Pablo Vaz
Pablo Vaz

Sustentabilidade faz pequeno negócio racionalizar descarte de materiais

Até quando custo de ações é alto, PMEs se adaptam com itens biodegradáveis para minimizar geração de lixo e fortalecer relação com a clientela

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2019 | 06h00

Por conveniência ou convicção, é hora de os pequenos negócios entrarem na era da sustentabilidade. Os motivos vão desde a adaptação para leis estaduais ou municipais até as exigências dos consumidores, mais preocupados e engajados com o tema. Mas como começar a trilhar este caminho? Práticas para reduzir a geração de resíduos e proporcionar seu descarte correto, além de diminuir o uso de recursos naturais no processo de produção ou serviço, podem ser os primeiros passos para empresas que vão nascer ou se adequar.

“Existem diversos níveis de maturidade de sustentabilidade empresarial. No início, há práticas mais simples que podem representar até mesmo diminuição de custos, como ações de eficiência energética e hídrica e critérios para a contratação de fornecedores”, explica a pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP Ana Coelho. 

A rede de franquias Acquazero é um exemplo de negócio que surgiu devido a uma questão ambiental: a crise hídrica. Em 2009, a empresa nasceu com o objetivo de lavar um carro com 300 ml de água, o equivalente a um copo. Além da quantidade mínima de água, todos os produtos utilizados no processo são 90% biodegradáveis. 

“A cera de carnaúba é o principal ativo na lavagem. Além de ser um produto biodegradável, ele não risca o carro e encapsula a sujeira”, conta Henrique Mol, diretor executivo da rede Acquazero. Mol explica que os produtos utilizados na lavagem foram desenvolvidos em conjunto com uma indústria e são usados exclusivamente pela rede. “Foram cinco anos entre o desenvolvimento e a homologação de todos os produtos necessários para a operação.” 

Atualmente, a rede conta com 240 unidades em todo o País. Para garantir que nenhum franqueado descumpra etapas do processo, auditorias mensais, trimestrais e semestrais são feitas em todas as lojas. “A conscientização ambiental por parte do franqueado é algo natural, pois faz realmente parte do dia a dia dele”, afirma Mol. Sobre dificuldades para o negócio, o diretor explica que ainda há resistência do consumidor em alguns mercados. “O maior desafio é fazer o cliente experimentar pela primeira vez. Depois que ele vê o processo, ele passa a acreditar.”

Também desde a abertura, em 2014, a cafeteria paulistana The Little Coffee Shop implantou copos de papel biodegradável e palitos de madeira (para mexer a bebida) para tentar usar o menor número possível de itens de plástico e isopor. Isso porque o modelo de negócio do local é no estilo “pague e leve”, pois não há espaço para os clientes consumirem in loco. 

“Comecei a usar os copos de plástico há dois anos para as bebidas geladas por questão comercial. Infelizmente, quando a pessoa não enxerga o que está dentro do copo, isso não desperta o desejo. Percebi que as bebidas geladas saem mais em copos transparentes”, diz Flavia Pogliani. A empreendedora ainda conta que no início do ano passado ela implementou xícaras de porcelana para algumas bebidas para quem vai consumir no local, mesmo que em pé.

“Se for comparar o custo do copo de papel biodegradável com o do copo plástico ou o de isopor, o biodegradável é muito mais caro. Estou falando de um preço, por unidade, de R$ 0,17 (biodegradável) contra R$ 0,05 (plástico ou isopor). Mas estamos em um momento em que não se pode separar o negócio do resto do mundo”, diz Flavia. 

Além de ter a prática como princípio, ela acredita que a atitude fortalece a relação com o cliente. “Quando ele vê que é sustentável mesmo, isso pode contribuir na fidelização e no boca a boca.” Por dia, são vendidas cerca de 150 bebidas – 80% delas em copos biodegradáveis. 

Para levar novidade ao cliente com a possibilidade de dar destino inusitado a um resíduo, o sócio da hamburgueria curitibana Whatafuck Daniel Mocellin criou um tênis com solado que leva bagaço de malte. O composto, originado na fabricação da cerveja do local, representa 45% do solado, que também é composto por borracha.

“Eu queria fazer um produto que não gerasse mais impacto ambiental. Primeiro pensamos em usar os papéis nos quais embalamos os hambúrgueres, mas não conseguimos chegar a uma fórmula. Então escolhemos o malte. Mostramos que é possível brincar com os resíduos e fazê-los ter outra vida. Lixo não é necessariamente adubo”, diz Mocellin. O tênis é feito em parceria com a marca Öus Brasil.

Como começar a ser sustentável

De acordo com a pesquisadora da FGV-EASP Ana Coelho, a PME precisa ter de forma clara quais impactos ela gera. “É preciso levar em conta o setor de atuação e a cadeia em que está inserida. Depois, priorizar os temas, pois não se pode abraçar tudo.” Em seguida, diz, devem ser feitos os orçamentos das ações, incluindo funcionários dedicados a isso.

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