A preocupação com o cabelo ainda é deixada de lado.”

A pesquisa do Data Favela, feita em parceria entre a Cufa (Central Única das Favelas) e o Instituto Locomotiva, também diz que 79% da população acreditam que muitas marcas se aproveitam do combate ao preconceito em campanhas publicitárias, mas não têm ações concretas para mudanças.

Para Jacy Carvalho, criar a Ciara, marca de fibras para tranças, foi uma forma de trazer produtos ao público que ela própria não encontrava com facilidade. “Ser empreendedora tendo pessoas como eu como público-alvo é algo que me deixa feliz. Mostrar possibilidades de beleza para essas pessoas é a missão da Ciara.”

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