Scott McIntyre/The New York Times
Scott McIntyre/The New York Times

Testamento online e startups funerárias mostram que a morte chegou na internet

Geração do milênio começa a testar os limites da web para o mercado da morte

Eilene Zimmerman, The New York Times

08 de novembro de 2016 | 05h00

A morte e toda a sua burocracia custam caro, mas raramente são vistos como um negócio pelas pessoas. Muitas prefeririam não ter de tomar decisões envolvendo tubos de alimentação, funerárias e outros assuntos relacionados com o fim da vida até o momento em que a necessidade se impõe.

E à medida que nossa população envelhece este setor de atividade recebe mais atenção, novas firmas - muitas delas empresas de tecnologia - vêm surgindo e competindo em termos de preço e conveniência.

Trata-se de um setor avaliado em US$ 18 bilhões que era deixado de lado pela tecnologia, disse Dan Isard, presidente da Foresight Companies, empresa de administração financeira em Phoenix, especialista em questões relacionadas a funerais e cemitérios.

Segundo Isard "os agentes funerários "preferiam mais se sentar diante de uma pessoa e conversar com ela, ouvi-la, e não ir online, para tentar imaginar como seria a questão no seu próprio caso. Esta também é uma razão pela qual o setor conseguiu manter sua falta de transparência de preços. Mas com quase 2,6 milhões de pessoas morrendo a cada ano nos Estados Unidos, os empreendedores viram aí uma oportunidade para inovar.

Uma nova safra de startups de tecnologia quer abocanhar uma fatia do setor. Muitas foram criadas por jovens da chamada geração do milênio, que cresceram online e esperam entrar neste mercado e se encarregar de tudo que o envolve.

À medida que a geração dos anos 50 fica mais familiarizada com as compras online, as startups depara com um público bem mais engajado. E os jovens entre seus 20 e 30 anos que precisam encarar alguns eventos importantes da vida, como casamento, nascimento de um filho ou mesmo a perda de um parente, também necessitam de um planejamento dos serviços.

Um cliente típico seria alguém como Michelle LaBerge, moradora em Oshkosh, Wisconsin, que há pouco completou 50 anos de idade e ajudou os pais a mudarem para um lar de idosos. Tudo isso lhe lembrou que ela também precisa manter assuntos de seu interesse pessoal em ordem.

Mas desistiu diante das dificuldades e os gastos que implicavam consultar um advogado. Quando, por meio do site Groupon, recebeu uma oferta de uma startup chamada Willing, que coloca à disposição documentos relacionados com sucessão de bens, específicos do Estado, e que podem ser atualizados a qualquer tempo, ela decidiu experimentar o serviço.

Por US$ 30, ela fez um testamento personalizado adaptado às suas circunstâncias particulares. "Foi muito fácil. Comparei o documento com o testamento assinado por meus pais, que foi preparado por um advogado, e me pareceu o mesmo.

Os fundadores da Willing, Eliam Medina e Rob Dyson, queriam criar uma plataforma que permitisse aos usuários a preencher seus próprios documentos sucessórios, como testamento, procuração para advogado e diretivas relativas à assistência médica.

"Se examinar o que a TurboTax fez no campo do planejamento de impostos, é o que queremos fazer no caso do planejamento de uma sucessão", disse Eliam Medina, diretor executivo da empresa.

Uma primeira versão da plataforma foi introduzida na Flórida em janeiro de 2015. Os clientes foram convidados a experimentar o serviço gratuitamente e cerca de 500 testamentos foram elaborados. Naquele verão a Willing, com sede em Miami, usando a incubadora de startups Y Combinator, se expandiu para os 50 Estados. A companhia levantou US$ 7 milhões de capital inicial. Segundo Medina 25.000 testamentos foram elaborados na plataforma.

Até a recessão de 2008, a indústria do funeral praticamente não mudou, disse David Nixon, presidente da Nixon Consulting, que trabalha com proprietários de agências funerárias. Mas desde então, as pessoas buscam ativamente maneiras de simplificar o processo que cerca um funeral.

A startup Parting, fundada há um ano em Los Angeles, que é na verdade um catálogo online de funerárias que podem ser encontradas pelo código postal, permite aos usuários comparar preço e serviços e ver a localização das funerárias.

Uma equipe de pessoas que se apresentam como interessados busca informação sobre preços e serviços das funerárias que não sabem que tais informações são para o website. Um número cada vez maior de agentes funerários, contudo, vem trabalhando voluntariamente com a Parting, colocando suas informações no banco de dados, que agora conta com mais de 15.000 funerárias.

Outra startup em Los Angeles, Grace, vem lidando com todos os problemas que podem aturdir os membros de uma família que enfrenta a dor da morte de um ente querido. Existe pouca orientação quanto ao que fazer quando alguém morre, disse Alex Kruger, cofundador e diretor executivo da Grace.

"São perguntas do tipo 'quais são as 60 coisas que precisamos fazer nos próximos três meses?'. Na Grace, nós dizemos, 'estas são as 17 coisas que vocês necessitam fazer esta semana e devem ir marcando à medida que concluem o trabalho. Eis o que você têm de fazer antes de alguém falecer, quando morre e duas semanas depois'".

Hoje a maioria dos clientes da Grace que procura a firma é auxiliada por funcionários que também são agentes funerários licenciados, incluindo Alex Kruger e seus sócios. 

A Grace, aberta em junho, levantou US$ 2 milhões de financiamento para iniciar suas atividades e os negócios vêm crescendo cerca de 20% ao mês. Os serviços são oferecidos somente no sul da Califórnia, mas Alex Kruger disse que no final do ano estará atendendo também o norte da Califórnia e no ano que vem outros Estados.

Possivelmente a situação mais difícil que o cliente enfrenta é decidir como gostaria de ser tratado ao morrer e comunicar isto aos seus familiares.

Cake, startup de Boston, fundada na conferência Hacking Medicine do MIT - Massachusetts Institute of Technology, em 2015, auxilia os usuários a decidir o que gostariam no fim da vida, como ser mantido vivo artificialmente ou o que fazer com sua página no Facebook. Suas decisões são arquivadas na nuvem e a Cake as comunica para as pessoas designadas pelo cliente.

A startup até o momento se autofinanciava, mas agora conseguiu um financiamento, disse Suelin Chen, fundador e diretor executivo da Cake. 

Na plataforma, uma série de perguntas é formulada para os usuários de modo a ajudá-los a determinar suas preferências. As respostas são usadas para elaborar o perfil dos interessados no Cake, ao qual podem acrescentar observações e instruções para membros da família e amigos.

Um ambientalista, por exemplo, poderá saber que outras pessoas que compartilham os mesmos valores doaram seu corpo para a ciência. Ou pode definir que tem preferência por um enterro biodegradável.

"As pessoas se inspiram no que outras fazem. Faz parte da vida", disse Chen. E agora também da morte. / Tradução de Terezinha Martino 

 

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