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Tecnologia aplicada a esportes vira filão para negócios

De gerenciador de carreiras a prancheta virtual, plataformas facilitam rotina de clubes; com análise de dados, mercado das sporttechs dá opções para diversificação de renda

Levy Teles, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2020 | 16h00

Especial para o Estado

Na Copa de 2010, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, discursou contra a tecnologia no futebol. “Se tivesse tecnologia no campo, não haveria mais especialistas.” Em 2018, o sistema de revisão de impedimento e o árbitro de vídeo (VAR) já faziam parte da competição. O futebol ainda é relutante sobre o uso da tecnologia, mas ela veio para mudar o esporte. Com ela, cresce um filão, o das sporttechs.

Startups do mundo esportivo, elas são empresas que propõem soluções tecnológicas que podem ir de ciência de dados e inteligência artificial até plataformas de gestão de treinos e exercícios. De acordo com estudo da aceleradora Liga Ventures em parceria com a Brazil Sports Tech, há no Brasil mais de 130 startups no setor, em 10 Estados.

“Hoje, o futebol é a principal área de interesse delas, até pelo País em que vivemos”, diz Raphael Augusto, da Liga Ventures. “Há uma necessidade do mercado de inovação para resolver gestão de clubes, receitas de federações e trazer tecnologia relacionada à performance de atletas.”

O futebol sempre foi parte da vida de Bruno Pessoa. Seu bisavô foi um dos primeiros empresários de futebol no País e seu pai foi preparador físico com passagens por Flamengo e Fluminense. Em 2018, junto com Felipe Araújo, criou a Tero.

A proposta da empresa é ligar jogadores a clubes de todo o Brasil, como um gerenciador de carreiras. No aplicativo, treinadores podem avaliar vídeos de performance de atletas de 13 a 23 anos. “A gente se deparou com um volume de jogadores muito grande. Do outro lado do ecossistema, a gente viu que os clubes faziam um processo manual. Eles continuam fazendo a mesma coisa que faziam em 1970”, afirma Pessoa.

Com um investimento inicial de R$ 150 mil, o aplicativo iniciou atividades até que, em rodada semente, levantou R$ 1 milhão em recursos. Tem hoje 47 mil atletas cadastrados, 1.200 treinadores e já realizou parceria com a La Liga (campeonato da primeira divisão do futebol espanhol) para eventos no Brasil. Pessoa conta que o app já desperta o interesse de grandes clubes de Rio e São Paulo. 

Já o modo de atuação da TacticalPad é diferente. Para facilitar o trabalho do treinador, a plataforma funciona como uma prancheta virtual, um aplicativo que pode ser usado no tablet. A ideia do app, segundo o fundador Fernando Closs, foi pensar numa solução que viesse do dia a dia do treinador, e não para se encaixar na rotina dele.

Hoje, a empresa, que nasceu em 2008, tem parceria com 90% dos clubes da primeira e segunda divisões do futebol brasileiro, além de ser usada na Seleção. Mas o caminho não foi simples nesses anos e os frutos demoraram a vir, dada a pouca abertura do esporte à tecnologia. No caso dele, ajudou ter atuado primeiro nas divisões de base, mais receptivas, com técnicos que mais tarde assumiram cargos em divisões superiores.

“É um ponto ainda bastante sério: as portas não são tão abertas”, diz Closs, segundo quem a empresa tem porte pequeno (com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões). “O poder de divulgação dos treinadores foi muito grande e um dos motivos do nosso sucesso.” Hoje, são 50 mil usuários ativos e de 2 a 3 milhões de downloads do aplicativo, que funciona por assinatura. 

Durante a quarentena, o aplicativo pode ser usado de forma gratuita até o final de junho e o serviço oferece webinars com treinadores para ensinar como usar a ferramenta. “Os treinadores não podem trabalhar, mas este pode ser um momento para eles replanejarem treinos físicos.”

Inovação em perspectiva

Fundada em 2017, a iSPORTiSTiCS, que estima faturar neste ano entre R$ 3,5 milhões e R$ 4 milhões, vai um pouco além no uso da tecnologia. Com base em machine learning e deep learning, a inteligência artificial desenvolvida pela empresa consegue coletar estatísticas, gerar melhores momentos e selecionar dados de partidas de futebol apenas por vídeo.

A ideia, segundo Vinicius Gholmie, CEO da empresa, era criar um serviço que pudesse ser usado desde ligas menos profissionais até grandes clubes. A grande parceria no Brasil foi com a Federação Paulista de Futebol (FPF). Com a tecnologia Hat-Trick, a iSPORTiSTiCS criou uma geração automática de melhores momentos para ser usado na Copa São Paulo de Futebol Júnior. Em poucos minutos, o sistema gerava os melhores momentos.

“Como é um torneio de curta duração, você tem 252 jogos em 20 dias. Se você tem 46 jogos acontecendo ao mesmo tempo e precisa separar os melhores momentos, ou você contrata um exército de videomakers ou não consegue fazer”, diz Gholmie. Como efeito das publicações dos melhores momentos, que começaram a ser divulgados 30 minutos após o jogo, a FPF ganhou 80 mil novos seguidores em sua página oficial.

Essa é uma das soluções possíveis para grandes clubes: diversificação de renda. Estudo da agência de marketing esportivo SportsValue sobre os principais clubes do futebol brasileiro aponta que ainda há falta de outras fontes de receita. Os direitos de transmissão da TV ainda são a principal, podendo chegar a até 57% da receita total, caso do Coritiba.

E os dados analíticos podem ser um caminho para clubes e federações. Um estudo divulgado pela PR Newswire fala que a área de sports analytics pode chegar a um valor de mercado médio de US$ 4,6 bilhões nos próximos cinco anos. A NBA, liga de basquete americano, teve um aumento de 63% em visualizações de página após inserir dados analíticos combinados com vídeos em seu site. 

Em tempos de quarentena, quando reprises voltam à moda, a iSPORTisTiCS fez parceria com a TV Gazeta para disponibilizar informações gráficas em análises táticas de jogos históricos. “Todo mundo já viu centenas de vezes o milésimo gol de Pelé. Imagina se você pudesse saber o passo, a velocidade do chute de Pelé, a reação do goleiro, quantos repórteres invadiram o campo. Você pode criar narrativas diferentes”, fala Vinicius Gholmie.

Já a Tero registrou um aumento de 35% de usuários no primeiro mês de quarentena. Tudo é feito de forma remota, com avaliação física pelo Google Fit, teste tático com um aplicativo elaborado na Universidade Federal de Viçosa, e rotina de treinamentos pelo Zoom.

Tudo isso, dizem os empreendedores, pode significar uma mudança na gestão dos clubes. “O principal interesse deles ainda está no jogo de domingo, no patrocínio da camisa. Agora se vê um período em que os clubes enfrentam dificuldades por não terem pensado a médio e longo prazos”, pontua Bruno Pessoa, da Tero.

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