Francine Orso
Francine Orso

Startups de RH crescem na esteira da retenção de talentos no mercado

Investimentos se aquecem com onda de demissões no mercado e chegam a US$ 102 milhões, diz a Distrito; plataformas abrem espaço para feedbacks e construção de carreira

Jorge C. Carrasco, Especial para o Estadão

27 de março de 2022 | 05h00

Da automatização de processos corporativos à otimização do engajamento empresarial, startups de recursos humanos têm encontrado oportunidades para ajudar empresas a se tornarem mais atrativas à nova geração de profissionais — crescendo junto com elas. De acordo com a Distrito, atualmente há 370 startups de RH no Brasil. Neste ano, segundo o seu relatório “Inside Venture Capital”, os investimentos no setor estão entre os mais aquecidos do mercado, atingindo cerca de US$ 102 milhões.

Feedz, Qulture Rocks, Matchbox e Vaipe são algumas das startups que estão aproveitando o momento de vaivém no mercado corporativo, com uma onda global de demissões e a busca de corporações para engajar melhor e reter seus talentos.

A Qulture Rocks, liderada por Francisco H. de Mello, ex-colaborador do BTG Pactual e do Nubank, é uma das startups que vivenciaram esse crescimento nos últimos dois anos. A plataforma foi fundada em 2015 e atualmente trabalha com três pilares: gestão de desempenho, engajamento e gestão por metas. Para Mello, a liderança é a variável que dá junção ao processo geral. 

“A gente acredita muito que líderes fazem a diferença no engajamento da empresa e na performance dos colaboradores”, diz ele. “O papel do gestor ou da gestora é fundamental para dar o tom da relação da pessoa com a empresa, e é por isso que a gente investe tanto em criar ferramentas que simplifiquem o processo e contribuam com uma melhor dinâmica.”

Na plataforma da Qulture Rocks, os colaboradores e os líderes têm um intercâmbio livre de ideias em relação ao ambiente de trabalho, e os feedbacks são enviados diretamente de colaborador para líder e vice-versa, com a possibilidade de alinhar um plano individual de metas e de crescimento, de acordo com os objetivos de cada profissional.

“Empresas que adotam este tipo de processo dão uma mensagem, ainda que sutil, de que falar sobre como você está se sentindo é aceito. Em muitos lugares e durante muito tempo isso não era aceito. Então é uma porta que se abre para esses profissionais,” comenta Mello. 

Atualmente, a empresa possui 201 funcionários espalhados por todo o País e nos últimos dois anos cresceu cerca de 67%, ampliando seus projetos para mais de 700 clientes. 

Plataforma gamificada

Fundada em Florianópolis por Bruno Soares e Gabriel Leite, a Feedz é outra HRTech que cresceu tendo como foco desenvolver o engajamento e o desempenho dos colaboradores. 

Desde avaliação de desempenho e gestão de objetivos até os processos de onboarding e feedbacks contínuos, a startup cria uma jornada personalizada e gamificada para seus parceiros, que têm a oportunidade de estruturar planos de carreiras e incentivos mais adequados tanto para funcionários recém-contratados quanto para funcionários de nível sênior.

“Muita coisa mudou nos últimos anos, e hoje o talento tem mais poder na relação entre colaboradores e empresas”, comenta Gabriel Leite. “A nossa proposta é criar ambientes de trabalho mais felizes por meio de uma gestão mais humana e eficiente.”

Atualmente, a HRtech, que conta com cerca de 130 funcionários, já implementou seus processos em mais de mil empresas no País, incluindo colaborações com marcas como Conquer, Kopenhagen, Zurich Airport Brasil e Lacoste. No último ano, a Feedz disse ter tido um faturamento de R$ 10 milhões, com 150 mil usuários na plataforma.

Já a startup paulista Matchbox oferece uma proposta digital com foco na automatização de processos. A empresa, que possui duas plataformas — Spark e HRbot — trabalha com o engajamento dos funcionários em jornadas personalizadas. 

“Nossas plataformas contribuem com uma experiência mais direta para o talento, mais empática. Muitas vezes os funcionários, principalmente os mais recentes numa empresa, se sentem constrangidos de perguntar coisas essenciais para seus gestores ou RHs. Então nós desenvolvemos uma inteligência artificial que responde diretamente até 80% das perguntas dos colaboradores”, disse Kleber Piedade, CEO da Matchbox.

A startup disse ter fechado o ano de 2021 com faturamento de R$ 7,3 milhões, um crescimento de 93% em relação a 2020. Neste ano trabalha em parcerias conquistadas no ano anterior, com empresas como Ambev, Natura e Raízen.

Clima organizacional mesmo no home office

“Durante a pandemia, as empresas foram para o trabalho remoto e perdeu-se essa percepção qualitativa que se tinha presencialmente sobre o status de engajamento dos profissionais. Nesse contexto as nossas ferramentas passaram a dar voz aos colaboradores”, conta Adriana Barbosa, fundadora e CEO da Vaipe.

Após mais de 12 anos em posições de liderança de diversas startups, ela fundou a sua plataforma para a gestão ativa de engajamento de colaboradores. “Percebi que ser líder é um lugar por vezes solitário. Você tem uma responsabilidade muito grande pelo desenvolvimento das pessoas e muitas vezes não tem dados suficientes para saber como os seus colaboradores estão se sentindo.”

A Vaipe cria pesquisas de clima e soluções de desenvolvimento pessoal e profissional dentro de equipes de trabalho, utilizando metodologias que incentivam o engajamento contínuo, anônimo e em tempo real.  A plataforma integra diversos canais de comunicação corporativa — como Microsoft Teams, Slack, e-mail e até SMS — e proporciona análises de pessoas com comparativo de mercado para que as lideranças possam tomar melhores decisões e identificar melhores práticas que valorizem seus talentos.

“Tornou-se cada vez mais importante para as empresas desenvolver pesquisas anônimas para entender questões como saúde mental, autoidentificação, satisfação com a liderança, alinhamento com a cultura da empresa e até desejos de crescimento profissional dos seus funcionários”, diz ela. 

Em novembro de 2020, a startup atingiu seu breakeven — ou ponto de equilíbrio financeiro, quando custos e despesas operacionais se igualam à sua receita — e em 2021 foi eleita como TOP 10 HR Techs e TOP Empreendedorismo Feminino pelo ranking TOP 100 Open Startups. No último ano, a Vaipe teve cerca de 27.500 usuários únicos na plataforma, um aumento de 173% em relação a 2019.

Quer debater assuntos de Carreira e Empreendedorismo? Entre para o nosso grupo no Telegram pelo link ou digite @gruposuacarreira na barra de pesquisa do aplicativo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.